O dia em que Farioli deixou o banco para ser "professor" na universidade e falar de Kant, dúvidas e beleza
- 22/05/2026 11:30
- Redação
À porta da Faculdade de Letras, a fila começava muito antes da porta do anfiteatro. Dentro do auditório não havia lugares vazios. Do lado de fora, dezenas de estudantes continuavam à espera de uma oportunidade improvável para entrar.
Não era um filósofo mediático nem um escritor a apresentar um livro. Era Francesco Farioli.
O treinador campeão pelo FC Porto regressava à academia para falar sobre aquilo que raramente entra nas salas de imprensa do futebol: Kant, Sócrates, estética, moral e sociedade.
“Normalmente as nossas conferências não estão tão cheias”, começou por dizer o italiano, arrancando as primeiras gargalhadas de uma plateia onde se misturavam estudantes de filosofia, professores, adeptos portistas e curiosos.
Um grupo que queria perceber como é que um treinador de futebol consegue ligar um balneário a uma tese académica.
Na realidade, antes de chegar aos bancos técnicos, Farioli foi precisamente aquilo que tinha agora à frente: um estudante universitário, perdido entre dúvidas sobre o futuro e fascinado pela necessidade de compreender o mundo.
Ao longo de mais de uma hora, o treinador italiano foi desmontando a ideia de que o futebol e a filosofia pertencem a universos diferentes. E fê-lo sem recorrer a discursos motivacionais ou frases feitas. Preferiu contar a própria história.
O treinador cresceu fascinado pela NASA, pelo espaço e pela engenharia, até que a matemática, a física e a química começaram a afastá-lo desse caminho. “Tornaram-se quase inimigos”, confessou.Foi então que apareceu a Filosofia.
Primeiro através das aulas sobre Sócrates, depois Kant. A influência dos professores marcou-lhe o percurso. Mais do que o conteúdo das aulas, diz ter sido decisiva a forma como lhe transmitiram conhecimento e paixão.
“Não sabia o que queria fazer, mas sabia como queria ser”, explicou.Enquanto estudava filosofia em Florença, Farioli continuava ligado ao futebol, ainda que longe do estrelato. A mudança surgiu através de um treinador que lhe disse, sem rodeios, que nunca conseguiria viver do futebol profissional, mas que já tinha perfil de treinador.A partir daí começou uma rotina quase absurda. De dia, estudava Filosofia em Florença, de noite treinava equipas a centenas de quilómetros de distância. Pelo meio, horas sozinho no carro, entre música e reflexão.Foi nessas viagens que nasceu a ideia da tese “A filosofia do jogo, a estética do futebol e o papel do guarda-redes”.
Questionado sobre a beleza no jogo, recusou separar estética e competitividade. “Mesmo num jogo aborrecido existe um momento belo”, respondeu. Depois explicou que pensa o futebol como um sistema de relações, quase como uma sociedade em miniatura.
A metáfora que utilizou ficou a ecoar no auditório: para ele, um treinador constrói uma equipa como quem resolve palavras cruzadas, tentando deixar “o menor número possível de espaços negros”. Cada mudança obriga a reorganizar o resto. Cada detalhe altera o equilíbrio coletivo.
Foi precisamente aí que a conversa aproximou ainda mais o futebol à filosofia política.
Farioli disse aos estudantes que o futebol moderno vive uma tensão constante entre individualismo e espírito coletivo, e contou que, por vezes, lembra aos jogadores que “se querem um desporto individual, ao lado há um campo de ténis”.
A certa altura, já longe de táticas ou resultados, o treinador falava sobretudo sobre identidade humana. Sobre a necessidade de adaptação. Sobre a importância de aceitar o erro e a incerteza.
“Não se preocupem se às vezes se sentem perdidos”, disse aos estudantes. “Se há algo que estes estudos dão é a capacidade de nos reinventarmos.”, reiterou, num tom reconfortante.
Esta talvez tenha sido a principal imagem da tarde: um treinador de futebol tratado como um professor universitário. Alguém suficientemente capaz do ponto de vista intelectual para ser escutado e não apenas ouvido.
Um estudante perguntou-lhe como cria espírito de grupo em balneários compostos por jogadores de diferentes culturas e egos. Farioli respondeu sem recorrer a discursos motivacionais. Disse que não gosta de “truques” nem de manipulação emocional. Prefere a transparência.
“Construir cultura é a prioridade”, afirmou. “E a cultura aqui no Porto é mais fácil de encontrar porque esta cidade representa trabalho.”
A resposta acabou por transformar-se numa reflexão mais ampla sobre liderança. O treinador contou que muitas vezes expõe aos jogadores as próprias dúvidas e fragilidades, porque acredita que liderar não significa ter sempre respostas. “Às vezes colocamo-nos em situações desconfortáveis porque temos de questionar aquilo que fazemos”, explicou.
Farioli contou que, durante um momento de tensão no balneário portista, utilizou um vídeo do astrónomo Carl Sagan (“Pale Blue Dot”) para recentrar o grupo. O vídeo mostra a Terra vista à distância no espaço, reduzida a um pequeno ponto azul.
Para o treinador, funciona como uma lição de humildade.“Gostava de ter o número de alguns líderes mundiais para lhes enviar esse vídeo”, disse.
Noutra pergunta, um estudante quis saber como gere a pressão de liderar um clube como o FC Porto. A resposta fugiu novamente do futebol puro. Farioli falou de perdas pessoais dentro do grupo, de jogadores em sofrimento emocional e de momentos para os quais “não existe licença de treinador que prepare”.
Ao contrário da figura clássica do treinador autoritário, Farioli apresentou-se quase sempre como alguém em permanente aprendizagem. Disse que prefere liderar pelo exemplo e comparou-se várias vezes aos próprios professores universitários presentes na sala.
“Todos os dias eles continuam estudantes daquilo que ensinam”, referiu. “E eu tento fazer exatamente o mesmo como treinador”, completou.
A academia parecia reconhecer precisamente isso: não apenas o treinador vencedor, mas o estudante que continua presente nele.
Perto do final, uma última pergunta misturou futebol e filosofia política. O auditório quis saber se o futuro do FC Porto de Farioli seria mais “maquiavélico” ou mais “kantiano”. O treinador sorriu antes de responder que o futebol precisa “de um pouco de tudo”: idealismo, pragmatismo e capacidade de transformar ideias em realidade.
Na Faculdade de Letras, Francesco Farioli não apareceu apenas como treinador campeão nacional. Durante algumas horas, apareceu como aquilo que talvez nunca tenha deixado de ser: um estudante de filosofia a tentar compreender as pessoas e o mundo através do futebol.