Greve geral num gigante call-center. "Não nos podemos dar ao luxo de faltar. Há contas para pagar"
- 03/06/2026 11:00
- Redação
A associação dos call-centers à precariedade, muitas vezes, é direta, mas este jovem de 28 anos rejeita qualquer tipo de pressão para não fazer greve. “Não, foi uma questão de opção. No meu caso, eu não quis perder o dia [de salário], só isso”, explica.
“Em Portugal, são só trabalhos precários os que estão [disponíveis] no mercado. Ainda há dias vi umas notícias a dizer que a taxa de desemprego está a baixar, mas normalmente são sempre trabalhos precários”, lamenta.
Artur queixa-se da exigência de um trabalho absorvente. “A pressão que nos põem aqui é um bocado absurda. Temos de trabalhar, trabalhar, trabalhar e depois recebemos pouco, também em parte por causa da precariedade”, repete.
No entra e sai à porta desta multinacional — presente em cerca de 100 países, em cinco continentes —, o ambiente é completamente internacional. Em Lisboa, à entrada, numa paragem para um cigarro, está o neerlandês Jochem, de 39 anos, há uma década em Portugal.
Vestido de forma descontraída com calções, t-shirt e sandálias, explica porque é que não faz greve e porque não percebe bem as queixas dos trabalhadores portugueses. Acredita que o mercado nacional necessita de mais flexibilidade.
“Para ser sincero, acho que, neste momento, a legislação portuguesa é uma das mais complicadas no que diz respeito ao despedimento de pessoas. O facto de quererem facilitar o processo não significa que isso seja mau para a economia”, começa por dizer.
O neerlandês crê que quanto mais fácil for o despedimento, mais “as empresas terão facilidade em oferecer contratos de longo prazo”.
“Neste momento, vejo muitas empresas, inclusive aquelas em que trabalham os meus amigos portugueses, que só oferecem contratos de um mês. As empresas estão realmente relutantes em oferecer contratos mais longos porque não se pode ser despedido”, argumenta.
Jochem compara a realidade portuguesa com a dos Países Baixos e diz que naquele país do centro da Europa “é mais fácil despedir”, e que, por isso, “as empresas oferecem mais rapidamente contratos de longa duração ou a longo prazo”.
“Vejo que, especialmente agora, [em Portugal] nós os expatriados continuamos a receber contratos de longa duração. Mas os portugueses e, em particular, nos call-centers — não num call-center específico, mas em todos os call-centers — deviam aceitar o facto de serem despedidos facilmente, porque assim as empresas ofereceriam mais rapidamente contratos de longa duração”, insiste.
E remata: para ele, a segurança laboral chega quando “se faz um bom trabalho”, porque só assim se “consegue manter o emprego".
Isto apesar de a empresa ter dado a possibilidade de os funcionários poderem arranjar meios alternativos para chegar ao posto de trabalho. Depois teriam a possibilidade de imputar o custo à empresa.
Quem foi trabalhar foi Marisa, de 60 anos, italiana e coordenadora da equipa de controlo de qualidade. Razão para não fazer greve? “Desilusão. É este o motivo”.
Há quase 10 anos em Portugal, Marisa diz “perceber o motivo da greve” e está “de acordo”, mas, neste momento, acha que “não vamos ter resultados concretos”.
Diz que ao longo da longa carreira profissional em Itália e em Portugal já viveu várias greves gerais e que perdeu a crença de que podem ter algum efeito. “Já viu como as coisas estão? Não resulta”, lamenta.
“Eu vejo a precariedade [que existe] como bastante preocupante. Eu não sei como o Governo não percebe que pessoas jovens, e pessoas de uma certa idade, precisam de estabilidade”, lamenta.
Uma hora depois, também numa pausa, sai a portuguesa Ana, de 35 anos. Recupera o argumento que o colega Artur usara antes como justificação para ter ido trabalhar.
“Há contas para pagar, embora eu esteja solidária com tudo o que está a passar, e esta greve faz todo o sentido”, sublinha.
Mas há sempre um mas. “Há situações em que não nos podemos dar ao luxo de faltar, que é mesmo assim. As contas aparecem ao final do mês e têm de ser pagas. E, parecendo que não, faltando um dia ao trabalho, faz moça ao final do mês. Portanto, é vir e pronto”, explica.
E o que está a acontecer, para Ana, é simples de definir: “[Estão a] dar mais abertura às empresas de fazerem o que querem e dispensarem as pessoas com mais facilidade”.