Negociações UE-Rússia só depois de cessar fogo na Ucrânia, diz representante da Comissão Europeia

  • 29/05/2026 06:00
  • Redação

Sofia Moreira de Sousa relembra que, no ano passado, a Ucrânia assinou um “cessar-fogo incondicional” que não tem sido cumprido perante “ataques russos que se têm intensificado”. Por essa razão, haver negociações entre Bruxelas e Moscovo só fará sentido quando surgirem sinais russos de que há desejo pela paz – e em todos os domínios.

“Temos visto uma série de incidentes e de ataques híbridos a acontecer em várias capitais europeias, desde já nos ‘drones’ que sobrevoam aeroportos, campos militares, etc. Os ataques hoje não são só com mísseis. Precisamos nos defender – e sabendo que a Ucrânia é a primeira linha de defesa do próprio espaço europeu, porque a Rússia não vai parar na Ucrânia. Já o disse”.

Na leitura de Manuel Poêjo Torres, comentador residente do Escala Global, os ataques das últimas semanas sobre Kiev (e que a Rússia já avisou que vão ser “sistemáticos”) acabam a dar força à Ucrânia e a garantir, passo a passo, que será cada vez mais difícil capitular sobre o Kremlin.

“Isto só vai obrigar a Ucrânia a galvanizar aquilo que são as estratégias de sobrevivência do Estado Ucraniano que tem provado ao longo dos últimos anos. A Rússia está a ajudar a Ucrânia, no fundo. Não apenas ajudou, mas como ajudou a consolidar a ideia de nação ucraniana como a Ucrânia não tinha no passado”, assinala.

“Aquilo que existe em cima da mesa, neste momento, é trabalharmos no processo de adesão e de alargamento em que a Ucrânia entrará na União Europeia. Agora, para isso acontecer há uma série de condições que são necessárias, obviamente. Apesar de haver elasticidade criativa para outros acordos e de aproximação à medida que fazemos este caminho de adesão à União Europeia”.

Quanto aos impactos da entrada da Ucrânia – nomeadamente, para Portugal e a política agrícola –, a representante da Comissão Europeia considera que essa discussão não pode afastar a ideia de que o alargamento é uma “condição existencial” da UE. “Se não tivéssemos tido o alargamento dos países a leste há 20 anos, onde é que nós estaríamos hoje?”.

Manuel Poêjo Torres alinha-se nesta leitura, mas pede maior sensibilização em Portugal para os efeitos que a integração ucraniana vai acarretar.

“Não o suficiente, mas esse diálogo está a ser feito na Alemanha, na Polónia e na Itália, especialmente em França. O problema aqui é sempre o mesmo: política agrícola comum e aquilo que será o investimento e a abertura e o inundar do mercado comum com produtos agrícolas baratos, abaixo do preço do mercado europeu, produtos agrícolas ucranianos”.

Não tem sido chamada para a mesa das negociações no Médio Oriente e assim deve continuar nos próximos tempos. “Não diria um mediador direto. A União Europeia, se for pedido para ter um papel ativo, seguramente que o faria, mas achamos que o melhor é apoiar as iniciativas já em curso”, assume Sofia Moreira de Sousa.

Ainda assim, e na eventualidade de Bruxelas ser incluída nas conversações, a representante da Comissão acredita que haverá benefícios, já que a Europa “tem experiência em negociar” com o Irão – nomeadamente no acordo nuclear alcançado em 2015 e, entretanto, rasgado por Donald Trump.

Perante os últimos dias no Médio Oriente – e os rumores de um entendimento de paz, entretanto fragilizados por alegados ataques no Estreito de Ormuz –, Poêjo Torres não quer fazer previsões concretas, mas acredita que têm sido dados passos importantes para um cessar-fogo mais prolongado.

“Parece-me a mim que os dados estão lançados, eu creio que podemos ver assinado um acordo preliminar, um acordo que ofereça tempo e oxigênio às negociações sérias, aquelas que são necessárias”.

  • Fonte: Rádio Renascença
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