Avaliação psicológica na PSP afastou 636 candidatos nos últimos três anos
- 22/05/2026 02:00
- Redação
Para o superintendente Nuno Poiares, não há dúvidas: “o polícia tem de ser guardião dos direitos humanos” e “as polícias são a primeira linha da política criminal”.
O responsável sublinha que há coisas inaceitáveis. “Se somos nós os primeiros a violar é um descrédito, são episódios que vão manchando toda uma instituição com mais de 150 anos e feita de milhares de mulheres e homens que trabalham e são profissionais com 'P' grande”, lamenta.
A polémica é de hoje, mas a atenção da PSP a eventuais casos de extremismo e desrespeito pelos direitos humanos não. Embora considere que a formação de agentes, oficiais e chefes nunca ficará “imune” a estas situações, por mais métodos que use, a verdade é que desde 2022 há no terreno essa avaliação de quem quer vestir uma farda e ser polícia no futuro.
A avaliação psicológica, em duas fases distintas, faz parte do processo de seleção dos candidatos.
Se olharmos para o último ano, afirma o superintendente Nuno Poiares, “de um total de 201 candidatos eliminados, 85 foram excluídos por questões relacionadas com a radicalização, extremismo, agressividade exacerbada, posturas radicais, violentas e intolerantes”.
Os dados da Direção Nacional da PSP mostram que, em 2024 foram excluídos 156 candidatos, em 2025 excluídos 201, em 2026 excluídos 279. Na última, 25% dos candidatos que chegaram às provas foram excluídos.
Mas há uma característica da geração mais nova que também tem deixado candidatos de fora. “Na entrevista vocacional, revelam indiferença pelas normas, é preciso capacidade de cumprir sem questionar a toda a hora. Hoje em dia questiona-se muito, e bem, mas há áreas de atuação e profissionais em que esse diálogo não pode existir e a ordem tem de ser acatada de forma pronta”.
Também a ausência do telemóvel em alguns momentos gera ansiedade e leva à desistência de candidatos.
Depois das provas físicas (salto em cumprimento, corrida de 1000 metros, etc…) e escritas, para avaliação de conhecimentos, surge uma bateria de provas de avaliação psicológicas com recurso ao sistema de Vienna que ajuda a traçar diagnósticos, obrigam a respostas a uma bateria de questões, “testes certificados anualmente o que atesta que é uma avaliação robusta cientificamente”, refere o diretor do Departamento de Formação dos agentes.
Questionado sobre se consideram que há risco de, sendo apenas testes de resposta num computador, o candidato possa responder aquilo que o avaliador pretende, Nuno Poiares afirma que “esse risco existe sempre, mas todos os candidatos do curso, a certo momento, acabam por ser confrontados com uma reavaliação por parte da Direção de Psicologia”, esse com recurso a entrevista.
Mas garante que a avaliação psicológica não fica por aqui e acontece, também, durante a carreira e exercício de funções. Admite que ainda que fraca e sem dimensão expressiva, o objetivo é precisamente aumentá-la.
Os números do ano passado, segundo o diretor do Departamento de Formação da Direção Nacional da PSP, mostram ainda que foram realizadas no âmbito da PSP quase 17 mil consultas, sublinhando que houve 66 consultas de urgência, por tendência suicida e necessidade de apoio a famílias.
“O ideal é que todos os polícias anualmente tivessem um contacto com a Divisão de Psicologia, trago comigo esta bandeira para deixar as coisas um bocadinho melhor”, confessa o diretor, no cargo desde novembro de 2025.
Em 2001 havia seis psicólogos e agora são quase 50. "Chegam? Não chegam ainda", afirma.
Nuno Poiares explica que esse contacto da psicologia com os agentes permitiu perceber que muitos desconhecem o serviço e que “ainda há a imagem de que procurar um psicólogo é sinal de que se tem problemas e se é maluquinho, um sinal de fraqueza”.
Consciente de que a fragilidade psicológica surge em muitos casos de problemas familiares, constata que muitas vezes surge também associada ao trabalho. “Potenciado pelo trabalho por turnos, número de ocorrências a que têm de acudir, com o agente chamado a intervir em situações muitas vezes dramáticas”.
E explica: “os que trabalham, por exemplo, na Ponte 25 de Abril, em Lisboa, trabalham com situações de tentativa de suicídio e contactam com situações dramáticas, ou os da investigação criminal, que trabalham só com violência doméstica, estão todo o turno a ouvir situações complicadas. Alguém que vá para casa com este peso às costas, se não tiver família saudável e que apoie, se não fizer desporto e não tiver um escape, é um problema”.
A formação de agentes mudou em 2022. As provas psicotécnicas sofreram alterações para detetar melhor níveis reduzidos de empatia, tendência para posturas radicais, extremistas, violentas, intolerantes, reduzida capacidade de lidar com a frustração e agressividade exacerbada.
“Agora, o curso conta também com uma disciplina de psicossociologia, onde se fala de diversidade, estrangeiros, respeito pelas diferenças e direitos fundamentais, princípio da igualdade, etc… Porque o mundo está a mudar e Portugal também”, explica o superintendente Nuno Poiares.
Este ano há também um reforço em temáticas como discriminação. “O Programa de formação anual, que é frequentado por todos os policias, que fazem o plano de formação de tiro, vai contar com uma formação com o tema: prevenção da discriminação, extremismo, radicalismo e gestão de redes sociais.”
Além disto “o ICPOL, o Centro de Investigação do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna (ISCPSI) tem em mãos a missão de realizar um estudo sobre suicídio, fatores contextuais e psicossociais nas forças de segurança e caracterização da situação atual adaptada à PSP”, sublinha.
A PSP quer tornar a introdução dos agentes no terreno mais "robusta". Está, por isso, previsto para breve o acompanhamento por um agente mais experiente dos mais novos e a começar.
“Uma mentoria, o agente que terminar curso neste mês de maio vai ser envolvido numa equipa que o acompanha, alguém com mais experiência que o vai acompanhar durante um ano e no final, se não correr bem, no limite a pessoa pode ser obrigada a abandonar a formação”, afirma o superintendente Nuno Poiares.
Mas, para uma atuação policial correta não conta só a formação na escola. “Não tenho dúvidas que a formação tem um impacto transformador. Mas há um elemento para mim essencial, que é o que as pessoas trazem de casa, os valores de cada um, para mim não há dúvidas que houve [no caso da esquadra do Rato] falta de valores, houve efeito de grupo, quem é mais novo acaba por aderir, mas, a confirmar-se que assim foi, houve sobretudo pessoas sem valor”, confessa.
Ainda sobre a polémica em torno do que terá acontecido na esquadra do Rato, questionado sobre se é o resultado também de jovens com recurso fácil ao telemóvel e forma irrefletida, o superintendente Nuno Poiares aponta noutro sentido.
“Não colocaria a questão na idade. É uma questão de desvalor, não ter noção, porque o normal era perceber a gravidade da situação e ocultar e tentar manter em segredo. A ser verdade, estamos a falar de pessoas que para além da violação grosseira dos direitos fundamentais, parece que não tinham filtro e noção de que algo de tão grave não podia ser difundido daquela maneira”, argumenta.