Ocultar lista de financiadores dos partidos? "Naturalmente" abre a porta à corrupção
- 02/06/2026 08:20
- Redação
A organização realizou esta segunda-feira, no Parlamento, a cerimónia final da REDESCOLAS, uma iniciativa que procura enraizar uma cultura de integridade a partir das escolas.
Nos últimos meses, um parecer da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos deu razão ao Chega, PCP e Bloco de Esquerda e considerou que o acesso a estes dados não deve ser público porque pode revelar as convicções políticas do dador.
A dirigente da All4Integrity assume que o "argumento dos dados é muito sensível", mas vinca que há outras formas de garantir a transparência do processo de doações de partidos.
"Os partidos – que querem dar uma imagem de transparência e de integridade – têm que começar por esta dimensão da transparência dos seus financiamentos. Porque na ótica do cidadão comum fica sempre a desconfiança", afirma Ângela Malheiro.
No plano geral, Ângela Malheiro lamenta que em Portugal ainda exista uma "cultura" que desvaloriza a pequena corrupção, como é o caso das cunhas ou do "jeitinho".
"É uma cultura, está encrustado na cabeça do português, de qualquer nível económico ou formação. Muitas das vezes as pessoas não têm definido com rigor o significado prático do que é o fenómeno da corrupção, porque o pai já fazia e porque toda a gente se conhece", aponta a diretora executiva da All4Integrity.
Ângela Malheiro explica que a organização prefere abordar o problema pelo lado "positivo" da integridade e defende que deve existir uma pedagogia para explicar os efeitos da corrupção, muitas vezes atenuados na cabeça de quem compactua com ela.
"É importante desconstruir isto e ver o impacto que estes comportamentos trazem para a sociedade, o impacto económico em sociedades onde há discrepâncias sociais, desigualdades sociais", exemplifica.
A diretora da All4Integrity sublinha que o debate sobre este tipo de temas deve ser feito de forma pedagógica, e daí a importância das escolas para esse processo: "Tem de ser de uma forma consistente, rigorosa e nada inflamada, o tema já é inflamado por si, temos de desconstruir sempre nesta lógica da promoção de uma cultura de integridade".
Ângela Malheiro lamenta a "lentidão na justiça" que agrava a perceção da corrupção, mas assinala os sinais positivos dados pelos governos e pela sociedade, de uma maior sensibilidade para o tema: "Estamos a melhorar, creio que sim, porque há uma cada vez maior consciência do cidadão comum sobre a prática, sobre o fenómeno".
No arranque da cerimónia, no Parlamento, o fundador e presidente da Associação All4Inegrity vincou que o slogan: #LibertemOPaísDaCorrupção pretende alertar que o “eles” são os políticos eleitos, que têm uma responsabilidade maior em prevenir este crime.
Dezenas de alunos de diferentes idades, formações e escolas estavam presentes. De seguida, na série de intervenções que ocorreram na Sala do Senado da Assembleia da República, o presidente do Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC), José Mouraz Lopes assinalou que “é na escola, depois da família” que se educa e que se previnem comportamentos errados – como a corrupção.
O Governo também esteve representado através do secretário de Estado da Educação, Alexandre Homem-Cristo, que elogiou a iniciativa da All4Integrity e aproveitou para lançar o tema do combate à corrupção como parte estruturante da polémica disciplina de cidadania no ensino obrigatório.
Homem-Cristo garante que o Governo não quer “terraplanar” o programa que já existia para a disciplina, mas sentencia: “Não era suficiente”.
O secretário de Estado da Educação lembra a forma como foi fundada a democracia americana, com o pressuposto: “Os homens não são anjos”, para lembrar que a “natureza humana é corrompível” e, por isso, as instituições devem ter mecanismos para travar este tipo de conduta.