Religião ainda enfrenta preconceito nas redações generalistas?
- 21/05/2026 17:11
- Redação
O acompanhamento jornalístico do fenómeno religioso é tratado com os mesmos critérios que existem para outros temas, "se há notícia é para dar, e não apenas quando há polémica ou escândalo", garantiu Luísa Meireles, diretora da agência de notícias Lusa, que esta quinta-feira acolheu, no seu edifício sede, em Lisboa, o encontro de jornalistas e comunicadores da Igreja, que assinalou o Dia Mundial das Comunicações Sociais.
Lembrando que "o jornalista é, por definição, curioso", Luísa Meireles lembrou que um dos objetivos do jornalismo é "tornar simples o que é complicado". Um profissional que se especializa numa área não pode perder de vista o que é notícia, e que tem sempre de "aprofundar as suas fontes", porque "a riqueza de um jornalista é conhecer pessoas".
No debate que se seguiu, sobre a “informação especializada em redações generalistas”, Ana Isabel Costa falou da importância de quem trabalha a área da Religião "ser sério". No seu percurso tentou sempre "nunca deixar de fazer perguntas, ser curiosa" e não se deixar condicionar por ser católica.
Como em relação a qualquer outro tema, há que saber "vender a notícia, porque é que é importante no alinhamento desse dia", mostrando que "isto não é um nicho, é um tema cultural, é um tema social, mexe com todas as áreas da sociedade". E quando há escândalos e polémicas na Igreja, devem ser tratados com o "mesmo rigor e mesma isenção” com que se tratam outras áreas.
Joaquim Franco, jornalista da TVI/CNN Portugal, falou de alguns constrangimentos que quem acompanha esta área ainda enfrenta nas redações generalistas. Assumindo que é "culturalmente cristão e católico na prática", garantiu que "isto em nada até hoje beliscou a minha procura de objetividade quando trato do fenómeno religioso". Mas o preconceito "andou e anda connosco no exercício profissional”.
E lamentou que o fenómeno religioso continue a ser tratado "genericamente", "muito aquém do que merece", porque tem importância e é "impactante" na vida das pessoas.
No encontro promovido pelo Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, que reuniu jornalistas, membros de secretariados diocesanos de comunicação social, colaboradores de gabinetes de imprensa e assessores de comunicação, Octávio Carmo falou do “Jornalismo no ambiente da IA”, relacionado com a mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais.
O chefe de redação da Agência Ecclesia alertou para a “transição perigosa" que afeta o jornalismo, com a passagem de “um modelo de busca de informação para um de mera confirmação ideológica”.
Cada vez mais "as pessoas querem consumir dados que não gerem atritos", mas o exercício do jornalismo na era da Inteligência Artificial exige que se rompam as "bolhas de consenso" e se rejeite a "ditadura da atenção”.
Considerando que a atual arquitetura digital "não é neutra", e que os algoritmos das redes sociais são concebidos para recompensar "emoções rápida" e penalizar o esforço da reflexão e da compreensão, Octávio Carmo defendeu que se recupere o "jornalismo de terreno”, para contrariar o “mundo de espelhos” que a Inteligência Artificial ameaça construir à volta de cada um.
Afirmando-se "otimista, mas não ingénuo", disse que é preciso "desmistificar a tecnologia", que "não é um oráculo". O desafio é "preservar o humano", é também necessário "sinalizar alucinações".
Quando os sistemas de IA "apresentam probabilidades estatísticas como conhecimento absoluto" é importante distinguir os conteúdos gerados por IA daqueles que são criados por pessoas, defendeu ainda, lembrando que “num mundo que prefere o conforto do algoritmo à exigência da verdade, o jornalismo humano, ético e de proximidade” é a “melhor forma de preservar” a “própria humanidade”.