Alimentação saudável vs. obesidade: informar não chega para mudar hábitos

Alimentação saudável vs. obesidade: informar não chega para mudar hábitos

  • 23/05/2026 03:30
  • Redação

A mudança de hábitos alimentares continua a ser um dos maiores desafios na promoção da saúde, mesmo quando as pessoas sabem o que devem comer.

O estudo COMM4HEALTH, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que é apresentado no Dia Europeu de Luta Contra a Obesidade, conclui que a informação, por si só, não é suficiente para alterar comportamentos, sendo decisivo o papel do contexto social, emocional e das dinâmicas de grupo.

Ao longo de seis meses, os investigadores testaram diferentes estratégias — desde campanhas informativas até abordagens participativas, com workshops e dinâmicas de grupo — para perceber o que realmente influencia o comportamento alimentar.

Os resultados mostram que as mensagens tradicionais, centradas na transmissão de informação, aumentam a literacia alimentar, mas não chegam para garantir mudanças duradouras.

Ana Margarida Barreto, docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que coordena o estudo, diz que há vários obstáculos que travam as boas intenções: “Falamos de questões como falta de tempo, rotinas exigentes, limitações financeiras ou acesso a alimentos, são tudo determinantes, ou obstáculos, a uma mudança comportamental sustentada”.

Além disso, a alimentação não é uma decisão puramente racional: emoções como frustração ou tristeza influenciam as escolhas. De acordo com a investigadora na área da comunicação estratégica “quando as crianças estão aborrecidas, frustradas ou tristes inconscientemente optam por pedir alimentos de grupos menos saudáveis”.

No caso dos adultos estamos muitas vezes perante “um processo negociado. Dizer que aos fins de semana ou em ocasiões sociais se foge da disciplina alimentar revela um processo de negociação entre os ideais, a alimentação desejada e a realidade do dia a dia".

“Do ponto de vista da comunicação – conclui a investigadora – isto é um sinal de que a promoção da alimentação saudável não deve ser apresentada numa perspetiva muito rígida, ou baseada na culpa, porque o mais certo é gerar um processo de resistência e não de envolvimento”.

No caso das crianças, foram usados vídeos educativos, mas também workshops com jogos e atividades práticas; com os mais velhos, mensagens SMS foram combinadas com sessões participativas. Os resultados mostram que as abordagens baseadas na participação e no envolvimento em grupo geram maior impacto emocional e social — fatores essenciais para a mudança de comportamento.

“O desafio futuro acaba por ser complementar a comunicação informativa com abordagens mais interativas e participativas que sejam adaptadas também aos diferentes contextos sociais”, diz Ana Margarida Barreto.

O estudo destaca o papel das redes sociais e de outros influenciadores — como escolas, treinadores ou familiares — especialmente no caso das crianças, reforçando a ideia de que a mudança depende de todo um ecossistema social.

Isto mostra, segundo a investigadora, que “a influência não é baseada apenas na autoridade, mas também no grau de identificação com outros, na confiança e no contexto social”.

Já no caso dos séniores, o isolamento social é um fator negativo importante, sendo a socialização um elemento essencial para melhorar hábitos alimentares.

“Para além disso, a falta de acesso a produtos mais saudáveis, o custo e as limitações físicas também influenciam negativamente esse consumo desejado”, conclui Ana Margarida Barreto.

  • Fonte: Rádio Renascença
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