Marilyn Monroe. O enigma que Hollywood não decifrou faz 100 anos
- 01/06/2026 01:00
- Redação
Atriz, cantora, modelo, leitora ávida, "blonde bombshell", produtora, poetisa. Muitas eram as faces de Marilyn Monroe, um dos principais ícones da cultura pop do século XX, que esta segunda-feira faria 100 anos.
Nasceu Norma Jeane Mortenson, morena, cabelo encaracolado. Torna-se-ia, anos mais tarde, a loira platinada mais conhecida da História do cinema. Morreria aos 36 anos de forma trágica, mas não sem antes deixar uma marca impossível de ignorar em Hollywood, algures entre o estereótipo da persona que cultivava como Marilyn e o intelecto que a atormentava como Norma. As duas habitavam o mesmo corpo, mas o convívio, soube o mundo depois, não era pacífico.
A figura da loira aparentemente "tonta" era a fina camada inicial de alguém que ia muito além disso, defende o especialista. Olhando para a obra com a distância que só o tempo consegue construir, Luís Mendonça sente que "o cinema captou" a complexidade da atriz que escapara inicialmente na espuma dos dias, e também a fotografia "testemunhou desde cedo" a "densidade da pessoa por trás da persona, por trás da máscara". No meio da imediatez da fama, perdeu-se, na altura, o "olhar curioso, insaciável sobre a vida" que conseguimos observar, décadas depois. Com ele, vinha também acoplada uma "grande impotência em lidar com tudo o que estava a acontecer" e com "tudo o que ela foi, era e queria ser".
"Havia uma mitologia Marilyn e todos os grandes intelectuais e artistas que conviveram com ela testemunharam coisas que não eram usadas pela indústria. Uma delas era a sua fervilhante e vibrante inteligência", esclarece.
"Essa dimensão enigmática é um lastro. Há qualquer coisa que vem acrescentar às ideias feitas sobre a 'bombshell', o corpo de mercadoria em que ela estava transformada, a dado momento... ou se sentia transformada a dado momento, porque acho que ela sempre combateu isso e resistiu. Acho que há uma dimensão política na Marilyn, até", acrescenta Mendonça, que acredita que, como acontece com os atores "mais completos" - que atuam sem parecer que atuam -, Marilyn "gerava espaços de indefinição" que nos confundem mas, sobretudo, talvez a confundissem a ela.
É por isso que, diz Luís Mendonça, Marilyn é ainda hoje um "texto que continuamos a tentar descodificar". "Essa densidade de Marilyn Monroe, essa complexidade da pessoa por detrás da estrela foi uma lição para a própria indústria", assegura o especialista em cinema, para quem é precisamente no complexo enigma de Norma Jeane que reside o magnetismo de Marilyn, a estrela que, mesmo após a morte, continua a nortear a indústria que se "aproveitou" dela, mas que também soube alimentar.
"Ela conseguia jogar esse jogo muito bem", acredita, apesar do resultado: ela "acede à eternidade" através do sistema que a criou, mas que acaba por superar. "Ela participou na construção dessa personagem", assegura.
"Edgar Morin escreveu muito sobre estrelas de cinema e, em particular sobre a Marilyn. Ele dizia que ela foi a última estrela do passado e a primeira sem 'star system' e que representou o fim desse sistema de estrelas". Muitos tentaram caracterizá-la, mas "não era fácil". "Eu acho que isso era a força dela, de alguém que alimenta uma curiosidade grande pelo mundo mas, ao mesmo tempo, é de uma fragilidade imensa. De alguém que quer aventurar-se mas que se sente, ao mesmo tempo, terrivelmente frágil e vulnerável", lamenta. "Ela tem um passado, uma história de vida dolorosa. É uma história marcada pela tragédia e condenada a essa tragédia", recorda.
No mesmo corpo, "a Marilyn Monroe tem de conviver com a Norma Jeane e com o que Marilyn Monroe pode ser", um jogo perigoso de se manter, como as trágicas histórias de James Dean ou Heath Ledger também podem atestar. "Ela conseguia conciliar pólos opostos. Trabalhava entre opostos. E isso é um jogo perigoso. Ela jogou um jogo muito perigoso, mas ela estava condenada a jogá-lo. E, estando condenada a jogá-lo, ela foi a jogadora mais exímia e brilhante que podia ter estado entre os comuns mortais", remata.
Nasceu Norma Jeane Mortenson, no dia 1 de junho de 1926, em Los Angeles, nos Estados Unidos da América (EUA). Começou a fazer trabalho de modelo em janeiro de 1945, à revelia do marido, que estava na guerra, e da sogra. Foi nessa altura que começou a esticar o cabelo, naturalmente encaracolado, e a pintá-lo de loiro platinado.
Demorou apenas um ano a entrar no cinema, com um contrato com a 20th Century-Fox, altura em que escolheu o nome artístico Marilyn Monroe: uma homenagem à estrela da Broadway Marilyn Miller e à mãe, cujo apelido de solteira era Monroe.
Depois de se divorciar do primeiro marido, Marilyn começou a ter aulas de interpretação, canto e dança, e a acompanhar produções cinematográficas, com o intuito de aprender. Foi apenas em 1947 que teve a primeira oportunidade, com pequenos papéis em "Scudda Hoo! Scudda Hay!" e "Dangerous Years".
A experiência na Fox não correu bem. No entanto, o gosto pela representação ficara e, depois de um período de volta à moda, Marilyn trabalhou para voltar ao grande ecrã. Estudou no Actors' Lab, uma conceituada escola de Los Angeles, teve um pequeno trabalho no teatro e começou a criar as ligações certas: fez amizade com um colunista de mexericos, conviveu com produtores e pessoas influentes na indústria, e até uma relação com um executivo que acabou por convencer Harry Cohn, diretor da Columbia Pictures, a contratá-la em março de 1948.
O loiro platinado voltou. O cabelo foi estilizado com inspiração em Rita Hayworth. Mais uma vez, porém, não chegou ao sucesso. Haveria de ser só em 1950 que, finalmente, conseguiu abrir portas.
Começou com um papel elogiado pela crítica em "Eva", filme que recebeu 14 nomeações aos Óscares da Academia. Depois seguiu-se "Quando a Cidade Dorme". Começou, enfim, a ser vista como atriz, e não modelo, o que lhe garantiu um contrato de sete anos com a 20th Century-Fox, o estúdio que lhe dera a primeira oportunidade três anos antes.
Depois de uma era de personagens femininas "fortes e independentes", encarnadas por atrizes como Katharine Hepburn e Barbara Stanwyck — papéis pensados para atrair mulheres às salas de cinema enquanto os homens travavam a Segunda Guerra Mundial —, os estúdios procuravam uma estrela que pudesse devolver os homens às salas. Encontraram o "sex symbol" perfeito em Marilyn Monroe.
A pouco e pouco, Marilyn ganhou notoriedade e tornou-se um dos principais nomes de Hollywood. Apesar de tentar mostrar os seus dotes como atriz séria, era continuamente contratada para papéis que realçavam o seu "sex appeal", especialmente em comédias em que também encarnava o estereótipo de tonta. Sucediam-se as desculpas para a colocar de fato de banho ou em vestidos apertados.
Há um certo paradoxo na abordagem de Marilyn Monroe à fama de "sex symbol": por um lado, combatia o sexismo nas produções e lutava por papéis mais sérios; por outro, ganhava cada vez maior controlo sobre a sua imagem e contribuía para a perceção de sensualidade. Um produto de uma sociedade dos anos 50 em que uma mulher só podia ser uma coisa ou outra, séria ou sexy. Norma Jeane e Marilyn Monroe não podiam coabitar no mesmo corpo. Só assim a paródia que ela própria fazia da imagem que construía passava despercebida para tantos milhões de pessoas.
Marilyn desenvolveu com o seu maquilhador o famoso "look" com sobrancelhas negras e arqueadas, pele pálida, lábios vermelhos brilhantes e um sinal numa bochecha. Também desenvolveu uma dependência séria de barbitúricos, anfetaminas e álcool, para lidar com a ansiedade, a insónia crónica e o "bullying" que sofria nos "sets".
Em 1954, devido a conflitos com a Fox, Monroe fundou a sua própria produtora, a Marilyn Monroe Productions (MMP), uma movimentação que teve um papel decisivo no colapso do sistema de estúdios que funcionavam como um autêntico monopólio: um modelo estrutural segundo o qual toda a produção cinematográfica se concentrava num pequeno número de estúdios com grande poder, que produziam filmes nos seus lotes, com criativos e talento "presos" a contratos de longa duração, e total controlo sobre a distribuição e exibição.
Foi nos anos 50 que brilhou em filmes como "Quanto mais Quente melhor", "Parada de Estrelas", "The Prince and the Showgirl", "Os Homens Preferem as Loiras", "Paragem de Autocarro", "Como Se Conquista um Milionário", quase todos comédias. Para não falar de "O Pecado Mora ao Lado", o filme em que a saia levanta, o apogeu da imagem de loira, bonita e, como não, "burra".
"O segundo é que era frágil. O terceiro é que não sabia representar. Ela era tudo menos burra, apesar de não ter tido educação formal, e era muito sensível acerca disso. Mas era deveras inteligente — e muito forte. Tinha de o ser para derrotar o sistema de estúdios de Hollywood nos anos 50. O arquétipo de loira burra era um papel — ela era uma atriz. E era tão boa atriz que agora ninguém acredita que ela fosse algo que não o que representava no ecrã", atira Churchwell.
Para os céticos, fica o filme "Os Inadaptados" (ou Misfits), de 1961, hoje em dia considerado uma das obras-primas do cinema dos anos 60 e um dos grandes papéis da sua carreira. Foi também o seu último filme.
No dia 4 de agosto de 1962, Marilyn Monroe foi encontrada sem vida no quarto, com uma dose de barbitúricos várias vezes acima do limite letal, segundo as autoridades. Tinha 36 anos.
Para trás, ficou o legado de uma atriz que tentou lutar contra os estereótipos, mas também jogar e brincar com eles, consciente do que a levaria ao sucesso. E não só.
Marilyn chegou a ser investigada pelo FBI devido à relação com um argumentista. Embora o "bureau" não tenha encontrado ligações ao Partido Comunista norte-americano, concluiu que Monroe tinha "ideias certa e concisamente esquerdistas".
Era também uma leitora ávida. Foram encontrados mais de 400 livros na sua biblioteca pessoal, incluindo títulos como "Os Irmãos Karamazov", de Fyodor Dostoevsky; "O milagre de S. Francisco", de John Steinbeck; "Pela Estrada Fora", de Jack Kerouac; e uma biografia de Sigmund Freud em três volumes. Escrevia: deixou inacabada uma autobiografia intitulada "My Story" ("A Minha História", em português).
Uma das fotografias mais populares de Marilyn retrata-a a ler "Ulisses", de James Joyce. Quando lhe perguntaram, numa entrevista, o que salvaria se a sua casa ardesse, a resposta foi simples: "Livros."
Monroe também se celebrizou pela música. Cantou em vários filmes — a sua atuação mais conhecida no cinema será "Diamonds Are a Girl's Best Friend", do filme "Os Homens Preferem as Loiras". Também cantou para mais de 60 mil militares norte-americanos em 1954, na Coreia do Sul.
Em público, ficou para a posteridade o dia em que cantou "Happy Birthday, Mr. President" no aniversário de John F. Kennedy, a 19 de maio de 1962, no Madison Square Garden, em Nova Iorque. Uma atuação que perpetuou os rumores de que teria um romance com o então Presidente dos EUA, assassinado em 1963, quase um ano depois da morte de Marilyn.