É urgente ter um estudo sobre o bem-estar dos padres em Portugal

É urgente ter um estudo sobre o bem-estar dos padres em Portugal

  • 26/05/2026 03:00
  • Redação

O objetivo do livro foi responder ao que se aperceberam ser uma necessidade. "É verdade que na Europa cada vez há menos padres, as paróquias são as mesmas e o tema dos abusos [na Igreja] levou a uma certa desconfiança. Era bom oferecer material que pudesse ter uma aproximação psicológica, mas também uma aproximação social e espiritual", defende.

O livro começa por identificar o que é o burnout, porque, às vezes, as pessoas não sabem. "E não é só para o padre fazer um autodiagnóstico — 'está-me a acontecer isto, vejo-me cansado, irascível, apático'. É para sensibilizar todos, leigos, religiosos, a comunidade." E também, claro, a hierarquia. "Um bispo, um superior religioso, um provincial, quem tem um lugar de governo na Igreja é bom que esteja atento, para se poder ajudar a pessoa a não chegar a uma situação em pode não recuperar a 100%". Mas lembra que a prevenção também se faz no momento em que se distribui tarefas, e com "dinâmicas de sensibilização, ajudando a prevenir sobrecargas de trabalho".

O livro resultou de um "trabalho em rede" em vários países (Itália, Portugal, Brasil, Espanha e Chile). "São diversos pontos de vista, diversas sensibilidades e espiritualidades, diversos modos de ser e caminhar na Igreja, e penso que isso é uma riqueza".

"Houve uma grande procura desse livro. Havia mais um ou dois que tratavam mesma temática, mas este em particular acabou por ser o mais vendido, para o clero", adianta o sacerdote, de 42 anos, que é também responsável pelo Centro Cultural e Pastoral da Arquidiocese de Braga e diretor do Auditório Vita.

"Indica que um terço dos padres apresenta sinais de burnout. Mais de 30% a 35% relataram sentir fadiga, irritação diária, alguns dos sintomas típicos do burnout que se distingue da depressão e do cansaço, por estar relacionado diretamente com causas laborais. Há uma sobrecarga de trabalho, falta de descanso, uma vida desregulada nos horários, na alimentação, e falta de um espaço próprio fora do ambiente onde exerce o seu ministério", resume.

Tiago Freitas defende que este diagnóstico seja apurado com um estudo que incida apenas na realidade portuguesa, e que seja o mais abrangente possível. "Era muito importante a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), em parceria com a Universidade Católica, avançarem num grande estudo sobre esta temática, pensando sobretudo no futuro das próximas gerações". Até porque, "enquanto boa parte das pessoas se reformam na idade normal dos 67 anos, muitas vezes os padres não se reformam, continuam até os 70, 80 anos a trabalhar. Sendo o burnout uma doença laboral, ou que tem a ver com o mundo do trabalho, ainda mais urgente para nós se torna", sublinha.

Com 42 anos, e padre há quase 23, Paulo Terroso é reitor da Basílica dos Congregados, em Braga, e responsável pela comunicação da arquidiocese. Não hesita em afirmar que a vida é hoje "claramente mais exigente" também para os sacerdotes. Haver casos em padres mais novos não quer necessariamente dizer que sejam mais imaturos. "A vida mudou para toda a gente. Há menos padres, mais paróquias, triplicação ou mais de serviços. Não é aquele tempo ordenado, definido, estruturado que já foi há décadas". O que também exige mudanças ao nível da formação.

"Devemos questionar se, na verdade, estamos a preparar padres para aprenderem a trabalhar em equipa, partilharem responsabilidades, valorizarem o descanso e serem acompanhados. O que dizem os estudos é que as maiores dificuldades aparecem sobretudo nos primeiros 10 anos". Dá o exemplo de Itália, onde "é muito difícil que um padre acabado de ordenar vá logo ser pároco". É acompanhado. "Acho isso absolutamente necessário e pergunto até onde é que vamos conseguir manter este modelo, se não for feito nada?"

Lembra que em muitas comunidades em Portugal "já não há eucaristias todos os domingos". E dá o exemplo de Terras de Bouro, onde já foi necessário reestruturar certos momentos celebrativos. "A Vigília Pascal é feita no Santuário de São Pedro da Porta Aberta para todo o concelho, e organizam-se com autocarros."

Mas, isto exige atenção da hierarquia. Os padres têm de sentir que há apoio institucional para fazerem mudanças. "Quando se envia um padre para quatro, cinco ou seis paróquias, dizer: 'Não te esqueças que é importante descansar, não consegues fazer tudo', 'diminui-se o número de Eucaristias', ou 'vais celebrar ao sábado'. Terem a possibilidade de estruturar a sua missão, mas sentindo o apoio do bispo. É fundamental". Até porque nem sempre as mudanças são entendidas e bem acolhidas. "Às vezes a comunidade revolta-se com o pároco. Faltar o apoio institucional é que não pode acontecer, de todo".

Admite que este "é um debate que não é fácil de ter", mas deixa o alerta: "O grande risco é termos padres exaustos e habituarmo-nos a isso, como se fosse normal". Paulo Terroso, que quando tinha 24 anos assumiu o governo de quatro paróquias, sabe bem do que fala: entre os sete e os oito anos de sacerdócio pediu para ter um período sabático. "Muita gente não viu isso com bons olhos, mas para mim foi importantíssimo", garante.

A exigência de "perfeição" em relação aos sacerdotes também não ajuda. "Houve uma idealização da figura do padre. Hoje não sei se São Pedro (que negou Jesus três vezes, e foi Papa), ou Santo Agostinho (que teve uma vida de excessos antes de se converter, e foi bispo), tinham hipóteses dentro da Igreja. Não sei se passados dois mil anos temos essa força e essa frescura do Evangelho para olhar para os fracassos dos membros da Igreja. Criámos uma forma de olhar internamente para nós que eu acho que não é evangélica".

A psicóloga Margarida Cordo reconhece que a Igreja já presta mais atenção a estas questões, mas isso só não chega. "Uma coisa é estar mais atenta, outra coisa é tomar as medidas necessárias de forma consistente, estruturada, para que determinados caminhos de autocuidado, procura de bem-estar e de equilíbrio, possam efetivamente ser trilhados. Para prevenir e cuidar".

Diz que "devia haver uma organização diferente, eventualmente, da forma de estar, e de viver. Falta um plano, se quer que lhe diga. Há padres que estão muitíssimo sobrecarregados. E não se perderia nada — aliás, ganhar-se-ia muito — se em contexto de Igreja houvesse uma abordagem mais atenta, mais acolhedora, os padres sentirem-se compreendidos, escutados por quem reverenciam, como os bispos. Ajudaria muitíssimo".

Isso e avançar para um estudo "abrangente" sobre o bem-estar e a saúde psicológica dos padres em Portugal, que permita conhecer a realidade e fazer um diagnóstico mais alargado, até "para se ter mais consciência dos passos a dar para, sobretudo, prevenir os casos extremos de exaustão e isolamento. Quanto melhor soubermos do que falamos, melhor conseguimos estruturar a abordagem que deve ser feita", afirma.

"Temos ouvido notícias de suicídios de sacerdotes em várias partes do mundo, outros ficam em condições quase de impossibilidade de continuar a trabalhar" , refere, admitindo que " é um problema que tem que se olhar" também em Portugal.

Consciente do acréscimo de tarefas que os sacerdotes têm hoje de desempenhar, devido ao "alargamento do âmbito da ação dos sacerdotes, no que diz respeito ao número de paróquias, movimentos, ação social, que é uma carga e um peso muito grande na vida de muitos", fala também da pressão a que estão sujeitos, para corresponder às "expectativas" tanto dos fiéis como da sociedade em geral, que "facilmente podem levar a problemas desta ordem".

Como presidente da CEP garante que que esta será uma "prioridade", mas lembra que em muitas dioceses — como na sua, Coimbra — já se tomaram algumas medidas para mitigar o excesso de trabalho dos padres, avançando com uma reorganização territorial das paróquias.

"Depende de cada diocese. Em Coimbra já está feita, são as chamadas Unidades Pastorais — nós, de 271 paróquias, constituímos 36 Unidades Pastorais."

Ali, cada Unidade Pastoral, para "além de um ou dois sacerdotes e alguns diáconos permanentes, tem uma equipa de animação pastoral", que pode ter até 12 pessoas, que com frequência se reúnem com o padre e "assumem com ele a condução de toda a vida pastoral da Unidade Pastoral, para que não seja o sacerdote com as suas decisões solitárias, a arcar com as dificuldades sozinho".

"Também temos já muitos casos em que os centros sociais paroquiais, por exemplo — que são uma carga muito grande sobre os ombros dos párocos, na condição de presidentes — têm vice-presidentes executivos com funções delegadas." E também já há "leigos que são presidentes dos centros sociais paroquiais, para libertar o sacerdote de algumas destas pressões".

"São caminhos que se estão já a realizar, já estão no terreno", recomendados "pelo documento final do Sínodo. Não é de um dia para o outro, evidentemente, mas estão a ganhar corpo", assegura.

  • Fonte: Rádio Renascença
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