Trump “parece estar a perder a iniciativa” nas negociações com o Irão
- 01/06/2026 17:51
- Redação
O professor catedrático de Relações Internacionais, Luís Tomé, entende que Donald Trump “parece estar a perder a iniciativa” nas negociações sobre o conflito com o Irão.
No dia em que o Irão anunciou a suspensão das negociações com os Estados Unidos, exigindo o fim dos ataques israelitas no Líbano, o investigador afirma que as deambulações do Presidente norte-americano tendem a responder mais aos mercados do que às preocupações diplomáticas para se chegar a um entendimento.
“Temos visto uma retórica recorrente do lado da Casa Branca e do próprio Presidente Trump, mas com o passar das semanas parece muito destinada a gerir o comportamento dos mercados e das oscilações nos preços da energia do que para procurar uma solução. Percebemos todos que o Irão tem, no estreito de Ormuz, a sua grande arma negocial. Ou seja, pressente que o tempo joga contra a administração Trump”, aponta.
Luís Tomé também considera que tanto os Estados Unidos como o Irão estão empenhados em não entrar definitivamente em guerra, ao mesmo tempo sublinha que há sucessivas violações do acordo de cessar-fogo e alerta que a presente volatilidade “pode levar, de facto, de novo à guerra”.
O Irão ameaçou com o bloqueio total dos estreitos de Ormuz e de Bab el-Mandeb, à saída do Mar Vermelho, este último com o apoio dos rebeldes do Iémen. No entender do professor, essa é uma forte possibilidade, no atual contexto. A concretizar-se, diz que terá um grande impacto nas transações comerciais.
“É possível. Já fizeram alguns ataques no Mar Vermelho. É evidente que, numa nova escalada, o Irão não só pode fechar o Estreito de Ormuz, e basta a ameaça para, de novo, as transportadoras, não quererem passar no Estreito de Ormuz, como, obviamente, no estreito de Bab el-Mandeb, pois tínhamos aí um prejuízo enorme. Se tradicionalmente passava 20% do petróleo pelo estreito de Ormuz, a somar a um terço dos fertilizantes, pois no caso de Bab el-Mandeb nós estamos a falar de cerca de 12% do petróleo mundial mais uma grande quantidade de alimentos e de fertilizantes. Portanto, isso seria tremendo”, afirma.
Luís Tomé diz que, no meio deste conflito, Israel consegue fazer cumprir a sua agenda e perturbar as negociações mediadas pelo Paquistão.
“Se as negociações fracassarem, ou até este cessar-fogo com o Líbano, se destruir completamente, pois isto está de acordo com o objetivo de Israel. Se o Líbano for levado ao limite com esta intervenção mais musculada de Israel e mergulhar numa guerra civil, isso é outro objetivo que o governo israelita pretende. Também se nada disto acontecer, então, para todos os efeitos, Israel sempre pode dizer que tem mais controle sobre o interior do Líbano e que continua a desmantelar o Hezbollah”, declara.
O especialista em Relações Internacionais acrescenta que, ao mesmo tempo, o regime de Netanyahu debate-se com o problema de não conseguir dar segurança às populações israelitas, no norte do país.
Do Irão veio também a ameaça de atacar colonos israelitas, caso Israel persista nas suas ofensivas contra o sul de Beirute.