Robot aquático "made in Portugal" poderá vigiar cabos submarinos
- 27/05/2026 13:58
- Redação
Um robot "mergulhador" desenvolvido em Portugal promete "revolucionar o apoio logístico nas operações do mar profundo". A promessa é do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), que apresentou o PETRA - Long-Range Deep-Sea Logistic AUV -, desenvolvido pelos seus investigadores.
O aparelho autónomo, apresentado esta quarta-feira, é o primeiro a reunir várias características "únicas num só robot", assegura o instituto da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto: consegue atingir grandes profundidades, tem uma autonomia elevada de bateria e de comportamento e, por isso, pode permanecer submerso durante grandes períodos de tempo no mais profundo dos mares e orientar-se sozinho para cumprir uma missão mesmo que esteja bem longe do porto mais próximo.
Para além disso, é "modular e reconfigurável", o que lhe permite variar entre 6 e 8 metros de comprimento e consegue transportar "até dois metros cúbicos de carga útil", admite o INESC TEC, em comunicado.
"Os cientistas precisam de analisar in loco, mas há muitas situações em que é só recolher dados e em que podemos ter sistemas autónomos que podem estar nos locais várias semanas a recolher dados mais densos, espacial e temporalmente, que podem complementar outros meios tripulados", explica o investigador, que acredita que, com o robot autónomo português, será possível estar "muitos dias e semanas a recolher dados" e "cobrir áreas com outra dimensão". "Passamos de uma escala local para uma escala global", assegura.
Para já, o robot autónomo está ainda em versão protótipo e, por isso, em desenvolvimento (há dois anos), mas já tem a sua primeira missão marcada para maio de 2027. Nessa altura, a PETRA vai permanecer duas semanas no fundo do Oceano Atlântico, assegura o instituto, no âmbito de um projeto europeu.
De acordo com os criadores, o veículo tem capacidade para descer "a seis mil metros" e autonomia para "ficar semanas no fundo do mar" e, por isso, não há "igual no mundo". Para que serve? O investigador José Miguel Almeida explica: pode servir de "suporte logístico" em operações no fundo do mar "em lugares remotos".
As aplicações práticas podem ser várias, segundo o INESC TEC. Pode "transportar e recuperar equipamentos" no fundo do oceano, recolher os seus dados e recarregar as baterias dos mesmos sem ser necessária grande intervenção humana. As "propriedades únicas" do aparelho permitem, assim, "manter uma infraestrutura submarina" sem precisar de recorrer "a navios de investigação ou de operação offshore" ou outros aparelhos operados remotamente. Assim, reduzem-se os custos e abrem-se as portas às possibilidades em profundidade, especialmente em sítios pouco alcançáveis por seres humanos.
"A investigação oceanográfica atual é muito dependente da existência de navios de investigação como ponto central", é explicado pela equipa de investigadores. Se a PETRA singrar, os custos, tanto económicos, como humanos e ambientais podem baixar de forma significativa, permitindo, espera o INESC TEC, "escalar operações" e proceder à recolha de "informações mais densas espacial e temporalmente", mesmo nas condições mais adversas.
"No caso português, temos um mar que é dezenas de vezes o tamanho do país. Temos recursos que também temos que proteger. Temos que saber o que temos", defende.
As mesmas características que tornam este robô autónomo importante para a investigação científica também podem ser aproveitadas no "domínio da defesa e segurança nacional", reza o mesmo texto, com a equipa que o desenvolveu a acreditar que pode ser uma "nova ferramenta" de defesa "muito promissora" para complementar os meios tripulados que já existem no país. E deixam exemplos de utilizações práticas: pode ser utilizado na "deteção de operações ilegais de exploração submarina", por exemplo, bem como na "vigilância de meios subaquáticos em zonas de interesse estratégico".
"Imaginemos que há suspeita de exploração ilegal numa determinada zona, ou que é necessário monitorizar um cabo submarino. A missão é definida a partir de um centro de controlo remoto, e, a partir daí, o veículo é capaz de seguir o plano, mas também de tomar decisões autónomas que ajudem a cumprir o objetivo”, é explicado por José Miguel Almeida.
O investigador vê nesta PETRA outra possibilidade ainda: tendo em conta que conseguem operar diretamente entre portos poderá ser "possível ter bases subaquáticas ao longo da costa portuguesa", que poderão servir para "transportar energia ou instalar infraestruturas". "A visão é ter uma frota a monitorizar e explorar toda a extensão da plataforma continental portuguesa".
Ao longo dos próximos três dias, o Estoril vai continuar a ser o palco dos AED Days, onde se reúnem intervenientes nacionais e internacionais das indústrias da aeronáutica, espaço e defesa.