O retrato da emigração portuguesa em França em palco

O retrato da emigração portuguesa em França em palco

  • 21/05/2026 08:00
  • Redação

Foi ele próprio um emigrante, tal como os seus pais. Tiago Cadete revisitou a história da família para criar “Souvenir”, o espetáculo que vai estar em palco no Teatro Ibérico, em Lisboa, nos dias 28 e 29 de maio, durante o festival Temps d’Images.

“Havia muita curiosidade da minha parte de perceber como é que tinha sido essa história, porque muitas dessas pessoas daqui a uns anos não estarão cá para contar”. Tiago Cadete quis, por isso, “resgatar” a história da família.

Mas isso foi o gancho para descobrir outras histórias de outros portugueses que também deixaram Portugal rumo a França.

Explorou, assim, as vidas de pessoas “que, de alguma forma", têm as histórias que "se ligam” para poder criar Souvenir, que apresenta uma visão macro da “história de migração familiar”.

“O trabalho divide-se em dois grandes momentos. Um é este espetáculo, esta performance que apresento. Mas também existe um arquivo que construí paralelamente, que se chama arquivo Souvenir, onde as pessoas podem escutar 25 conversas que tive com migrantes”, explica.

Estes testemunhos reais foram recolhidos por Tiago Cadete de norte a sul do país. Algumas são histórias idênticas à da sua família, mas há outras diferentes. Uma delas foi a que mais o marcou, por essa marca diferenciadora.

“Houve uma história que achei muito interessante. Quem saía normalmente eram sempre os rapazes ou o pai de família. O homem abria caminho para que depois fosse a família ou era apenas a pessoa migrante. Mas há um caso de uma filha que saiu de casa”, recorda Cadete.

A rapariga em causa ouviu os pais contarem que tinham uma dívida para pagar. Isso levou-a a emigrar. “Tenho que ajudar os meus pais”, contou ao ator, que indica que ela “não quis que os pais soubessem”.

“Todos os meses ela enviava por um envelope que eu fiquei a conhecer, que se chama envelope cor-de-rosa, que eram remessas de dinheiro que eram enviadas para Portugal. Durante todo o seu processo de migração, todo o dinheiro que ela juntava do ordenado enviava para os pais. E os pais morreram sem saber que ela fez esse gesto migratório por amor”.

Diferentes razões para os fluxos migratórios são retratadas por Tiago Cadete que considera este um tema pertinente nos dias que correm.

“Acredito, acima de tudo, que o trabalho não é só para criar um reconhecimento sobre a nossa história de portugueses, mas também para mostrar esse acolhimento de outros grupos migratórios que chegam. Essa troca que existe, acho que é o melhor que temos. Há uma troca cultural gigantesca: aprendemos com o outro e o outro aprende connosco. É a melhor coisa que pode existir com esta experiência migratória”, defende.

Na opinião de Tiago Cadete há hoje a ideia de que “a migração contemporânea é o maior fluxo que o mundo já teve”. Contudo, diz o encenador, “faz-nos pensar que agora é que está a acontecer a grande migração mundial, mas essa grande migração já teve outras épocas”.

Com Souvenir, Tiago Cadete quer, por isso, promover “a ideia de conversa” sobre o tema que tantas opiniões divergentes gera mas, sobretudo, deixar o olhar de quem, tendo nacionalidade portuguesa, já viveu na pele essa experiência de ter pais emigrados e de ter ele próprio emigrado.

  • Fonte: Rádio Renascença
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