No silêncio do Tua, uma família decidiu arriscar. Há 20 anos que não existia ali um alojamento aberto todo o ano

No silêncio do Tua, uma família decidiu arriscar. Há 20 anos que não existia ali um alojamento aberto todo o ano

  • 19/05/2026 01:30
  • Redação

Num território de onde quase todos partem, uma mulher decidiu ficar e insistir. Deu nova vida a uma casa abandonada em Foz do Tua, transformando-a num alojamento construído com as próprias mãos, apesar de anos de burocracia e resistência local. Mais de 20 anos depois, o Tua volta a ter um espaço hoteleiro aberto todo o ano. Seis anos após a compra e dois de espera com tudo pronto, o ‘Villa Tua’ recebe agora hóspedes, para que o Douro profundo volte a ser vivido e não apenas atravessado pelo comboio.

No Tua, o silêncio não significa vazio. A paisagem impõe-se com uma densidade quase física, feita de encostas desenhadas por vinhas, do curso paciente do rio, apenas interrompido pelo som metálico do comboio que, ao longe, ainda confirma a existência de ligações ao exterior (dois comboios que se cruzam, um que vem da Régua para o Pocinho e outro que vai do Pocinho para a Régua às 13h35, aos domingos).

Entre essa quietude, Isabel Alves encontrou não apenas um lugar para ficar, mas uma razão para agir. E a pergunta que a deixou definitivamente a pensar, surgiu do marido, Francisco Pereira, 41 anos: “Porque permanece este território adormecido, quando a beleza é evidente e o potencial tão frequentemente elogiado?”

A interrogação acabou por se transformar em projeto. Junto à estação do Tua, o Miradouro do Pescador oferece uma vista ampla sobre o vale, permitindo observar o rio em toda a sua extensão visível, num enquadramento que surpreende pela escala e pela nitidez. A poucos metros está o sonho de Isabel e Francisco.

Na unidade hoteleira inaugurada há poucas semanas, a rotina constrói-se de forma idêntica à de qualquer casa. Francisca, 4 anos, participa sem hesitação nas tarefas mais simples. “Podes vir aqui ajudar a mãe a servir os pequenos-almoços? Pegas aqui. Obrigada, amor. Podes pôr em cima da mesa.”

Natural de Alijó, com 35 anos, Isabel cresceu com uma ideia persistente. “O meu pai sempre sonhou em ter uma casa em Foz Tua. Foi mesmo um sonho que ele sempre idealizou.”

A esse desejo juntou-se uma inclinação própria, alimentada pela formação em turismo em Vila Real. “Sempre gostei de interagir com pessoas, sempre tive o gosto de servir.", explica.

A concretização exigiu muito mais do que planeamento. A imagem de Isabel à porta, a preparar baldes de cimento, descreve um processo real. “A construção da casa foi mesmo toda feita por nós. Eu, o meu marido, o meu irmão, o meu pai, o meu sogro. Foi mesmo um projeto familiar”, recorda, sem esconder a emoção.

A oportunidade surgiu em 2020, quase de forma inesperada. Um contacto rápido, uma negociação curta e a aquisição ficou concluída em poucos dias. Mas Isabel e Francisco não imaginavam que decorreriam anos até poderem inaugurar o novo alojamento.

Além da pressão informal, os obstáculos institucionais foram constantes. Processos demorados, exigências sucessivas e dificuldades na articulação com entidades oficiais prolongaram a espera muito para além do previsto.

A casa esteve pronta durante dois anos sem poder abrir portas. “Se não fosse o meu pai a ajudar-nos em nível financeiro, eu tinha parado a obra”, conta Isabel.

Seis anos de percurso separaram a compra da abertura efetiva. A sensação de injustiça permanece. “Há tanta coisa feita mal aqui e nós tivemos de seguir mesmo tudo à risca”, refere, sublinhando as dificuldades iniciais com a autarquia. “Tentativas de justificação que não avançavam, respostas que recuavam processos, uma sucessão de entraves que tornaram o caminho mais pesado do que o previsto.”

Apesar disso, a decisão de avançar manteve-se intacta. A abertura do alojamento acontece num contexto particular. Durante mais de vinte anos, nenhuma nova unidade turística tinha surgido na zona do Tua e principalmente a funcionar todo o ano.

Atualmente, a oferta resume-se a muito pouco: um hotel encerrado em época baixa e este novo projeto. A estratégia passou por não depender apenas da estadia. Isabel e Francisco proporcionam a quem os visita passeios de jipe, percursos até miradouros e visitas aos passadiços de São Mamede (recentemente inaugurados).

“Aqui não há atividades que as pessoas possam fazer. E assim nós tentamos que as pessoas fiquem aqui, que conheçam a zona”, explica Isabel.

“Villa Tua” surge “como uma afirmação direta do lugar, não como aldeia despovoada, mas como uma espécie de vila procurando destacar a ligação à localidade e contrariar a ideia de uma aldeia sem expressão”, elucida a empreendedora, sobre a escolha do nome. A linha ferroviária, com ligações regulares ao Porto, Régua e Pocinho, reforça essa tentativa de reposicionamento.

A presença de jovens é residual, com cerca de oito crianças na localidade, o que evidencia um problema estrutural de desertificação. Francisco Pereira descreve o contraste entre expectativa e realidade. “Primeiro, há aquele sonho… Depois, deparamo-nos com a realidade, que não tem nada a ver com o sonho. A burocracia e a ruralidade surgem como obstáculos centrais. A localização traduz-se numa ambiguidade constante. A proximidade a Vila Real não elimina a sensação de isolamento, sobretudo na ausência de serviços essenciais. Estamos próximos e muito longe”, resume.

Ainda assim, a motivação não desaparece. O vínculo ao território sustenta a decisão. “É o amor à terra, é a vontade de querer fazer algo por este território que está abandonado”, revela Francisco, acrescentando uma crítica aos “modelos turísticos dominantes que pouco deixam na região”.

Do lado de quem já investe na zona, a leitura é semelhante. Paulo Russo, 66 anos, proprietário da Casa dos Cantoneiros, onde se come tapas e petiscos regionais, identifica uma falta de iniciativa generalizada.

A caracterização de Isabel e Francisco como “loucos” surge, neste contexto, como reconhecimento. “Temos de ter um pouco de loucura para virmos à procura daquilo que não existe ainda”, defende, apontando a ausência de alojamento e restauração como falhas evidentes.

“A inexistência de novos projetos desde o início dos anos 2000 reforça a ideia de estagnação, há pelo menos 20 anos que não se via um novo hotel e aberto todo o ano. A chegada desta unidade introduz, por isso, uma alteração relevante no panorama local”, felicita o empresário, sem deixar de ironizar que "estes jovens devem ser loucos".

Entretanto, hóspedes ingleses já passaram pela nova casa hoteleira, enquanto reservas de turistas alemães confirmam uma procura internacional inicial. Isabel respira de alívio por ter conseguido trabalhar na área para a qual tirou formação.

Debaixo de laranjeiras e limoeiros e com o Rio Tua a servir de espelho, quem ali dorme não depende de alarmes artificiais. “Os primeiros a despertar os hóspedes são os melros”, conta a proprietária, descrevendo aves persistentes que batem nas janelas ao nascer do dia.

  • Fonte: Rádio Renascença
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