“Otelo, tem coragem”, disse Ramalho Eanes na sede do COPCON depois do 25 de Novembro
- 22/05/2026 13:27
- Redação
“Eu assisti”, diz-nos Luís Pinheiro de Almeida sobre vários episódios marcantes da história recente de Portugal. O jornalista, que iniciou o serviço militar obrigatório três dias antes do 25 de Abril de 1974, escreveu agora o livro “25 de Novembro de 1975 – Um Jornalista no COPCON” (ed. Documenta) para revisitar as suas memórias.
Foi alferes miliciano, chegou a ser destacado para a Guiné quando a guerra já tinha terminado. Mas foi a sua passagem pelo COPCON – o Comando Operacional do Continente, onde trabalhou sob as ordens de Otelo Saraiva de Carvalho, que o marcou.
Luís Pinheiro de Almeida recorda que nem tudo foi “mau” no Verão Quente. Assistiu ao momento em que o general Ramalho Eanes foi, dois dias depois do 25 de Novembro de 1975, à sede do COPCON e disse a Otelo Saraiva de Carvalho para “ter coragem”.
No COPCON, diz, “só não se admitia gente do PCP. O resto entrava tudo”. Nesta entrevista a propósito do livro, Luís Pinheiro de Almeida faz questão de deixar claro que quem chefiava o COPCON “era o chefe de Estado General das Forças Armadas, o marechal Costa Gomes”, que depois delegava em Otelo.
Luís Pinheiro de Almeida "25 de Novembro de 1975 – um Jornalista no COPCON", porque é que mergulhou nestas memórias?
Uma razão muito simples. Primeiro eu sou jornalista, depois porque vivi aquele tempo. Era, aliás, oficial de dia adjunto no dia 25 de Novembro de 1975, há 50 anos.
Assisti a muita coisa! Sou testemunha direta de algumas coisas, entre as quais a despedida do Ramalho Eanes e do Otelo Saraiva de Carvalho.
Como fazia 50 anos, eu, há mais de um ano que estou a preparar o livro. Mergulhei nisso e estou muito satisfeito.
Como é que foram esses dias, do Verão Quente? Foram momentos muito conturbados depois da explosão da alegria da Revolução de 1974?
É verdade. Preciso dizer que o livro não é nenhum tratado, tese ou ensaio sobre o 25 de Novembro, porque é complicado. É um relato jornalístico de alguém que esteve lá e que viveu aqueles momentos.
Eu era associativo, andava na Faculdade de Direito e sabia trabalhar muito bem com o Gestetner, que é o copiógrafo. E a primeira missão que eu tive no COPCON, no dia 12 de agosto de 1975, foi precisamente passar ao copiógrafo o chamado "Documento do COPCON".
Estava eu a passar o documento, quando me telefona alguém do jornal a "Capital" – eu sei quem é, mas agora estou com uma "branca" – a perguntar-me: "Senhor alferes queira desculpar, tenho aqui uma coisa que se chama Autocrítica Revolucionária e Documento de Trabalho do COPCON, isto é verdade, não é verdade?"
Estava eu a passar ao copiógrafo esse documento e eles já o tinham!? Eu disse: "Espere um bocadinho que eu vou perguntar".
Fui perguntar ao Otelo. "Meu general, desculpe lá, então mandou-me passar o documento ao copiógrafo, e estou a fazê-lo. Mas está a telefonar-me o Sarabando de 'A Capital' a dizer que tem lá um documento que é este. Como é que é? Estamos a brincar", disse eu, a gozar, ao Otelo.
"Ai, os malandros do Carlos Antunes e da Isabel de Cardo. Foram eles de certeza que deram o documento à 'Capital'", disse ele! E eu perguntei-lhe então o que teria de fazer.
Disse-me: "É inegável, é verdade, o documento existe. Peça-lhes, então, que deem pouco destaque". Pegou no documento e riscou com a mão dele a "Autocrítica Revolucionária", só ficou "Documento de Trabalho".
Ele pediu-me para lhes pedir para darem pouco de relevo, para ver se a coisa passa. E eu respondi, mas eu sou jornalista também e não posso dar ordem a um jornalista! Vou-lhe pedir, é meu amigo.
E eles, claro, não atenderam ao meu pedido e deram-me primeira página ao documento.
Como é que foi parar ao COPCON? Não só fez uma carreira militar, mas também era jornalista.
Isso é uma das coisas extraordinárias da altura da nossa Revolução! Eu era jornalista e era militar. É uma coisa hoje em dia, impensável.
Era licenciado em Direito. Fiz seis meses de tropa em Mafra, e porque era licenciado em Direito e já tinha 26 ou 27 anos, fiz o chamado CCC, que era o Curso de Comandantes de Companhia. Portanto, nunca fui aspirante, fui logo alferes.
Saí de Mafra e fui para Viseu, onde tomei conta, com mais dois amigos meus, do RI14. E depois fui mobilizado para a Guiné, já a guerra tinha terminado e já a Guiné tinha declarado, unilateralmente, a independência.
Fui para Évora formar batalhão e combater na Guiné. Ia como segundo comandante do Batalhão e como capitão. Mas depois, finalmente, desmobilizaram-me.
Até perguntei mais tarde, a guerra terminou em 1974 e eu em finais de 1975, ainda estava mobilizado para ir para a Guiné?
Explicaram-me que as burocracias são burocracias. E, portanto, só muito mais tarde é que conseguiram que eu fosse desmobilizado.
Como era licenciado em Direito e era CCC, fui para a Repartição de Justiça e Disciplina do Exército, que era no Terreiro do Paço, onde tratei de muitos processos de acidentes e de mortes em combate.
Muito interessante! Eu entrei na tropa no dia 22 de abril, portanto, três dias antes.
E no dia 25, tínhamos chegado de uma instrução noturna e eu vi saírem as tropas para Lisboa, mandadas pelo capitão Rui Rodrigues. E pedi para ir com eles para Lisboa. Eles disseram: "Não, tu és um maçarico, ficas aí, mas é quietinho. Não vais, ainda vais estragar a Revolução. Tu nem na G3 sabes pegar", o que era verdade!
Fiquei lá no dia, e fui para a caserna. Ninguém acreditou na Revolução na altura. Julgamos que eram eles a gozar com os maçaricos, porque o 25 de Abril foi uma quinta-feira e aproximava-se o fim de semana. Pensamos que eram eles a quererem lixar-nos o fim-de-semana. Querem é que a gente fique aqui fechada.
Andando um pouco mais para a frente no tempo, tu entras para o Comando Operacional do Continente, o COPCON que acaba por ser, digamos, um "braço armado" do Programa de Movimento das Forças Armadas.
O COPCON, o Comando Operacional do Continente, chefiado pelo Costa Gomes – é preciso que se diga. Quem era o chefe do COPCON, era o chefe de Estado General das Forças Armadas, o Costa Gomes, que depois delegou em Otelo Saraiva de Carvalho.
Toda a gente diz que o Otelo Saraiva de Carvalho era o comandante do COPCON. Só na prática, porque no papel, quem era o comandante era o Costa Gomes.
E é uma inovação nas Forças Armadas. Não havia na estrutura das Forças Armadas um órgão como aquele. Tanto assim é que só tinha ação em Portugal Continental. Não havia COPCON nem na Madeira, nem nos Açores.
É importantíssimo, porque pretendia defender a classe operária, os trabalhadores e os seus direitos, as suas reivindicações.
As ocupações, por exemplo, éramos nós, quando digo "nós", era o COPCON que tomava conta de ocupações de terra e de casas.
Lembro de um dia estar de oficial dia, e um capitão da Força Aérea disse-me: "alferes, a gente vai ocupar ali uma casa na Avenida 5 de Outubro, vão chover aí os telefonemas, mas tu dizes que a gente está a tomar conta do assunto, não há perigo". E assim foi. Depois vim a saber que era a Universidade do Povo, do PRPVR.
A ação do COPCON nem sempre foi pacífica. Ainda hoje continua a ser alvo de críticas? Como é que era estar por dentro?
Entrava o MRPP, entrava o CDS, entrava o PS. Aliás, eu quando entrei no COPCON, a 12 de agosto de 1975, fui "submetido" a um interrogatório. O que eles queriam saber era se eu era do PCP. Se eu fosse do PCP, eu não entrava.
Como demonstrei por A mais B que não era do PCP, eles deixaram-me entrar e fui para o gabinete de imprensa do COPCON. Lá dentro havia discussões, claro, entre toda a gente.
E a figura de Otelo Saraiva de Carvalho? Como é que era a atuação dele dentro do COPCON?
Ia lá uma delegação do MRPP falar com ele, e eu assisti a algumas, e o Otelo dizia: "sim, vocês têm razão, a gente tem que ir para aí. Vocês têm razão".
Saía o MRPP, entrava ao CDS, e a história era a mesma. O Otelo dizia: "Pois, vocês têm razão". Era um ingénuo, acreditava em tudo e em toda a gente. Era sério. Era uma bondade pessoa.
Quando estava a fazer o livro, falei com a Isabel do Carmo. Falava-se, dizia-se, mas nunca ninguém tinha confirmado e isto nunca tinha sido dito, e é dito pela primeira vez no livro.
Eu consegui confirmar que a parte do tal documento "Autocrítica Revolucionária e Documento de Trabalho do COPCON", a parte que diz respeito às organizações populares de base foi escrita pelo próprio Otelo.
Quer dizer, eu respondia a perguntas dos jornalistas. Comandado pelo próprio Otelo ou pelo major Barão da Cunha. Eu não podia inventar.
Os jornalistas perguntavam-me e eu, como era militar, tinha disciplina e respeito e ia sempre perguntar aos meus superiores.
Sempre obedecia a ordens. Nunca inventei nada. Mesmo que fosse contra ou a favor, fiquei sempre de bico calado. Eu só fazia aquilo que mandavam fazer.
Neste livro há essa data importante, o 25 de Novembro de 1975. Para si é tão ou mais importante do que o 25 de Abril?
O 25 de Novembro é um incidente de percurso, como foi o 11 de Março. Aliás, só existe o 25 de Novembro, porque existiu o 25 de Abril. É um incidente de percurso. Nada mais do que isso.
É claro que o 25 de Novembro acabou com alguns excessos que havia. Isso é verdade. Mas o fundamental é o 25 de Abril. Não há dúvida nenhuma.
Para mim foi mais importante o dia 27 de novembro que foi quando os Comandos invadiram o COPCON.
Eu fui chamado ao COPCON para ir buscar a minha guia de marcha, uma vez que com o 25 de Novembro ia ser extinto e cada um de nós que lá estava ia de regresso às unidades de origem.
A minha unidade de origem era o Regimento de Infantaria Operacional de Queluz e eu fui buscar a minha guia de marcha.
E assisti à cena, e isso também é uma novidade do livro. Fui a única testemunha da despedida do Otelo e do Ramalho Eanes.
O Ramalho Eanes entrou no COPCON no dia 27 de novembro com militares, fardado de camuflado, como se usava na guerra, sem distintivo. Tinha só uma "pistolazinha" à cintura.
Puxou de um papel e começou a dizer nomes. Capitão não sei quantos, major não sei quantos. "Fazem favor, têm 10 minutos para subir para a parada". O COPCON era um bunker, era uma coisa subterrânea. E assim foram.
Depois o Eanes, que já era nessa altura chefe de Estado Maior do Exército, foi ter com o Otelo e disse: "Otelo vou-te deixar aqui sozinho no gabinete 10 minutos e faz o que entenderes. Ao fim de 10 minutos, apresenta-te também lá em cima na parada. Tem coragem!", disse o Eanes. E o Otelo, respondeu: "Terei". Deram um abraço e foram-se embora. Eu vi!
Passei o stencil ao copiógrafo. Ele estava feito. Eu perguntei à Isabel do Carmo, porque o Otelo não falava nisso e a Isabel do Carmo disse-me que era um trabalho coletivo.
Ela foi um dos autores. O major Tomé também, O Otelo foi um dos signatário, na parte da organização das bases. O Lourenço Marques, o Carlos Antunes também foi. É um trabalho coletivo.
Até do MES! Parte do documento, fez parte do programa do quinto Governo provisório. O que deixou furioso o PCP que era quem mandava no quinto Governo provisório.
Porque é para si importante deixar este testemunho em livro? Há ainda muita coisa por esclarecer e é importante que quem viveu na primeira pessoa o faça?
Não sei se ainda há muito mais coisas. Já quase toda a gente escreveu sobre o 25 de Novembro. Eu apenas quis dar o meu testemunho porque estive lá e assisti a cenas comoventes.
Achei que as pessoas deviam saber que no Verão Quente nem tudo foi mal. Um dos capítulos do livro é sobre uma das coisas positivas do 25 de Novembro.
Foi a ocupação de um palacete no concelho da Amadora, que ainda hoje existe e é uma creche, e essas coisas positivas também aconteceram. Nem tudo foi mau durante o Verão Quente.