Media fizeram crescer o Chega? “No início foi ingenuidade, agora é cumplicidade”

  • 22/05/2026 01:30
  • Redação

Um estudo publicado este ano demonstra que, desde 2019, o Chega e André Ventura tinham uma exposição nos media muito superior ao peso eleitoral. O jornalista Miguel Carvalho, autor do livro "Por dentro do Chega", considera que o sistema mediático está frágil e deixou o líder do Chega determinar a agenda. E o Jovem Conservador de Direita conta a história da criação de uma página de Facebook falsa do Chega de Vila Real e como uma publicação sobre Ventura e a vacinação da covid-19 o fez chegar às notícias.

“É um líder fraturante, que surge num ecossistema político que não estava habituado, era bastante estável, em que estes temas não eram politizados. Isto é altamente atrativo para os meios de comunicação social, que vivem diariamente sob a pressão de ter más audiências”, sinaliza.

No trabalho científico publicado já este ano na revista científica Party Politics, os autores tentaram responder à questão sobre se os media acompanharam o crescimento dos partidos populistas de extrema-direita em Portugal e Espanha, ou se ajudaram a construir alguma da centralidade política que conquistaram.

Susana Nina diz que, nos meses seguintes, essa cobertura chega a ser duas a três vezes superior aos outros dois estreantes. Os investigadores mapearam 800 mil notícias durante uma década, em seis jornais — três portugueses e três espanhóis (de referência e tabloides). No caso de Portugal, há outro fator único: logo depois das eleições de 2019, o Chega teve mais acompanhamento jornalístico do que o PAN, que nesse ano elegeu uma bancada de quatro deputados.

“No caso português, encontrámos um padrão muito curioso e que é flagrante desta desproporcionalidade na comparação com o PAN. À data, tinha mais assentos parlamentares, contudo a atenção mediática foi muito menor do que a dada ao Chega e ao líder André Ventura”, recorda.

Ou seja, em conclusão, “o Chega recebeu desde muito cedo uma atenção mediática desproporcional em relação à sua representação institucional, mesmo só com um deputado”.

Mas não foi só nesse início que o peso eleitoral do Chega esteve sobredimensionado em relação à atenção mediática. A título de exemplo, a Marktest, empresa que monitoriza este tipo de dados, mostra que no mês anterior às Legislativas de 2024, em março, Ventura teve mais horas de cobertura televisiva do que os opositores Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro.

É um dilema que Sérgio Duarte, um dos comediantes do duo "Jovem Conservador de Direita", também já enfrentou. A história de Sérgio com o Chega começa num período pré-pandemia, quando está a fazer uma digressão pelo país do espetáculo “Supremacista Cultural”.

Ele e Bruno Henriques vão às Caldas da Rainha, depois a Coimbra, e nas duas salas o mesmo cenário: reações hostis por parte de simpatizantes do Chega, na audiência, que pensavam que o espetáculo os caricaturava.

Sérgio começa a não achar piada, porque em alguns casos houve episódios de quase violência, e o próximo espetáculo seria em Vila Real. Foi pesquisar se havia uma página do Chega de Vila Real no Facebook — e nada.

Passo seguinte: Sérgio criou-a. Na altura, uma brincadeira como tantas outras que fazia naquela rede social.

Fez umas pequenas publicações, umas mudanças de foto. Começou então a ganhar tração e, de repente, tem milhares de seguidores. Até que um dia recebe uma mensagem de alguém que se afirmava ser dos serviços da comunicação do Chega, da assessoria, “a dizer para mudar a fotografia de perfil para uma fotografia do arco-íris, era o mês do ‘pride’ [orgulho] e íamos celebrar a diversidade”.

“Eu achei aquilo engraçado e mudei; e comecei logo a receber mensagens de pessoas do Chega, para eu parar porque me estavam a enganar”, lembra.

Sérgio acabou a fazer “um post indignado”, que dizia: “Isto é uma pouca vergonha, o que estão a fazer às gentes simples do Chega, coitados, nós não pensamos muito, nem temos nada contra os homossexuais, mas não gostamos, até temos pessoas no partido que são”.

“Era um post ridículo, a prova de que eu não queria enganar ninguém e que eu nem me esforcei minimamente para aquilo ser credível”, considera.

No entanto, a publicação começou a ser partilhada torrencialmente e tornou-se viral. “Até humoristas importantes partilharam a gozar com o Chega, e eu achei piada à situação em si. Tentaram 'trollar-me', havia ali uma matriosca de 'trolls' que eu achei engraçado”, avalia.

“André Ventura apanha covid e isto vai para as notícias. Ele não tinha tomado a vacina, por princípio, e eu fiz aquele post com a fotografia da Nossa Senhora de Fátima, o logótipo do Chega e André Ventura a dizer: ‘As melhoras a André’”, descreve.

A acompanhar, segundo Sérgio, estava “um post absurdo, com elementos cómicos”, que “quem lesse com alguma atenção percebia”. E lembra que na publicação até terminava a dizer que André Ventura lhe tinha ligado e estava bem, tendo estado o dia todo a ler textos na internet e a rezar.

Tanto que houve jornalistas a noticiar que o Chega Vila Real dizia que queriam matar André Ventura.

“Houve contatos com a assessora de comunicação de Chega, que agora é deputada, Patrícia Carvalho, e ela dizia que era uma página oficial do Chega de Vila Real. No dia seguinte, o André Ventura responde diretamente. Aproveita a onda da viralidade do post, não se refere exatamente ao Chega Vila Real, mas diz qualquer coisa do tipo: ‘Ah, sim, é verdade, querem matar-me por aquilo que estou a fazer’”, recorda.

Só aí é que a estrutura do partido daquela cidade reage e diz que nada tem a ver com aquela página da internet.

“Não condeno os jornalistas. E tendo em conta a gravidade do que é dito, e depois validado pelo André Ventura, acho que não era tão estúpido acreditar que fosse mesmo o Chega Vila Real a dizer aquilo”, defende.

Hoje, mais de cinco anos depois, diz que não se surpreende com a dimensão que o caso ganhou. E explica porquê: “Atualmente, a comunicação é feita assim, é choque, choque, choque, é o imediatismo. E calhou de nesse dia, em concreto, eu ter escrito o post que chocava mais e, por acaso, não foi mesmo alguém do Chega. Mas poderia ter sido, não é? Há lá malucos que chegue para fazer uma coisa do género”, ri-se.

E reflete agora sobre o efeito que o episódio teve: “Nós no 'Jovem Conservador de Direita' continuamos a pensar, agora se calhar menos, porque o mal já está feito, mas na altura nós também escrevemos muito sobre ele, também caímos nesse erro. Qualquer coisa que ele dizia dava um post, e nós racionalizávamos: ‘Ah pronto, já está nas notícias, o que é que vamos fazer?’”.

“Mas também estávamos a contribuir com a nossa indignação legítima, com aquilo que dizia, para o crescimento dele, e ele estava a rir-se de nós, e das pessoas que lhe davam a atenção que nós estávamos a dar”, conclui.

Esta diferença poderá ter várias explicações, umas relativas ao ecossistema mediático dos dois países e outras relativas ao próprio contexto partidário. Nina avança que “o sistema mediático espanhol é mais competitivo e fragmentado do que o português”, e o Vox, quando surge e se consolida, fá-lo “num ambiente muito polarizado”, ao contrário do português que estava muito cristalizado.

“Já havia sido obtida alguma alteração do sistema partidário através do Podemos e dos Ciudadanus, enquanto em Portugal a polarização surge com a entrada do Chega”, resume a investigadora da Universidade Lusófona.

Uma terceira grande conclusão do estudo é que os temas fortes da extrema-direita, como o crime, a imigração, a corrupção e a União Europeia, já estavam todos na agenda dos media antes mesmo de 2019, quando o Chega nasce. O aparecimento do partido apenas lhes acentuou a presença nas notícias e deu-lhes corpo político.

Havia, conclui, terreno fértil para que um partido com as caraterísticas do que André Ventura fundou tivesse sucesso. A mesma opinião tem o jornalista Miguel Carvalho, que acrescenta mais uma camada de análise.

“Nós já estávamos, muito antes do Chega, muito contaminados por uma espécie de futebolização do debate político. Ele vem de um programa chamado Pé em Riste, na CMTV, onde percebeu muito rapidamente o que é que funcionava, e eu acho que nós nessa altura já estávamos muito contaminados por isso, ou seja, o debate político que se fazia no espaço mediático e também toda a confrontação que existia nas redes sociais era um exemplo desse debate muito entrincheirado”, recorda o ex-jornalista da Visão.

Para Miguel Carvalho, desde o início, os jornalistas cometeram um erro crasso. Mas não foram só os media, também os adversários políticos o fizeram. “Foi o de concentrar muito o tratamento deste partido no líder, ou seja, concentrar muito a cobertura mediática naquilo que André Ventura dizia ou fazia”, analisa.

E o líder do Chega, diz o jornalista, aproveitou isso ao longo dos anos. Percebeu que “é muito fácil criar uma agenda mediática, porque a agenda editorial está bastante fragilizada, tanto nas opções como na profundidade que supostamente deveria alcançar”.

“O Chega sabe perfeitamente que, contaminando esse espaço mediático com a sua agenda, consegue que a dada altura estejamos todos a falar daquilo que o Chega quer. Aliás, as últimas presidenciais foram mais um excelente exemplo disso”, resume.

A investigadora Susana Nina corrobora a ideia desta relação quase simbiótica entre Chega e os media. “Nós temos um líder que está disposto a participar de forma assídua em debates, em entrevistas e, sobretudo, com os canais privados de notícias em que o consumo de informação é constante. Os canais irão utilizar isso para preencher estes blocos informativos, sabendo que um líder com um discurso polémico, também irá trazer audiências. Portanto, isto torna-se em algo circular”, avalia.

E, por isso, não tem dúvidas de que não se pode dizer que “os meios de comunicação social não tiveram responsabilidade nenhuma no sucesso eleitoral e na consolidação da direita radical em Portugal”.

Um dos jornalistas que melhor conhece o universo Chega, Miguel Carvalho, pensa o mesmo. Se no início a cobertura desproporcional do partido se poderá explicar por “ingenuidade”, “amadorismo” e “desconhecimento” que fizeram os jornalistas “morder o isco”, passados sete anos a palavra que encontra para definir esta relação é outra.

“Fomos cúmplices desta narrativa, da agenda mediática do Chega, ou seja, na maioria dos casos já não estamos propriamente a discutir, a impor a agenda editorial ou a ter critérios editoriais, estamos a seguir a agenda do Chega, estamos a deixar que ela contamine o espaço mediático”.

“Há a promoção e a propulsão deste fenómeno. Está a contribuir claramente para o crescimento do Chega e nem sequer se faz um grande debate sobre isso”, conclui.

E acrescenta que sintoma e doença do sistema mediático é o facto de os jornalistas estarem a abdicar do último reduto que lhes resta, “o de fazer perguntas”, transferindo-o para comentadores, como tem acontecido em canais de televisão.

Ainda assim, defende, há formas de reequilibrar o tabuleiro. Não exclui a necessidade de manter os "fact-checks", mas considera-os um instrumento pouco poderoso face às "fake news".

Miguel Carvalho defende outra arma: “Não fazemos grande aposta nas chamadas contra narrativas e para fazê-las não precisávamos sequer de citar o Chega, era só mostrar que existe uma outra realidade que não é propriamente aquela que o Chega conta”.

A investigadora da Universidade Lusófona, Susana Nina, defende que Chega e meios de comunicação têm uma ligação que faz lembrar “as relações tóxicas”.

“Nunca é bem 'estarem juntos', mas ficam os dois. É simbiótico. André Ventura irá sempre aproveitar qualquer espaço de comunicação social que lhe seja dado, embora tenha uma presença extremamente relevante também nas redes sociais”, explica.

Já os meios de comunicação social, levados pela ideia de terem de “desmontar a narrativa constantemente”, acabam a “dar-lhe muito mais visibilidade do que se calhar a outros líderes políticos ou a outros partidos.”

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: