Maria Rueff: "Não podemos deixar que a IA nos regularize e domine"

Maria Rueff: "Não podemos deixar que a IA nos regularize e domine"

  • 29/05/2026 17:04
  • Redação

Maria Rueff ainda está a ler a encíclica do Papa (Magnifica humanitas) sobre a Inteligência Artificial (IA), mas já reparou no alerta de Leão XIV sobre o “perigo de desumanização” e de uma “realidade sem afeto”.

A atriz, que leva ao palco do Teatro Maria Matos, em Lisboa, a partir de 13 de junho a peça “A Gorda”, considera que a IA deve ser usada “como ferramenta, como usámos as calculadoras”. “Não podemos deixar que a IA nos regularize e domine”, afirma.

A peça, que estreou em Alverca com plateias esgotadas e chega agora a Lisboa, leva ao palco um texto que quer quebrar padrões.

“Vivemos hoje muito este imperativo de termos de ser todos bonitos, jovens, 'instagramáveis'. Estamos todos obrigados, cada vez mais, a estar padronizados. E justamente o que me encantou foi esse grito que se vê no livro”, aponta.

Como mergulhou neste livro da Isabela Figueiredo? É um livro já com alguns anos. É uma obra que foi importante na afirmação da voz literária da autora. Como é que encontrou este livro e porque é que quis trazer para o palco?

Eu li este livro mais ou menos quando ele saiu e fiquei encantada pela escrita da Isabela, pelo sentido de humor e pelo lado, digamos, “punk”. É um livro sem “rodriguinhos” onde ela tratou um tema que nos toca a todos.

O direito à diferença em termos físicos e psicológicos, o problema da autoestima, o desamor e também o seu lado retornada.

Nós estivemos as duas em Moçambique e viemos precisamente para Portugal na altura da descolonização. E interessou-me, sobretudo, o ponto de vista dela sociológico.

Não há aqui nada político. É uma questão de trato. Claro no livro “A Gorda” a descolonização não está tão presente, está mais no livro “Cadernos Coloniais”. Mas, portanto, eu fiquei absolutamente apaixonada pelo livro.

Identifiquei-me porque, enfim, no caso da personagem Maria Luísa, aquela gordura não é uma gordura, ou aquela fome que faz com que o corpo dela transborde para uma dimensão dita, hoje, errada, não é fome.

Vivemos hoje muito este imperativo de termos de ser todos bonitos, jovens, “instagramáveis”, etc. Ou seja, isso pode resultar em nós, nesse vazio que provoca essa fome. Pode provocar em nós faltas de conseguir estar na sociedade de forma diferente, com a nossa própria forma.

Estamos todos obrigados, cada vez mais, infelizmente, nesta sociedade narcísica, egocêntrica e individualista, a estar padronizados. E justamente o que me encantou foi esse grito que se vê no livro, a assunção também do seu desejo sexual e uma série de tabus que, por norma, não são expostos de forma tão realista e crua.

Eu gosto sempre na minha carreira de servir autores portugueses. Aliás, penso que quase só dei corpo, praticamente, a autores portugueses, sejam eles escritores, dramaturgos, guionistas ou humoristas. Fiz muito poucos clássicos.

Foi um gosto, quando este convite surgiu. Foi também uma feliz coincidência, porque nunca pensei que ao ler o livro o tivesse de o servir. É um prazer imenso.

E como é que é esse servir? Porque estar sozinha em palco implica um enorme desafio.

Sim, foi uma feliz coincidência. A encenadora, a Sofia de Portugal, tinha sido minha colega no Conservatório, no início dos inícios. Curiosamente ficámos numa turma, que era imensa e com grandes atores da nossa praça como a Elsa Valentim, o Manuel Wiborg, Miguel Borges, enfim, tantos outros da minha leva.

Eu e a Sofia tivemos imediatamente uma identificação nos primeiros anos. E, portanto, mesmo dentro do Conservatório, ficámos amigas e trabalhámos muitas vezes juntas.

E, portanto, quando eu soube que a Sofia ia fazer este espetáculo “Off-Broadway”, como nós dizemos no meio, ou seja, estreado numa companhia mais pequena, com o apoio, obviamente, do Ministério da Cultura, hoje Ministério da Cultura e etc… Mas quando soube que a Sofia ia fazer, disse: “Olha, eu adorava!”

Ela disse-me que achava que o livro era eu, de tudo que ela me conhece, da minha vida, da minha história. Enfim, crescemos juntas, e ela disse que em muitas passagens do livro se lembrava de histórias que eu lhe contava. E, portanto, desafiou-me e foi um feliz encontro com ela e com a Aurélia Vasques, que é a responsável pelo espaço cénico e pela luz.

Há um misto de teatro e representação intimista que eu também estou habituada a fazer na televisão. É quase como se, às vezes, fôssemos a zonas de grande plano, digamos assim. E depois há o meu queridíssimo companheiro de vários espetáculos, o Dino Alves que ajudou a servir esta personagem.

Tivemos o especial cuidado de não tornar grotesca a ideia da gordura. Portanto, é um humor fino, com ironia, mas nunca desbragado. Nunca grotesco no mau sentido da palavra.

Para mim foi quase como se voltasse à escola, estar com a minha amiga diariamente, podermos estar mais a fazer o que eu costumo chamar filigrana, com pormenores e com tempo.

Foi muito bom que a peça se transformasse num sucesso, porque estreou em Alverca, no Teatro Ildefonso Valério com a Companhia Cegada, que desafiou a Sofia. Depois a Sofia desafiou-me a mim e à Marta Dias, que fez a versão cénica.

Esgotou imediatamente lá a temporada. E depois a Força de Produção que tem feito comigo e com o Joaquim Monchique uma longa parceria em outros espetáculos, numa via mais comercial e “mainstream”, foi ver e desafiou-nos para trazer a peça ao Teatro Maria Matos.

Lá estaremos com muito gosto. E, há, entretanto, também o encontro com a Isabela, que foi, assim, uma espécie de... Como dizer? Fomos duas irmãs que se reencontraram, digamos assim.

Ela acaba por fazer na escrita o que eu acabo por fazer no palco. Socorrendo-se muito desta ideia do humor e da dor, juntas identificámo-nos imediatamente. Posso dizer que nos tornámos amigas.

Aliás, ela esteve presente praticamente em todas as sessões da peça. E esse acompanhamento dela foi importante. Isto é tudo feito com muita delicadeza e esse acompanhamento dela ia, de alguma forma, validando os sítios para onde eu, e a Sofia, levávamos a peça.

Maria Rueff sobre a questão que já tocou, dos padrões, vivemos, de facto, um reinado da Inteligência Artificial que nos bombardeia, por vezes, com imagens que são falsas e que tentam impor esse tipo de padrões. Que desafios é que isso implica? E qual a missão do teatro?

Ainda agora saiu a encíclica do Papa Leão XIV, que eu ainda estou a meio da leitura, mas já reparei em alguns pontos e justamente esse perigo da desumanização que já sentíamos ainda antes da Inteligência Artificial.

É esta capacidade de inventar realidades que não correspondem à verdade, que já tinha vindo a ser feita com as “fake news” e com as redes sociais.

Há esse perigo da Inteligência Artificial criar uma realidade sem, como ele diz na encíclica, sem afeto e sem ser-se humano.

E, portanto, acho que devemos usar a Inteligência Artificial como ferramenta, mas que sirva... Enfim, como usámos sempre as calculadoras, o Google. São ferramentas de utilidade ao homem, mas não podemos deixar que a Inteligência Artificial nos regularize, nos domine.

Neste caso, o teatro tem essa importância precisamente. O que está a acontecer ali é realmente feito de carne, de dor, de amor, e à frente dos nossos olhos.

Eu digo sempre, a comédia depende muito da verdade. Ou seja, tudo o que se brinca, todo o humor, nasce de códigos que toda a gente entende, porque senão o riso não surge.

Quando a gente não entende de que é que se está a tratar, de que é que a ironia trata, o riso não aparece. Portanto, o humor é precisa por excelência da cumplicidade com o outro. Descentra-se.

Eu acho que o teatro tem esse papel fundamental, nos tempos estranhos que vivemos, que é essa proximidade.

Embora o corpo do ator esteja a servir uma história e uma personagem, está ali de verdade, de corpo, alma, sangue, tudo, à frente das pessoas.

É curioso, eu e a Sofia, na escola, e quando nos estreámos, vivemos uma crise tremenda de público. As salas tinham, sei lá, dois, três espectadores, e tem sido muito belo perceber que as pessoas cada vez mais acorrem às salas de teatro.

Houve também aqui um crescendo depois da pandemia. Parece que a pandemia ensinou que as pessoas têm de valorizar a arte, que é, digamos, o pipo da panela de pressão. Através da arte nós conseguimos libertar este vapor todo de raiva, de dor, de angústia que vivemos no dia-a-dia.

E, portanto, é esse o papel do teatro. Ser um veículo de verdade, de carne, sangue, dor, sentimento e vida. Vida. É isso!

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: