Esta portuguesa afina o cérebro dos jogadores do Aston Villa. Como e porque se treina a visão no futebol?

Esta portuguesa afina o cérebro dos jogadores do Aston Villa. Como e porque se treina a visão no futebol?

  • 22/05/2026 07:40
  • Redação

O Aston Villa já era realeza antes de o príncipe William aparecer e decidir apoiar o clube. O futuro rei de Inglaterra nasceu menos de um mês depois do triunfo dos ‘villans’ na Taça dos Campeões Europeus em 1982, na final de Roterdão contra o Bayern Munique.

Volvidos 44 anos, o Aston Villa voltou a agigantar-se na Europa, desta vez com Unai Emery no banco, um ‘serial winner’. O espanhol que aceitou enfiar-se nos sapatos de Arsène Wenger no Arsenal, ridicularizado por tentar falar num idioma que não era o seu, já conquistou cinco edições da Liga Europa. Cinco.

“O Unai Emery volta a demonstrar uma enorme capacidade de liderança de gestão emocional e preparação estratégica para este tipo de competição”, elogia. “O que mais impressiona no Unai não é só o treinador, é a pessoa. Toda a gente fala do detalhe e da obsessão dele pelo trabalho, que é verdade, mas ao mesmo tempo ele transmite muita humildade e muita confiança aos jogadores e ao staff. Sente-se que todo o detalhe importa e tem sentido, todos ficamos unidos enquanto grupo.”

O entusiasmo na voz denuncia a paixão pelo que faz e também pelo que viveu em Istambul, onde testemunhou a conquista da Liga Europa. O Friburgo foi o freguês que permitiu ao Villa reatar definitivamente o flirt com a Europa e permitir a eternidade mais eterna a Emery.

“Claro que sinto um orgulho por ter contribuído, dentro da minha área da performance visual, da maneira como veem o jogo e como atuam no jogo e no apoio à otimização competitiva para um processo que culminou nesta conquista desta dimensão”, celebra, vincando o “mérito coletivo”, com todos os departamentos a contribuir com areia para inventar a praia paradisíaca. “Fico com muito orgulho de ver ali algo português…”

Quando Patrícia Rodrigues chega aos clubes e explica ao que vai, os jogadores dizem logo que veem muito bem. Esta optometrista lá lhes tem de explicar que “ver bem é diferente de ter uma boa visão”, é que a visão é muito mais do que isso. “A visão é no cérebro”, esclarece.

Entramos então noutro campeonato, depois de super atletas com músculos e resistências sem fim, com uma nutrição e descanso tratados com pinças, agora vai ganhando espaço o treino cognitivo, explica esta profissional que já trabalhou também o SC Braga e Tottenham.

“Conseguimos treinar o hardware, a forma como os olhos enviam informação, mais rápida e mais precisa. Fazemos com que o cérebro receba mais rapidamente a informação. Depois, temos o treino cognitivo, que é trabalhar o software. À medida que o jogador recebe mais informação, como consigo que seja melhor interpretada, mais rápido a fazê-lo e, acima de tudo, como sai uma resposta motora que seja a mais correta…”

O futebol é o que acontece naqueles 90 minutos no domingo, ou em qualquer dia da semana vá, mas o que está à volta do jogador chega a ser assombroso. A preparação, a exigência, o que está à disposição dele, o que se cobra, o que é expectável, as diferentes dimensões para garantir vantagens ou ganhos pequenos que ainda assim podem fazer a diferença. Chega a ser admirável entrar neste mundo.

Quando Patrícia Rodrigues e Unai Emery deram o aperto de mão, a ideia passava pela realização de uma avaliação da performance visual desportiva da equipa. Ou seja, “verificar quanto tempo um atleta precisa para identificar uma jogada que aconteceu do lado direito, do lado esquerdo, medir a visão periférica, quanto tempo demora a informação a chegar ao cérebro e quanto tempo demora o cérebro a interpretar aquilo que viu”.

Afinal, os pormenores fazem a diferença. “O atleta está tão desenvolvido a nível físico, a tática já está tão triturada, que vai ser nos pormenores que vai estar a diferença, na visão de jogo dele”, nota esta portuguesa que anda a afinar os olhos e o cérebro do quarto classificado da Premier League.

Há outra questão muitíssimo importante na labuta desta portuguesa. Fadiga física é igual a fadiga cognitiva, o que vai desaguar igualmente numa fadiga visual. É que também são músculos que trabalham ali e cansam-se, como os das pernas. “Temos de lhes dar o máximo de resistência possível.”

A explicação tem mais detalhe: “Para olharmos para uma bola, para um jogador, para termos a correta noção da distância a que estão ou a que velocidade se estão a mover, precisamos que os nossos dois olhos estejam focados no mesmo ponto. Isso só é possível com músculos. Quando os músculos entram em fadiga ou não têm essa capacidade, o cérebro recebe o estímulo mais lentamente e de forma errada, ou acha que jogador ou bola estão mais próximos ou afastados”.

A conversa com esta senhora que nos fala do futuro com uma simplicidade admirável visita ainda outros tópicos, como aquele caso dos sub-21 italianos que apareceram no treino com uma pala nos olhos. Fala-se em oclusão intermitente, em óculos que piscam, os strobo glasses, mas também em ferramentas que também se usam nas artes marciais, nomeadamente no boxe, onde se antecipa a luta com um olho encerrado para férias, ou por motivos de murro alheio, vá.

Também perguntamos por aquele gesto tão tradicional em Xavi Hernández, a rotação do pescoço, o chamado scanning, a atualização constante do mapa do jogo na cabeça graças aos olhos insaciáveis. Se tal mecanismo é ouro, convém fazê-lo no momento idóneo.

“Como e quanto tempo se deve fazê-lo? O atleta deve sempre olhar para a bola no momento em que a bola está a tocar, ou seja, a sair dos pés do colega ou do adversário”, explica. “A partir do momento que a bola está em voo, sempre que está em voo, ele pode e deve levantar o rosto e ver as movimentações que estão a acontecer.”

Lá está, a frescura e a interpretação rápida da informação permite o tal cálculo e antecipação da trajetória da bola e onde vai aterrar. Isso permite coisas várias, como ganhar tempo, como fazer o scanning com certezas, posicionar-se no lugar e na posição corretos.

A seis dias da 4ª Conferência Bola Branca, onde se vai discutir e identificar a “Excelência no Futebol”, Patrícia Rodrigues demonstra que o que acontece longe daqueles 90 minutos, em cima de um tapete verde cheiroso e sereno, tem muitíssimas camadas e uma grande complexidade. O futebol é tudo o que vemos e o que não vemos.

  • Fonte: Rádio Renascença
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