Papa quer IA ao serviço da humanidade e não do poder de poucos

Papa quer IA ao serviço da humanidade e não do poder de poucos

  • 25/05/2026 05:30
  • Redação

O Papa sublinha que a tecnologia, como tal, não é contra a pessoa, nem "um mal em si mesma", mas também "não é neutra, porque assume a face daqueles que a idealizam, financiam, regulam e utilizam". Por isso, é preciso "construir a partir do bem e permanecer humano", seguindo a lógica da corresponsabilidade, da subsidiariedade e da comunhão.

Leão XI enumera os Fundamentos e Princípios da Doutrina Social da Igreja onde inclui, desde logo, a dignidade da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, a inviolabilidade dos direitos humanos, entre os quais o direito à vida “desde a conceção até ao seu fim natural”, e o reconhecimento dos direitos das minorias, alertando para “a pressão de novas ideologias e de certos interesses muito poderosos que podem reduzir a pessoa a um recurso a ser usado e explorado”.

O conhecimento e a tecnologia não devem estar concentrados nas mãos de poucos porque alimentam “o fosso entre os incluídos e os excluídos da revolução digital” e o respeito pela subsidiariedade exige “a superação do paternalismo e do assistencialismo a favor da corresponsabilidade e da solidariedade tendo em conta a identidade dos povos e as gerações futuras”. Por isso, “qualquer tentativa ou plano de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e inaceitável”.

Na era digital, Leão XIV lembra que é preciso garantir igualdade de acesso às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a desinformação, submeter o uso de dados e tecnologias ao escrutínio público, “para que o critério não seja apenas o lucro, mas a dignidade de cada pessoa e o bem dos povos”, sem esquecer os migrantes, refugiados e deslocados internos.

Leão XIV alerta contra o “paradigma tecnocrático”, em que a tecnologia mais poderosa não é necessariamente a melhor. “A IA pode imitar e simular os humanos, mas não tem consciência moral, empatia, capacidade afetiva, relacional e espiritual. É, portanto, necessário abordar a IA com sobriedade e vigilância, mantendo a clareza sobre as responsabilidades em todas as suas etapas”.

O texto refere que não podemos limitar-nos a invocar a moralização da máquina, o chamado “alinhamento” da IA com os valores humanos, sem termos a coragem de impor uma condição adicional: “a possibilidade de discutir o código ético a ser utilizado, submetendo-o a critérios de justiça social partilhada”. Caso contrário, quem controla a IA imporá a própria visão moral, que se tornará a infraestrutura invisível dos sistemas. “Não precisamos de uma IA mais moral, se esta moral for decidida por poucos. Precisamos de uma política mais presente, capaz de reduzir a velocidade onde tudo se acelera e de proteger os espaços onde as comunidades ainda podem participar e questionar-se”.

Devemos “desarmar a IA” para a retirar da lógica da competição militar, económica e cognitiva; para quebrar a equivalência entre o poder técnico e o direito de governar; para a afastar dos monopólios e impedir que domine os humanos. Esta tarefa é ética, técnica e ecológica “porque a IA é já um ambiente no qual estamos imersos e um poder com o qual temos de lidar”, lê-se na encíclica.

O Papa faz um apelo especial àqueles que desenvolvem as inteligências artificiais: “os programadores assumem um particular peso ético e espiritual, pois cada escolha feita no projeto expressa uma visão da humanidade, (…) com transparência, com responsabilidade em relação às comunidades envolvidas e com a atenção necessária em confirmar que quanto está a ser cultivado é efetivamente um bem”.

“O trans-humanismo e o pós-humanismo podem ser comparados a um arquipélago de diferentes ilhas conceptuais, mas ligadas pelo mesmo mar de pressupostos: a centralidade da tecnologia e o sonho de transcender os limites da condição humana”. O texto refere que, de um modo geral, o trans-humanismo prevê um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), com a pretensão de aumentar o desempenho e a capacidade. O pós-humanismo ainda vai mais longe: critica o antropocentrismo e prevê uma forma híbrida entre os seres humanos, as máquinas e o ambiente, ao ponto de imaginar uma travessia de um limiar em que a humanidade se superará a si própria ao entrar num novo estádio evolutivo. “Mesmo quando estas hipóteses permanecem em grande parte especulativas, adquirem relevância porque moldam o imaginário coletivo e, consequentemente, orientam as escolhas sociais, económicas e políticas”, avisa o Papa.

“O ponto crítico, à luz da Doutrina Social da Igreja, não é o uso da tecnologia em si, mas a visão que a fundamenta: se os seres humanos são tratados como matéria a aperfeiçoar ou a transcender, torna-se mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, menos desejáveis, menos dignos. Em nome do progresso, pode-se até imaginar ‘sacrifícios necessários’ fazendo com que os mais vulneráveis paguem o preço de uma suposta otimização da espécie: de facto, as conquistas da ciência e da tecnologia, divorciadas do progresso moral e social, acabam por se virar contra o homem”.

Leão XIV esclarece que “magnífica, apesar de ferida, a humanidade não deve ser substituída nem superada". E que “a tecnologia pode aliviar o seu sofrimento e abrir-lhe novas possibilidades, mas não lhe deve negar aquilo que é verdadeiramente a sua própria natureza: a capacidade de se relacionar e de amar".

Perante a IA, a verdadeira escolha não é entre o entusiasmo e o medo, mas aplicá-la à lógica do poder ou ao serviço dos indivíduos e dos povos. Leão XIV refere que, no meio digital, a verdade deve ser expressa numa "ecologia da comunicação", para que a cultura gerada pela web não se torne um instrumento de "homologação e domínio", mas antes um espaço de amadurecimento da "liberdade interior e do pensamento crítico". O Papa sugere transparência na seleção de conteúdos, proteção de dados pessoais, jornalismo sério e uma nova consciência do uso "correto e crítico" da IA no conhecimento. A comunicação transparente e honesta é também exigida à Igreja, especialmente em casos de injustiça e abuso.

A inteligência artificial gera novas formas de escravatura, relacionada com os que trabalham para extrair as "terras raras" necessárias à tecnologia, defende o Santo Padre.

“Uma parte significativa do funcionamento da economia digital assenta no trabalho silencioso de milhões de seres humanos, empregados em atividades pouco visíveis, mas essenciais: etiquetagem de dados, moderação de conteúdos – muitas vezes péssimos – e treino de modelos. Em muitos casos, são jovens, maioritariamente mulheres, que trabalham arduamente por uma remuneração mínima. A este esforço invisível junta-se o ainda mais brutal da extração dos recursos necessários à produção dos dispositivos e dos microprocessadores, que servem de suporte à IA. Nalgumas regiões do mundo, adolescentes e crianças trabalham em condições perigosas na trituração dos materiais donde se extraem as terras raras”, denuncia o Papa.

Além disso, “o colonialismo apresenta, nos nossos dias, um rosto inédito. Não domina apenas os corpos, mas apropria-se dos dados, transformando as vidas das pessoas em informações que podem ser exploradas. Inteiros territórios, sobretudo aqueles com menor relevância geopolítica e maior fragilidade estrutural, são atualmente atravessados por uma nova lógica de extração: a dos fluxos sanitários, perfis epidemiológicos, mapas genéticos e dados demográficos. São estas as novas ‘terras raras’ do poder”.

A Igreja renova a sua firme condenação a todas as formas de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas e reitera que “a omissão em reagir ou a tolerância" a estas "graves violações da dignidade humana" significa, na verdade, "tornar-se cúmplice".

Leão XIV também relaciona a IA com a guerra. “A revolução digital está a mudar a gramática do conflito” e, sem uma abordagem ética, as decisões sobre a vida e a morte das pessoas serão cada vez mais impessoais, sendo o uso da força considerado uma “opção imediata e viável”. O Papa diz que “hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da ‘guerra justa’, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra, mantendo-se o direito à legítima defesa entendida no sentido mais estrito”. E acrescenta: “Para enfrentar os conflitos, a humanidade dispõe de instrumentos muito mais eficazes e capazes de promover a vida humana, como o diálogo, a diplomacia e o perdão. O recurso à força, à violência e às armas testemunha uma pobreza relacional que tem sempre consequências desastrosas para as populações civis”.

Leão XIV lamenta o crescimento da indústria de armamento, a corrida às armas nucleares e o aparecimento de novos atores armados — incluindo jihadistas — que visam perpetuar o conflito como fonte de poder e lucro. Adverte ainda contra o uso de armas baseadas em inteligência artificial, pois "não existe nenhum algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável".

Os cristãos são chamados a responder a esta “cultura do poder” construindo "a civilização do amor" e Leão XIV indica alguns "caminhos de responsabilidade": desarmar as pessoas falando a verdade; construir a paz na justiça, abraçando a perspetiva das vítimas ao tomar uma posição, porque existem conflitos em que "não é correto permanecer neutro". Sublinha que os ataques contra civis, hospitais e infraestruturas ferem a própria humanidade e não podem ser relegados para análises abstratas. “Pelo contrário, devemos dar voz às vítimas para tomarmos consciência do abismo do mal contido na guerra e em todas as formas de violência”.

A encíclica exorta a cultivar "um realismo saudável" que procure caminhos para a paz que possam ser alcançados através de ações e não apenas de palavras. “Precisamos de nos educar para considerarmos o mundo digital como um novo continente a evangelizar, que exige missionários generosos e maduros na fé”. O Papa valoriza o trabalho diário e paciente dos adultos e educadores e refere que educar as novas gerações para acreditarem que a evolução tecnológica não segue um caminho inevitável, mas pode ser orientada pela responsabilidade pessoal e coletiva, “constitui um dos mais valiosos serviços ao bem comum”.

Por fim, o pontífice convida os fiéis a abraçar as novas tecnologias à luz do Evangelho, seguindo "um caminho sóbrio e exigente de vida cristã", para que, mesmo na era da IA, todos possam testemunhar "a beleza de uma humanidade magnífica habitada por Deus".

  • Fonte: Rádio Renascença
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