"Pai Nosso": o filme sobre os dias de Salazar depois de cair da cadeira
- 28/05/2026 01:30
- Redação
A data de estreia, 28 de maio, não é um acaso. “Pai Nosso – os últimos dias de Salazar”, de José Filipe Costa, chega aos cinemas esta quinta-feira para assinalar o centenário da revolução de 1926, que instaurou a ditadura militar e conduziu Salazar ao poder.
O filme, que estreou no Festival de Roterdão, onde recebeu os prémios de Melhor Ficção, Melhor Caracterização e Melhor Interpretação para Catarina Avelar, retrata os último anos de vida de António de Oliveira Salazar.
“Há a ideia de que Salazar caiu da cadeira e pronto, acabou ali a sua vida e, não. Ele ainda viveu mais quase dois anos. O contacto com o diário do médico pessoal do Salazar, que foi publicado depois do 25 de Abril, ajudou a perceber que de alguma maneira Salazar foi 'sequestrado' dentro do próprio palácio de São Bento, ou seja, foi o fascismo sequestrar-se a si próprio”, diz Costa.
No filme, Salazar surge doente, sempre rodeado da governanta, Maria de Jesus, de outras três criadas e do médico e do enfermeiro. Mas há sempre duas figuras vigilantes a acompanharem os dias de Salazar. Esses elementos da PIDE são aquilo a que José Filipe Costa diz ser o sistema a virar-se contra o seu criador.
Até à sua morte, em julho de 1970, Salazar vê a sua saúde ir definhando e é personagem principal de uma das maiores encenações de poder da História. O filme mostra como Salazar foi mantido nessa farsa, reunindo no Palácio de São Bento com ministros. Em toda essa encenação a governanta teve um papel central.
“É uma história que oferece muitos dilemas e muitos paradoxos às personagens. Como é que elas lidam com a situação e com a mentira. Sendo católicas têm aquele mandamento de ‘não mentirás’ e, portanto, sobretudo a governanta Maria de Jesus, tem de mentir e incorporar essa mentira no dia-a-dia durante dois anos.”
Mas o filme vai mais longe. Com base nos relatórios médicos são mostrados momentos em que Salazar sofre alucinações. Essa foi uma opção estética que José Filipe Costa quis introduzir no filme para desmascarar a história.
Assumindo que optou por um título “provocador”, José Filipe Costa conta neste filme com produção de Uma Pedra no Sapato e distribuição da Nos Audiovisuais, com o ator Jorge Mota no papel do ditador português e Catarina Avelar no papel da governanta, uma interpretação que lhe mereceu o Prémio de Melhor Interpretação no Festival Caminhos do Cinema Português.
“Nós, no fundo, éramos três apoios da Maria, nesta farsa. Somos meninas que eram trazidas de ‘lá de cima’, com muito poucos estudos ou nenhuns. Fomos colocadas ali naquela casa para servir o patrão e tudo era à volta do patrão. Quando Salazar cai da cadeira, somos forçadas, porque para nós não há hipótese nenhuma de fugir, às ordens da Maria de Jesus. Somos forçadas a fazer parte daquela peça de teatro que para nós é muito divertida”, explica.
“Pai Nosso – os últimos dias de Salazar” é, segundo José Filipe Costa, um filme necessário ao Portugal de hoje. O cineasta considera que mantém-se a ideia de Salazar como “figura paternal” que, na opinião do Costa “é fantasmagórica”.
“É um fantasma que ainda aí está e, sobretudo, agora sente-se esse regresso desse fantasma, dessa figura que é ultimamente foi muito falada de uma maneira até mitificada. Há todo um lado de Salazar, que, apesar da modéstia que ele sempre quis exibir, não o é. Ele foi responsável pela montagem de um aparelho repressor que durou muitos anos, com a Censura e a PIDE”, aponta.
José Filipe Costa destaca também as ideias que Salazar defendia sobre a condição feminina. “A mulher era colocada num papel de submissão ao marido”, sublinha dando como exemplo a relação com a governanta. “É paternalista em relação à Maria, mas ao mesmo tempo, a Maria está sempre no seu lugar e conhece o seu lugar. É uma coisa muito do fascismo e da ditadura”, remata.