Depois de “sequestrados por Israel”, ativistas da flotilha são recebidos com "brutalidade policial" em Espanha
- 25/05/2026 10:30
- Redação
Quatro pessoas foram detidas no sábado no aeroporto de Bilbao, no País Basco, durante confrontos entre apoiantes da Global Sumud Flotilla e a polícia basca, na chegada de ativistas pró-Palestina provenientes da Turquia.
Segundo as autoridades, os detidos são acusados de desobediência grave, resistência e atentado contra agentes da autoridade. Três deles acabaram libertados ainda durante a tarde.
Os incidentes ocorreram no aeroporto de Loiu, quando membros da delegação basca da flotilha posavam para os jornalistas após aterrarem. O tumulto começou quando uma pessoa tentou aproximar-se do grupo e foi impedida por um agente da Ertzaintza, a polícia regional basca.
A organização da Global Sumud Flotilla acusou a polícia de “brutalidade policial” e exigiu uma investigação internacional independente sobre o sucedido.
O regresso dos ativistas a Espanha ficou marcado por denúncias de maus-tratos alegadamente sofridos às mãos das autoridades israelitas, após a interceção da flotilha em águas internacionais quando seguia em direção à Faixa de Gaza com ajuda humanitária.
“Os nossos companheiros foram atacados pela polícia. Foram espancados e atirados ao chão”, afirmou Diana Zomeño, uma das ativistas que regressou a Madrid, citada pelo jornal El País.
Outra ativista, Mi Hoa Lee, relatou ter sido “intercetada, torturada, sequestrada, humilhada e deportada” pelas forças israelitas.
A ativista afirmou ainda ter sido agredida com uma pistola elétrica e ameaçada durante o período de detenção. “Disseram-nos que nos iam matar”, contou.
O conselheiro da Segurança do Governo Basco, Bingen Zupiria, anunciou que irá prestar esclarecimentos no parlamento regional sobre a atuação policial.
A atuação policial foi criticada por partidos e movimentos políticos de esquerda em Espanha.
A coligação EH Bildu condenou a “dura atuação” policial e considerou “inaceitável” a detenção de ativistas que, segundo o partido, tinham sido anteriormente “sequestrados por Israel”.
Também dirigentes do Podemos e do Sumar criticaram o que classificaram como “repressão policial” sobre os ativistas pró-Palestina.
Cerca de 2.000 pessoas manifestaram-se este domingo no centro de Bilbao, segundo dados da Polícia Municipal, citados pela agência EFE, em protesto contra a atuação da Ertzaintza nos incidentes ocorridos no sábado no aeroporto de Loiu, durante a chegada de ativistas da delegação basca da Global Sumud Flotilla.
A marcha, convocada pelo movimento Palestinaren Elkartasuna, arrancou após as 13h, atrás de uma faixa com mensagens contra a polícia basca e o Governo regional, acusados de serem “cúmplices do sionismo”.
Durante o percurso pela Gran Vía, os manifestantes dirigiram insultos e palavras de ordem aos agentes da Ertzaintza destacados para acompanhar o protesto, incluindo gritos de “polícia assassina” e “PNV sionista”.
A manifestação terminou na zona do Arenal, onde foi mobilizado um forte dispositivo policial.
A faixa da manifestação foi transportada, entre outros, por membros da flotilha pró-Palestina, que antes do protesto participaram numa conferência de imprensa para denunciar a atuação policial no aeroporto de Bilbao.
Os quatro detidos nos incidentes — dois ativistas da flotilha e duas pessoas que participavam na receção aos manifestantes — foram libertados ainda no sábado.
Karim, um dos ativistas que regressou ao País Basco depois de ter sido intercetado pelas autoridades israelitas quando seguia rumo à Faixa de Gaza com ajuda humanitária, afirmou que os participantes sabiam os riscos que corriam ao embarcar na missão, mas garantiu que não esperavam “o que aconteceu ontem” por parte da Ertzaintza.
“Há responsabilidades que têm de ser assumidas. Isto não pode ficar assim”, afirmou.
Também Itziar, membro da organização da flotilha, acusou a polícia regional de ter agredido pessoas que “já tinham sido espancadas” durante a detenção em Israel.
Outro ativista, Adur, negou que tenham existido provocações contra os agentes, contrariando as declarações do conselheiro da Segurança do Governo Basco, Bingen Zupiria, e denunciou os hematomas sofridos durante os confrontos.
Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel exigiu explicações ao Governo espanhol pela atuação da Ertzaintza durante a chegada dos ativistas da flotilha ao aeroporto de Loiu, perto de Bilbau.
“Exigimos uma explicação ao Governo espanhol pelo tratamento dado aos anarquistas da flotilha”, escreveu o ministério israelita nas redes sociais, juntamente com vídeos dos confrontos ocorridos no sábado.
Numa outra publicação, o Governo israelita afirmou, em tom irónico, que “os anarquistas da flotilha estão a enlouquecer a polícia espanhola”, numa referência às críticas feitas por Espanha ao tratamento dado aos ativistas após terem sido intercetados em águas internacionais, transferidos para Israel e posteriormente deportados.
A expedição da Global Sumud Flotilla reunia mais de 430 ativistas e 54 embarcações, numa tentativa de romper o bloqueio israelita à Faixa de Gaza. Entre os participantes encontravam-se 44 cidadãos espanhóis.
A flotilha foi intercetada pela marinha israelita na passada segunda-feira, a cerca de 250 milhas náuticas de Gaza, tendo os ativistas sido posteriormente deportados para a Turquia.
A organização anunciou, entretanto, que pretende avançar com ações judiciais em vários países, incluindo Espanha, França e Itália.