Veríssimo: “Estar na Liga 2 ou na Liga 3 não é a mesma coisa. Este é o patamar ideal para desenvolver jogadores"

Veríssimo: “Estar na Liga 2 ou na Liga 3 não é a mesma coisa. Este é o patamar ideal para desenvolver jogadores"

  • 22/05/2026 02:25
  • Redação

O técnico de Vila Franca de Xira, com uma vida ligada ao clube da Luz, recebeu-nos num dos gabinetes do Benfica Campus, no Seixal, e aí falou sobre a perceção, por vezes errada, que se tem das equipas B. Para Veríssimo, são fundamentais para o suporte à equipa principal.

A formação como âncora para atingir a excelência, o nível competitivo que os jovens têm de experienciar para se prepararem, a indústria em mudança e a relação com José Mourinho, foram temas que fizeram parte desta entrevista.

Este ano, a Conferência Bola Branca é sobre a excelência no futebol. Qual é a sua definição do conceito de excelência no futebol?

A excelência no futebol acaba por ser um conceito bastante abrangente. Podemos direcionar para aquilo que é o talento que nós, de uma forma quase inata, temos no nosso país ao nível da formação, ao nível dos jogadores. Excelência também naquilo que é a capacidade que os treinadores têm em potenciar esse talento e as características mais inatas dos nossos jogadores.

A excelência também tem que estar relacionada com as condições ao nível das infraestruturas que os clubes, cada vez mais, proporcionam aos seus jogadores e aos seus atletas. Há uns anos, se calhar, apenas os clubes grandes tinham a possibilidade de facultar condições de excelência aos seus profissionais. Hoje, isso já não é bem assim, já não acontece só nesses clubes.

Depois, a excelência também está muito relacionada com aquilo que é a qualidade dos recursos humanos que existem nos clubes. Cada vez mais as equipas são multifacetadas.

Há 20 anos, se calhar olhávamos para as estruturas dos clubes e tínhamos a equipa técnica, constituída por poucos treinadores, tínhamos um massagista, um médico... Hoje a realidade já não é essa e ainda bem que não é. Há a parte da psicologia, da nutrição, assessoria de imprensa, gabinetes de apoio aos jogadores. Portanto, há um conjunto de áreas que permitem que o nível de excelência possa ser elevado.

Havendo equipas multifacetadas, pode haver a perceção que um treinador que lida com jovens tem de ir além da tática. Concorda?

Felizmente estou num contexto em que tenho um pé no futebol de formação e um outro no futebol profissional. Apesar de termos jovens jogadores, já competimos num campeonato profissional. Esse trabalho formativo é desenvolvido desde muito cedo, desde a altura em que eles são miúdos. As pessoas que contactam com eles, nomeadamente os treinadores, também têm que ter essa preocupação sobre a forma como ele se relaciona com as pessoas, por exemplo. Isso é um trabalho de grande responsabilidade. Se nós tivermos em linha de conta que há miúdos que deixam os pais para viver aqui no Benfica Campus, é uma responsabilidade muito grande.

Ter jogadores da equipa sénior a ver os jogos e o treinador a verem jogos e treinos mexe muito com eles?

Alimenta-os. Relativamente aos jogadores assistirem aos jogos da equipa B, lembrei-me logo do conceito de família, porque eles passam muito tempo juntos.

Relativamente à questão do treinador da equipa principal, claro que todas as suas ações têm impacto, têm um impacto grande, e cada treinador que passou aqui nesse contexto de equipa A teve o seu impacto.

O mister Mourinho tem marcado essa presença de uma forma muito assídua, seja nos jogos, seja nos treinos, seja também pelas vezes que ele janta com os miúdos pequeninos. Acaba por ser uma figura com uma presença muito regular e é um treinador que tem um passado que fala por si.

Na minha opinião, isso não se traduz num acréscimo de pressão sobre os jogadores. É sim uma mensagem que o treinador está a passar, que gosta de estar presente, está atento e acho que isso, do ponto de vista de quem trabalha para o desenvolvimento dos jogadores, sejam eles próprios, sejam os treinadores, é motivo de satisfação e é motivo para, nos momentos certos, mostrar que podem ser uma solução para, se o treinador assim o entender, poder chamar ao contexto de equipa A.

Esta é uma questão muito pertinente. Vou ser sincero, eu não sei se tinha capacidade para treinar com sub-16, por exemplo. Porque as necessidades dos miúdos são completamente diferentes

Por vezes os treinadores - não digo que são todos, obviamente – têm a tendência de trabalhar com sub-14, sub-13 ou sub-15 da mesma forma como trabalhariam com equipas profissionais séniores.

Os miúdos da formação têm necessidades diferentes e, tendo necessidades diferentes, têm de ter um tipo de intervenção diferenciada. Não pode ser igual a trabalhar com jogadores mais velhos.

Mas respondendo diretamente à sua questão, acho que faz sentido, porque as necessidades são diferentes.

Falou de potenciar o talento dos seus jogadores e lembrei-me da perspetiva do negócio. O futebol já é uma indústria. Esta perspetiva já impacta os jogadores mais jovens?

Quando chegam à equipa B, a esmagadora maioria dos jogadores têm como objetivo chegar à equipa A. Mas eles também já têm a consciência que, não conseguindo chegar à equipa A, pensam noutro passo.

O futebol move muito dinheiro, move milhões. Todos eles têm a esperança de dar o salto para um patamar competitivo que seja diferenciado. Se não for no Estádio da Luz, que seja num clube da La Liga ou num clube da primeira divisão francesa, por exemplo.

Mas também vão à procura de outra coisa: um contrato que lhes permita melhorar, não só a condição de vida deles, mas eles também se agarram muito aos pais.

Esta indústria do futebol, como está agora, mexe com eles e quando eles chegam aqui ao patamar de equipa B, já começam a pensar noutras coisas.

E falando da exigência que atingiu o patamar da equipa B, competir na II Liga é, há muito tempo, mais exigente do que se pensa.

Basta ver como nós começámos a época. Tivemos apenas seis jogadores que transitaram da época anterior. Todos os outros vieram dos sub-17, alguns sub-19, sub-23.

Temos que recuar à época 17/18 para ver que nesse ano foi preciso as equipas fazerem 41 pontos para garantirem a manutenção. Normalmente, os 36 pontos chegam.

Conseguimos a nossa primeira vitória à oitava jornada, à décima segunda estávamos em último lugar. A partir daí fizemos uma sequência, se não me engano, de 18 jogos em que só em três não pontuámos.

como é que eles vão reagir se a vitória não aparecer? Isto exige aprendizagem, capacidade de adaptação e uma grande resiliência. Saber trabalhar sobre vitórias é top, mas trabalhar sobre a ausência da vitória exige algo mais diferenciado. E eu tenho que lhes tirar o chapéu porque eles deram esta resposta.

As pessoas não têm consciência daquilo que foi a qualidade do trabalho desenvolvido pela equipa técnica mas, acima de tudo, pelos jogadores. Para mim, como treinador principal, a época mais desafiante que tive.

Podia estar a dizer que estivemos muitas vezes juntos, mas não há hipótese. O treinador da equipa principal tem que se preocupar em preparar o treino e o jogo da sua equipa.

O treinador da equipa B tem que ser encarado como um treinador assistente do treinador principal. Já o treinador principal da equipa A tem que sentir que existe aqui um compromisso de lealdade da figura do treinador da equipa B. Ele tem que sentir que está ali um treinador que, se precisar, está lá para ajudar.

A equipa B, para além dos objetivos que têm de potenciar o talento individual, de potenciar o jogador, de potenciar a equipa, é um suporte à equipa A. Esse também tem que ser logo um ponto de partida.

Eu tenho de ter ter a consciência que não tenho a equipa fechada e que, em função daquilo que é necessidade da equipa principal, a prioridade será sempre a equipa principal.

O José Mourinho precisa de um jogador da equipa B para “ontem”. Como funciona?

Pode acontecer eu estar a preparar o treino de véspera do jogo que vou ter e o mister Mourinho dizer que precisa do José Neto para o jogo de amanhã ou para o treino de amanhã. Eu só tenho que dizer sim e arranjar uma solução.

Também já aconteceu o contrário. Na manhã de um jogo frente ao Estoril, se não me engano, o mister Jorge Jesus liga-me e diz "olha, tenho aqui o Morato e fazia-lhe falta a jogar. O que é que tu achas?”. Ele não tem que perguntar mas eu disse “claro, mister, vamos embora" e ele vai direto para o jogo.

Temos de perceber onde estamos, o contexto. A partir do momento em que está tudo muito bem definido, não há problema nenhum.

O que diz a alguém que entende que a equipa B é apenas e só uma equipa reserva e que a exigência não pode ser muito grande?

É uma pergunta com uma resposta difícil. Isso agora está a lembrar-me que, em alguns momentos, quando estamos na nossa competição, os nossos adversários, sejam eles jogadores, sejam eles treinadores, sejam eles dirigentes, dizem-nos que a equipa B não precisa disto. Não, nós precisamos. Nós precisamos. Nós estamos a competir num patamar diferenciado.

Nós queremos competir na Liga 2, entendemos que este é o patamar ideal para melhor desenvolver os nossos jogadores. É um patamar importante. Estar na Liga 2 ou na Liga 3 não é a mesma coisa.

Há pessoas que dizem que potenciar o talento, seja pelo jogador ou pela equipa, é o mais importante, o resultado não é tão importante. Não, o resultado também é importante. Nós trabalhamos todos os dias para isso.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: