Estreia mundial de ópera sobre o 25 de Abril inspirada em livro de Lídia Jorge

Estreia mundial de ópera sobre o 25 de Abril inspirada em livro de Lídia Jorge

  • 20/05/2026 01:30
  • Redação

O compositor Eurico Carrapatoso era um jovem estudante no Colégio dos Jesuítas, em Santo Tirso, quando se deu o 25 de Abril de 1974, a data que inspira a ópera “Por Todos Nós” que agora escreveu e que estreia esta quarta-feira, no Teatro Aberto, em Lisboa.

Carrapatoso reviveu este tempo de “revelação”, como lhe chama, ao ler o livro “Os Memoráveis”, de Lídia Jorge, que inspira a ópera “Por Todos Nós” que agora compôs. Além dos 50 anos da Revolução dos Cravos, a ópera assinala também os 50 anos do Teatro Aberto.

“Tendo sido duas as canções que foram a senha, o 'Depois do Adeus' e o 'Grândola Vila Morena' fazia sentido que a escolha recaísse numa ópera", indica Vera San Payo Lemos, que recorda também que depois do 25 de Abril “cantava-se muito”.

“Havia muitas canções, as pessoas estavam na rua, cantavam, havia hinos. Foi-se recuperar aquelas canções do Lopes Graça, as canções heroicas e até canções populares portuguesas”, explica.

Também o compositor Eurico Carrapatoso admite que se deixou contaminar, de forma “vital”, pelo lado musical que está ligado à Revolução de Abril.

“Por exemplo, o Grândola aparece sempre de forma velada. Não são uma coisa ‘show-off’ que toda a gente vai perceber, mas está lá a lançar uma química e a contaminar a textura harmónica e tímbrica” na ópera, refere o seu autor.

A adaptação do libreto “não foi fácil”, explica a encenadora. “O libreto tem de ser muito conciso. Para transformar um romance de mais de 300 páginas num texto muito conciso, têm se de fazer várias operações”, diz San Payo Lemos, que evoca as palavras que Carrapatoso disse durante a criação da ópera: “Concisão para não morrer de exaustão”.

Cada cena da ópera tem um título e criaram uma figura nova, referida no romance. “É uma figura de um anjo que terá passado por Lisboa muito brevemente durante 20 horas como se diz no romance. Ele aparece no prólogo, para iniciar e depois no fim. Aparece ao longo de toda a ópera, mas é só a Ana Maria Machado que o vê e que fala com ele”, diz a encenadora.

Olhando para os dias de hoje, Vera San Payo Lemos fala da importância de recordar os acontecimentos do 25 de Abril. “Penso que é muito importante falarmos e defendermos o que para nós é importante. Devemos fazer ouvir a nossa voz”, aponta.

“Vamos ter um coro que é o representante da Pólis. É importante mostrar o sentido de comunidade e julgo que é importante sempre elevamos a nossa voz”, diz Vera San Payo Lemos.

A sorrir, Eurico Carrapatoso volta às suas memórias do dia da Revolução e conta como viu as coisas mudar.

“Eu vivi aquilo sem qualquer consciência política. É verdade! Pude perceber que aconteceu ali quase um milagre de transformação, porque o irmão Gama e os outros prefeitos deixaram-me crescer o cabelo e a barba. Na festa de encerramento do ano letivo, em julho, o irmão Gaba apresentou-se completamente transformado com bigodaça, calças à boca de sino, sapatos de tacão alto. Nunca o tínhamos visto assim!”

Os figurinos são de Marisa Fernandes e a ópera conta com Cátia Moreso, Mariana Castello Branco, Inês Constantino, Ricardo Panela, Luís Rodrigues, José Fardilha, Tiago Matos, Diogo Oliveira, João Rodrigues, Leonel Pinheiro, Tiago Amado Gomes, Mário Redondo, Leandro Silva, Ana Franco, Patrícia Quinta, João Oliveira, Nuno Dias, Rita Coelho, João Queirós, Tiago Navaro e Gabriel Neves Santos.

Na estreia da ópera, o Novo Grupo de Teatro - Teatro Aberto vai ser distinguido com a Medalha de Mérito Cultural, pelo "contributo extraordinário e impacto duradouro na cultura portuguesa".

Em comunicado, o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto refere que a medalha de mérito cultural reconhece "um trabalho de cinco décadas dedicado à criação e divulgação da dramaturgia e ao desenvolvimento das artes performativas em Portugal".

  • Fonte: Rádio Renascença
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