Polícia discriminou jovem por ser branco? Morte de Nowak reacende polémica sobre racismo no Reino Unido

Polícia discriminou jovem por ser branco? Morte de Nowak reacende polémica sobre racismo no Reino Unido

  • 04/06/2026 12:29
  • Redação

As imagens deram nova vida à história. A morte do jovem Henry Novak, em Southtampton, já aconteceu no ano passado. O homicida foi detido e condenado a pelo menos 21 anos de cadeia, mas o caso explodiu na sociedade britânica recentemente. A razão: um vídeo de uma "bodycam". Nele vê-se a detenção da vítima, de 18 anos, depois de ter sido esfaqueada por um britânico shik. Foi algemado pelas autoridades enquanto agonizava até à morte. O agressor acusou a vítima de racismo, e a polícia acreditou.

A sociedade britânica está revoltada com a atuação da polícia e há uma discussão intensa. Os últimos anos — em que ocorreram vários casos nos quais agentes da autoridade foram acusados de atuações xenófobas e racistas —, condicionaram a atuação dos polícias que detiveram Nowak?

O caso já chegou a política com uma luta entre extremos no controlo da narrativa. Nas ruas, as manifestações irrompem um pouco por todo o Reino Unido.

O jovem de 18 anos estava apenas há alguns meses no primeiro ano de contabilidade e finanças do ensino superior quando foi morto a caminho do alojamento em Southampton, a 3 de dezembro do ano passado.

Henry Nowak disse repetidamente aos agentes que tinha sido esfaqueado. Ainda assim, foi algemado pela polícia depois de o assassino, Vickrum Digwa, ter alegado falsamente ter sido vítima de abuso racial.

Digwa, de 23 anos, foi condenado a prisão perpétua, com um período mínimo de 21 anos, pelo homicídio.

Depois de uma saída noturna onde foi visto a entrar no pub “The Hobbit”, quando passava pouco das 23h00, Henry ia regressar à residência de estudantes.

É nesse caminho que se cruza com Digwa. Um encontro fortuito. Nowak estava sozinho e desarmado. O jovem de 18 anos não estava embriagado.

O agressor, que é sikh, trazia uma faca numa bainha presa ao cinto, que Nowak começou então a filmar com o telemóvel.

Mas o agressor trazia ainda uma segunda faca, de maiores dimensões, numa bainha — o que também faz parte da tradição enquanto membro da ordem Nihang dos sikhs.

No julgamento foi relatado que Nowak perguntou a Digwa se era um “homem mau”, provavelmente motivado pelo facto de ter reparado na adaga.

O juiz disse que Digwa respondeu a Nowak que era “um homem mau” e tirou o telemóvel do estudante. Os “acontecimentos exatos que se seguiram” foram testemunhados apenas pelos dois homens, observou o juiz.

Nas observações ao proferir a sentença, Mousley explicou: “Não seria irracional concluir que Henry teria querido recuperar o telemóvel, acreditando que lhe tinha sido roubado ou que tinha sido assaltado."

O juiz afirmou que, na altercação que se seguiu, Digwa sacou a adaga da bainha e esfaqueou deliberadamente o estudante indefeso no peito.

Nowak foi atingido quatro vezes, no peito e na perna, e “uma ou mais das facadas devem ter tido um efeito imediato, uma vez que Henry nunca conseguiu levantar as mãos para se defender de mais ferimentos graves”.

O juiz explicou que as imagens filmadas por Digwa mostravam Nowak “a tentar desesperadamente fugir”, escalando uma cerca e subindo para um contentor de lixo comum antes de aterrar num carro em frente à propriedade vizinha.

Digwa “continuou a filmar Henry a sofrer, ignorando grande parte do desespero por ter sido esfaqueado”, acrescentou o juiz.

Meia hora depois do encontro entre os dois homens, o irmão do assassino, Gurpreet Digwa, ligou para o 112. Disse ao operador que o irmão tinha sido “agredido por alguém por motivos raciais” e indicou o local.

A chamada durou 12 minutos e os polícias prometeram que estariam na zona do incidente muito em breve. E de facto sete minutos depois estavam no local.

O assassino mente aos agentes e diz que foi atacado com propósitos racistas, ao mesmo tempo que se ouve, na gravação de CCTV, Nowak a dizer: “Não consigo respirar.”

Detiveram Nowak. Ouve-se um agente a dizer a Henry que está preso e a ler-lhe os direitos. Um minuto depois, é chamada uma ambulância e os agentes realizam a reanimação cardiopulmonar.

O juiz afirmou que os ferimentos de Nowak eram tão graves que ele não teria sobrevivido, por mais rapidamente que tivesse recebido primeiros socorros, reanimação cardiopulmonar ou tratamento médico especializado.

O chefe da polícia de Hampshire pediu desculpa à família de Henry Nowak pelo facto de o estudante ter sido algemado e detido enquanto agonizava.

Quando questionado sobre o que diria agora à família, Boon afirmou: “Lamento imenso que tenham tido de passar por isto.”

A forma como Nowak foi tratado pela polícia nos seus últimos momentos suscitaram indignação e condenação da sociedade.

Sim. Está em curso uma investigação separada do Gabinete Independente para a Conduta Policial sobre o comportamento dos agentes. Por isso, vai demorar algum tempo até perceber totalmente o que aconteceu neste caso ou se este é indicativo de problemas mais generalizados no âmbito da atividade policial.

Alguns agentes policiais no ativo questionaram a BBC, se uma série de escândalos e relatórios altamente críticos, que detalham o tratamento discriminatório das minorias étnicas por parte da polícia, terá tornado os agentes mais recetivos às denúncias de racismo do que a outras infrações.

A mesma BBC transcreve o relato de um polícia: “Tivemos vários relatos sobre o quão somos racistas nos últimos anos no que diz respeito a pessoas negras e asiáticas, e por isso somos muito cautelosos ao lidar com casos que envolvem diferentes raças — e, por isso, é fácil perceber o que aconteceu em Southampton. Talvez agora sejamos demasiado cautelosos.”

O mesmo meio britânico cita outro agente: “Temos um trabalho tão difícil e estamos sempre a ser alvo de escrutínio. Mas temos de fazer as coisas bem feitas. Só gostava que as pessoas compreendessem a pressão a que estamos sujeitos por causa das acusações de racismo feitas por aqueles que [escreveram relatórios críticos]”.

Já no editorial do jornal Guardian escreve-se que a “acusação de que existe uma justiça a duas velocidades é apenas um dos temas de uma campanha destinada a reverter décadas de progressos liberais na luta contra o racismo sistémico”.

“A alegação é que o antirracismo é, em si mesmo, uma ideologia repressiva que se apoderou da política e das forças da ordem. Trata-se de uma inversão grotesca dos factos no que diz respeito ao preconceito institucional no Reino Unido. Mas existe um eleitorado de britânicos brancos cuja frustração com a estagnação e a decadência pública pode ser radicalizada com narrativas de vitimização por parte de uma elite 'politicamente correta' e arrogante”.

O mesmo Guardian escreve ainda que não existem dados oficiais sobre o preconceito contra os brancos nas operações policiais, “mas as estatísticas disponíveis revelam um preconceito racial de longa data contra as minorias étnicas, e especialmente contra a população negra”.

A polícia inglesa tem, de facto, estado sob pressão para combater o preconceito racial. A BBC descreve vários casos como a “a incapacidade da Polícia Metropolitana de investigar devidamente o homicídio racista de Stephen Lawrence, em 1993”.

Em 2022, o Gabinete Independente para a Conduta Policial encontrou provas de mensagens altamente discriminatórias trocadas entre agentes da Polícia Metropolitana.

Um ano depois, outra investigação descreveu a Polícia Metropolitana como institucionalmente racista.

Em outubro de 2025, uma investigação secreta da BBC revelou racismo na esquadra de Charing Cross, bem como outros comportamentos discriminatórios.

Nigel Farage, líder do Reform UK, exortou os seus apoiantes a demonstrarem "pura raiva fria".

Stephen Yaxley-Lennon, o ativista de extrema-direita conhecido como Tommy Robinson, afirmou no X que Nowak tinha sido "assassinado por políticas policiais racistas que visam pessoas brancas" e convocou uma manifestação.

O caso até já ganhou dimensão internacional com a extrema-direita polaca a aproveitar o caso para dizer que este simboliza “a descida da Grã-Bretanha às profundezas da terra".

Mas o caso também já foi aproveitado por forças populistas em países como a França, a Espanha e o Japão.

O primeiro-ministro, Keir Starmer, apelou à calma e instou os políticos a respeitarem o pedido do pai do Sr. Nowak para que o homicídio do seu filho não fosse utilizado "para gerar mais ódio, divisão ou tensão".

No entanto, forças poderosas estão a mobilizar-se precisamente com esse objetivo.

  • Fonte: Rádio Renascença
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