“Greve encostada a feriado descredibiliza o direito à greve”

  • 02/06/2026 05:18
  • Redação

O economista explica que calcular o custo exato de uma greve geral para a economia não é uma tarefa simples, embora existam várias metodologias para chegar a uma estimativa.

“Há uma forma muito simples, que é pegarmos no Produto Interno Bruto (PIB) nacional e dividirmos pelo número de dias do ano. Isso dá quase 800 milhões de euros por dia”, afirma.

Contudo, o comentador sublinha que esta abordagem não reflete a realidade, uma vez que a atividade económica varia entre dias úteis e fins de semana e nem todos os setores são afetados da mesma forma.

“Nas importações e exportações não há assim grande diferença e no investimento também não. Um investimento que não se faz num dia pode fazer-se no dia seguinte”, explica.

Segundo João Duque, o principal impacto sente-se no consumo, embora nem toda a atividade perdida represente uma quebra efetiva da riqueza produzida.

“Quem não almoça fora pode almoçar em casa. Há consumos que são adiados ou substituídos. Portanto, não é correto assumir que a economia passa de 100% para 0% durante um dia de greve”, refere.

Tendo em conta estes fatores, o economista considera que o impacto económico de uma paralisação nacional deverá situar-se bastante abaixo do valor correspondente a um dia completo de produção.

“Eu diria que as estimativas andam à volta dos 200 milhões de euros. Não chegará aos 800 milhões, que é a média diária do PIB”, afirma.

No seu espaço de comentário d'As Três da Manhã, João Duque mostra-se também crítico em relação à realização da greve junto a um feriado, situação que poderá coincidir com uma ponte e prolongar o fim de semana para muitos trabalhadores.

Para o economista, este tipo de estratégia prejudica a credibilidade da própria forma de protesto.

“Os sindicatos não deviam fazer isto. É uma prova de fraqueza dos sindicatos, sinceramente. Uma greve geral deve ser feita no meio de uma semana de trabalho completa”, defende.

João Duque vai ainda mais longe nas críticas, considerando que associar greves a feriados ou fins de semana retira força à mensagem dos trabalhadores.

“Isso não se faz. A meu ver, é desprestigiar o poder e o valor do trabalho e dos trabalhadores e de uma greve.”

Questionado sobre se esta prática pode afetar a perceção pública das paralisações, responde de forma categórica: “Descredibiliza o direito à greve. Completamente.”

O economista sustenta que a greve implica sempre um sacrifício por parte dos trabalhadores e que esse impacto deve ser assumido no contexto normal da atividade laboral.

“Fazer greve é algo que também me penaliza de alguma forma. Deve acontecer no meio de uma semana de trabalho, não encostada a um fim de semana para fazer fim de semana”, concluiu.

  • Fonte: Rádio Renascença
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