"Há uma pandemia associada à violência doméstica e são os efeitos na saúde", diz psicólogo
- 25/05/2026 02:00
- Redação
António Castanho afirma que as vítimas “desenvolvem doenças oncológicas, cardiovasculares associadas ao stress crónico, tudo porque estão sempre em alerta e hipervigilância” e são vários os estudos internacionais que já o comprovam.
A sua experiência clínica revela que “entre 40 a 45% das pessoas adultas" que vão ao seu consultório, e que foram vítimas de violência doméstica quando eram crianças ou jovens, agora, "vêm a pedir ajuda para resolver questões relacionadas com depressão, com ansiedade, ataques de pânico, baixa autoestima".
Neste episódio do podcast Romper o Silêncio, onde se fala sobre o perfil do agressor de violência doméstica, a juíza conselheira Teresa Féria, da APMJ, acrescenta que há estudos que mostram que muitas vítimas mulheres tinham sintomas próprios das doenças cardiovasculares, sempre desvalorizados clinicamente e pelas próprias, que se mantêm dedicadas e preocupadas em cumprir tarefas. Mas há outra realidade que alarma os profissionais que trabalham nesta área da violência doméstica.
“Este ano foi lançado um estudo pelo National College of Police do Reino Unido, que revela que todos os anos se suicidam 150 mulheres com histórico de violência doméstica. 88% os casos eram do conhecimento das autoridades, outros estudos dizem que por cada uma mulher que é assassinada, duas outras suicidam-se.”
O profissional da psicologia clínica, que já fez parte da Equipa de Análise em Retrospectiva de Homicídio Em Violência Doméstica, reflete sobre o facto de em Portugal esta ser uma vertente do problema ainda não estudada, considerando fundamental para se perceber não só o fenómeno, mas também para ajudar a melhorar as políticas públicas relacionadas com este crime.
“Nós não temos conhecimento em Portugal disto. Nós não sabemos a dimensão, esta outra dimensão, muito alarmante”, afirma António Castanho.
A realidade portuguesa, afirma, “mostra que 90%, 95% dos homicídios, feminicídios, têm como vítimas mulheres”, uma dimensão do fenómeno que mostra uma “claramente diferença” entre géneros.
António Castanho considera que, muitas vezes, ainda se descredibiliza, ou valoriza muito pouco, algumas das mensagens das vítimas de violência doméstica.
“Acreditem no que as vítimas estão a dizer. Acreditem! Se ela tem medo, ouçam esse medo. Porquê é que ela tem medo? É o medo do quê? Se existe medo numa relação, alguma coisa está a acontecer. Uma relação saudável não pode ter medo presente. Portanto, acreditem na vítima” e sublinha, “temos que acreditar, sempre.”
E acrescenta: “Porque é que eu vou a uma esquadra e digo que me roubaram a carteira? E acreditam. Ninguém me questiona se eu estou a falar a verdade, se isto é da minha cabeça, ninguém diz ‘veja lá’. Porquê é que isto acontece numa coisa tão simples, e na violência doméstica é posto em causa muitas vezes?”.
O psicólogo clínico sublinha a importância de se acreditar: "ela precisa ser acreditada, há situações em que as vítimas estão tão manietadas que numa oportunidade única, se não forem acreditadas e não forem apoiadas, elas nunca mais pedem ajuda".
A experiência mostra que para uma vítima se reabilitar e voltar a ganhar forças, para mudar de vida, precisa de uma rede forte de apoio, nomeadamente ao nível da família e dos amigos.
“As pessoas que mais conseguem lidar com esta situação, eu diria, reabilitação psicossocial, são as que tiveram apoio em todas estas dimensões. São acompanhadas. Não é fácil assim mesmo, mas estão e sentem-se apoiadas”, conclui o psicólogo responsável por muitas formações junto dos agentes da justiça e policiais.