Entre uivos, teatro e tatuagens: Benagouro transforma o lobo ibérico em símbolo de arte e resistência

Entre uivos, teatro e tatuagens: Benagouro transforma o lobo ibérico em símbolo de arte e resistência

  • 20/05/2026 08:09
  • Redação

Durante cinco dias, a pequena aldeia de Benagouro, no concelho de Vila Real, deixará de olhar para o lobo apenas como uma figura distante das serras e das histórias antigas. Entre os dias 26 e 30 de maio, a localidade recebe “Lua Cheia na Terra”, um encontro cultural e ambiental que junta espetáculos, conversas, cinema documental, caminhadas e até tatuagens inspiradas no lobo ibérico.

Integrado na Semana da Biodiversidade e promovido em colaboração com o Município de Vila Real, o evento nasce da continuidade do espetáculo “Loba”, criado pela Peripécia Teatro, que no último ano abordou as várias dimensões associadas ao lobo ibérico: ecológica, política, social e simbólica.

“Sentimos que toda a informação recolhida durante o processo criativo não podia ficar apenas no espetáculo. Havia uma necessidade de abrir esta reflexão à comunidade”, explica Sérgio Agostinho, diretor artístico da companhia.

“O lobo ibérico continua a ser uma espécie essencial para os ecossistemas, mas também um animal profundamente marcado por medos, mitos e incompreensões”, salienta.

Ao longo da programação, o público será convidado a descobrir diferentes perspetivas sobre o animal. O espetáculo “Loba” regressa ao palco cruzando memória, ficção e denúncia ambiental, enquanto várias sessões de cinema documental procuram revelar o lado menos visível desta espécie protegida.

Haverá também conversas com investigadores e especialistas ligados à conservação da natureza, num esforço para desmontar preconceitos antigos. “Falar do lobo é falar da relação entre o ser humano e o território. É perceber como tratamos aquilo que ainda permanece selvagem”, sublinha Sérgio Agostinho.

Mas o evento não se limita às salas ou aos palcos. Um tatuador residente estará presente durante os cinco dias, convidando participantes a eternizar símbolos ligados ao lobo na própria pele. Pequenas figuras, traços minimalistas ou representações mais detalhadas tornar-se-ão marcas permanentes de uma experiência coletiva.

Para quem prefere uma aproximação mais silenciosa, estão previstos passeios interpretativos pelo território envolvente de Benagouro. A proposta passa por observar a paisagem, reconhecer vestígios e escutar o ambiente, numa tentativa de compreender a presença discreta do lobo na natureza.

“A ‘Lua Cheia na Terra’ pretende criar um encontro entre arte, ciência e comunidade”, acrescenta o diretor artístico da Peripécia Teatro. “Queremos transformar esta iniciativa num momento anual de celebração da biodiversidade e da consciência ecológica”, explica.

Historicamente espalhado por grande parte da Península Ibérica, o lobo ibérico encontra-se hoje reduzido a núcleos cada vez mais pequenos. Ainda assim, continua a ocupar um lugar poderoso no imaginário coletivo — simultaneamente temido, admirado e simbólico.

Em Benagouro, durante cinco dias, o “lobo mau” das narrativas tradicionais dá lugar a um símbolo de equilíbrio ecológico, memória ancestral e resistência natural.

E talvez seja precisamente essa a pergunta que o evento deixa no ar: afinal, o medo do lobo pertence ao animal — ou à forma como aprendemos a olhar para ele?

  • Fonte: Rádio Renascença
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