Sete dias intensos. Espanha aguarda pelo Papa com entusiasmo e também alguns protestos

Sete dias intensos. Espanha aguarda pelo Papa com entusiasmo e também alguns protestos

  • 05/06/2026 08:00
  • Redação

A bagagem papal inclui 22 intervenções — entre discursos, homilias e saudações — em língua espanhola, exceto quando encontrar migrantes africanos de língua francesa, numa das ilhas das Canárias.

Há 15 anos que Espanha não recebe uma visita pontifícia. Francisco nunca aceitou os sucessivos convites dos bispos e autoridades, nem sequer para assinalar o Ano Jacobeu (2021-22), em Santiago de Compostela, ou o IV Centenário da canonização de Santa Teresa de Ávila (2022).

O último Papa a pisar terras espanholas foi Bento XVI, para presidir à Jornada Mundial da Juventude de Madrid, em 2011. E, nessa altura, tal como agora, não faltaram reações acaloradas a favor e contra a presença do Sucessor de Pedro.

Os organizadores locais esperam grandes multidões espalhadas pelas ruas e praças das cidades visitadas por Leão XIV. As autoridades falam num “acontecimento histórico de uma magnitude sem precedentes”.

A grande participação será extensiva aos encontros e celebrações do Papa em pavilhões desportivos, como o famoso “Santiago Bernabéu”, em Madrid, e o estádio olímpico “Lluís Companys”, em Barcelona.

Além das habituais formalidades protocolares e encontros com várias comunidades católicas e realidades civis, o programa inclui também visitas a centros de apoio social, a uma prisão e, nas Canárias, a dois pontos de acolhimento de migrantes.

A preferência pelos jovens revela-se logo no primeiro dia quando amanhã, sábado, pelas 20h30 (hora de espanhola), Leão XIV participar, na Plaza de Lima, numa vigília de oração, com diálogo e música, em clima de festa, que culmina com a adoração eucarística, já a preparar o dia seguinte. É que, em Espanha, a solenidade do Corpo de Deus não é feriado e, por isso, celebra-se no domingo. O Santo Padre presidirá à Eucaristia na Plaza de Cibeles, seguida de uma imponente procissão com o Santíssimo.

A expectativa está instalada. Habitualmente, o Santo Padre fala aos responsáveis do país visitado logo no primeiro dia, num encontro com autoridades, representantes da sociedade civil e corpo diplomático. Em Madrid, essa etapa cumpre-se no sábado ao final da manhã, no Palácio Real, após o encontro em privado com os Reis de Espanha. Mas, dois dias depois, segunda-feira, Leão XIV recebe o presidente do governo, Pedro Sanchez, na Nunciatura apostólica, e irá, depois, ao Parlamento para um discurso ao Congresso dos deputados.

O que dirá Leão XIV à classe política espanhola? Quem o convidou? Haverá bancadas vazias como forma de protesto? E Leão XIV vai proferir um discurso político?

Estas e outras perguntas, colocadas ao Diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, durante o habitual "briefing" que antecedeu a visita papal, ficaram sem resposta. Matteo Bruni limitou-se a dizer que a Santa Sé, a Igreja local e as autoridades tinham acertado o programa.

Assunto polémico é também a pressão de várias vítimas de abusos, praticados por membros do clero, que pedem para o Papa os receber. Oficialmente, não está previsto qualquer encontro, mas o próprio arcebispo de Madrid, cardeal José Cobo Cano, não exclui a hipótese de poder realizar-se na Nunciatura, a título privado, como já tem acontecido noutros países.

A presença do Papa a Espanha não suscita só entusiasmos. Várias organizações laicas defendem uma visita de natureza estritamente religiosa, que não deve ser tratada como visita de Estado nem financiada com a utilização de recursos públicos.

Protesto semelhante já tinha sido lançado em 2011, durante a visita de Bento XVI, e voltou a organizar-se agora sob o lema "Pelo laicismo e contra os privilégios públicos da visita do Papa Leão XIV" e com a promessa de várias manifestações de protesto.

As organizações Ateus de Catalunya, Europa Laica e a Fundação Ferrer i Guàrdia relançaram também a campanha “El Papa visita Barcelona! Jo no t'espero" (O Papa visita Barcelona! Eu não te espero) para denunciar o uso de fundos públicos e exigir o respeito pelo princípio do laicismo e da neutralidade por parte das instituições públicas. A iniciativa conta também com o apoio de sindicatos, associações de bairro e grupos feministas, entre outros.

Em Barcelona, apesar do ponto alto estar centrado na obra-prima de GaudÌ e na Basílica da Sagrada Família, juntam-se também protestos por causa da língua. “Na Catalunha, fala-se catalão e não espanhol”, reagem alguns sectores autonómicos. Até agora, não houve qualquer reação do Vaticano.

Atenções redobradas também para os encontros e discursos de Leão XIV nas Canárias, com especial destaque para a realidade migratória naquelas ilhas e para a missa que vai celebrar no porto de Santa Cruz de Tenerife, em que, junto ao altar, haverá algumas barcaças usadas por africanos para atravessar o atlântico.

  • Fonte: Rádio Renascença
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