Vergonha e estigma impedem portugueses de fazer testes a Infeções Sexualmente Transmissíveis
- 29/05/2026 01:00
- Redação
Quase metade dos portugueses nunca realizou testes de rastreio a Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST), o que pode comprometer o controlo da transmissão destas doenças e atrasar o diagnóstico e tratamento.
Um estudo da GfK Metris, que será apresentado na 3.ª edição do ID Symposium, que reúne especialistas para um dia de debate sobre as IST, mostra que 45% da população nunca fez exames para despiste de infeções como VIH, sífilis ou clamídia, apesar de existir um elevado nível de conhecimento sobre estas doenças.
Apesar de 92% dos portugueses afirmarem saber o que são IST, o estudo revela que o estigma e a vergonha continuam a ser os principais obstáculos à realização de testes, com 59% dos inquiridos a admitir constrangimento em pedir rastreios (sobretudo nas idades entre 36-45 anos e nos solteiros).
Há também receio de exposição perante familiares ou colegas e medo do diagnóstico, fatores que contribuem para atrasar a identificação de infeções e aumentar o risco de transmissão na comunidade.
O presidente do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), Fernando de Almeida, alerta para esta realidade, sublinhando a necessidade de apostar no diagnóstico precoce: “Aquilo que teremos de fazer é investir cada vez mais no diagnóstico precoce, porque algumas destas doenças são tratáveis, mas quanto mais depressa melhor.”
No caso do VIH, a preocupação centra-se no diagnóstico tardio, com muitos casos a serem identificados já em fases avançadas da doença. Segundo Fernando de Almeida, é uma “situação que compromete não só o tratamento individual como também o controlo da propagação do vírus, uma vez que pessoas não diagnosticadas podem continuar a transmiti-lo sem saber”. E em Portugal, adianta, ainda há muitos casos em que as “pessoas aparecem já em fases adiantadas, algumas já com a doença, Sida.
Embora 89% dos inquiridos saibam que o VIH é tratável, persistem ideias erradas: 14% acreditam, incorretamente, que a infeção tem cura, sinal de que a literacia em saúde continua a ser um desafio.
O estudo mostra um paradoxo: existe conhecimento generalizado sobre as Infeções Sexualmente Transmissíveis, mas a adoção de comportamentos preventivos continua aquém do necessário.
Mais de metade dos inquiridos defende a realização de rastreios anuais, mas muitos não o fazem, criando condições para que infeções, muitas vezes assintomáticas, continuem a ser transmitidas de forma silenciosa.
Os especialistas defendem que é necessário normalizar a comunicação sobre IST, combater o estigma e aumentar o acesso à informação, incluindo em contexto escolar, onde 95% dos inquiridos consideram importante abordar o tema.
Só com mais literacia, diagnóstico precoce e acesso facilitado a testes será possível reduzir a transmissão e controlar a incidência destas infeções em Portugal.
Segundo dados do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, as Infeções Sexualmente Transmissíveis atingiram níveis recorde na Europa em 2024, com aumentos acentuados de gonorreia e sífilis.