Este pinto nasceu de um ovo artificial. A seguir pode ser o dodô e a moa gigante
- 27/05/2026 07:00
- Redação
O avanço foi apresentado pela empresa como um passo relevante na área da chamada “desextinção”, conceito que combina engenharia genética, clonagem e reprodução assistida para desenvolver animais com características semelhantes às de espécies desaparecidas.
A tecnologia utiliza uma membrana sintética de silicone colocada numa estrutura rígida impressa em 3D, concebida para reproduzir as principais funções de uma casca de ovo natural. Segundo os investigadores, o sistema permite garantir a troca de gases necessária ao desenvolvimento embrionário, mantendo ao mesmo tempo níveis adequados de humidade e proteção contra contaminações externas.
“É uma membrana muito fina e muito especializada que permite uma troca gasosa realmente eficaz”, explicou Andrew Pask, diretor de biologia da empresa. “O objetivo é reproduzir o funcionamento de um ovo natural da forma mais fiel possível.”
Apesar do sucesso anunciado, os embriões continuam a ser fertilizados e postos por aves reais antes de serem transferidos para a estrutura artificial, que funciona sobretudo como uma incubadora tecnológica.
A Colossal Biosciences acredita que o sistema poderá ser particularmente útil para incubar embriões geneticamente modificados de espécies extintas cujos ovos seriam demasiado grandes para aves modernas conseguirem chocar naturalmente. Entre os principais projetos da empresa encontra-se a moa gigante da Ilha Sul da Nova Zelândia, uma ave que podia atingir cerca de 3,6 metros de altura e que desapareceu há aproximadamente 600 anos após a chegada dos humanos ao arquipélago.
Os investigadores referem que os ovos desta espécie eram cerca de 80 vezes maiores do que os de uma galinha, tornando praticamente impossível utilizar métodos convencionais de incubação.
“Queríamos construir algo que a natureza já desenvolveu bastante bem e torná-lo melhor, mais escalável e mais eficiente”, afirmou Ben Lamm, diretor executivo da empresa.
A empresa revelou ainda que está a trabalhar com células germinativas primordiais — precursoras de espermatozoides e óvulos — para criar aves geneticamente editadas. O pombo-de-Nicobar é apontado como um possível substituto biológico no projeto de recriação do dodô, ave extinta no século XVII.
O realizador Peter Jackson, conhecido pela trilogia “The Lord of the Rings”, está entre os principais apoiantes do projeto. Além de financiar parte da investigação, o cineasta disponibilizou aos cientistas a sua coleção privada de ossos de moa, utilizada para extrair material genético e ajudar na reconstrução do genoma da ave extinta.
Segundo os investigadores, Peter Jackson terá investido cerca de 11 milhões de libras esterlinas na iniciativa (cerca de 13 milhões de euros).
A Colossal Biosciences ganhou notoriedade internacional nos últimos anos devido aos seus projetos ligados à “desextinção”, incluindo experiências relacionadas com o mamute-lanoso, o tilacino e o lobo-terrível.
Vincent Lynch, biólogo evolutivo da Universidade de Buffalo, reconheceu o potencial científico da técnica, mas rejeitou a ideia de que um animal geneticamente alterado possa ser considerado uma verdadeira moa.
“Podem conseguir criar uma ave geneticamente modificada, mas isso não significa que seja uma moa”, afirmou.
Outros especialistas alertam ainda que a empresa não publicou estudos científicos revistos por pares nem divulgou dados completos sobre a taxa de sucesso das experiências realizadas até agora.
Louise Johnson, investigadora da Universidade de Reading, recordou também que experiências semelhantes com cascas artificiais já tinham sido tentadas anteriormente, embora com resultados limitados.
“Substitutos artificiais e transparentes para cascas de ovos já foram usados antes para cultivar embriões de aves, mas nunca funcionaram muito bem”, afirmou. “A Colossal parece ter desenvolvido um melhor.”
Além dos desafios científicos, persistem igualmente dúvidas éticas e ambientais sobre a eventual reintrodução de espécies extintas em ecossistemas modernos. Arthur Caplan, bioeticista da Universidade de Nova Iorque, questionou qual seria o habitat adequado para estes animais recriados artificialmente.