Mistério de 50 anos resolvido: cientistas detetam vento do buraco negro da Via Láctea

Mistério de 50 anos resolvido: cientistas detetam vento do buraco negro da Via Láctea

  • 05/06/2026 07:51
  • Redação

Recorrendo a observações realizadas pelo radiotelescópio ALMA, no Chile, e pelo observatório espacial Chandra, da NASA, os investigadores analisaram a região em torno de Sagittarius A* (Sgr A*), o gigantesco buraco negro situado a cerca de 26 mil anos-luz da Terra.

Os cientistas identificaram uma enorme cavidade em forma de cone, preenchida por gás extremamente quente e eletricamente carregado. Segundo a equipa, esta estrutura terá sido esculpida por um fluxo contínuo de matéria expelida pelo buraco negro, que afastou ou aqueceu o gás frio existente na região.

“Esta descoberta resolve um mistério com meio século de existência”, afirmou Lena Murchikova, professora de Física e Astronomia da Universidade Northwestern e uma das responsáveis pelo estudo publicado na revista científica Astrophysical Journal Letters, citada pela Reuters.

Embora os buracos negros sejam conhecidos por atrair matéria com uma força gravitacional tão intensa que nem a luz consegue escapar, os cientistas acreditavam há décadas que os buracos negros supermassivos também expulsam parte do material que os rodeia sob a forma de ventos ou jatos energéticos. Esse fenómeno já tinha sido observado em inúmeras galáxias, mas nunca tinha sido confirmado no caso da Via Láctea.

Apesar da importância da descoberta, os investigadores explicam que o vento detetado em Sagittarius A* está longe de ser tão poderoso como os observados noutras galáxias.

“É uma brisa suave proveniente do nosso buraco negro supermassivo”, explicou o astrónomo Mark Gorski, também coautor do estudo. “Não parece ser suficientemente forte para remodelar drasticamente o centro galáctico.”

O investigador compara a atividade atual do buraco negro a um período de calma atmosférica. No entanto, alerta que estes objetos passam ocasionalmente por fases muito mais violentas.

“Os buracos negros supermassivos passam a maior parte do tempo neste estado tranquilo. Mas, por vezes, atravessam explosões que podem variar de tempestades a verdadeiros furacões cósmicos. Nos casos mais extremos, os seus ventos e jatos conseguem alterar profundamente as galáxias que os rodeiam”, explicou.

Sagittarius A* possui uma massa equivalente a cerca de quatro milhões de sóis, mas encontra-se atualmente numa fase relativamente calma. Ainda assim, a descoberta demonstra que continua a libertar energia para o espaço.

Segundo Lena Murchikova, quando o gás se aproxima de um buraco negro, atinge velocidades próximas da luz, gerando enormes quantidades de energia. Parte desse material acaba por ser sugado para o interior, enquanto outra parte é projetada para o exterior.

“Na verdade, mais gás é expelido do que aquele que cai no buraco negro. Esse gás expelido é precisamente o vento que estamos a observar”, afirmou.

A descoberta oferece uma nova perspetiva sobre o funcionamento do coração da Via Láctea e poderá ajudar os astrónomos a compreender melhor a forma como os buracos negros influenciam a evolução das galáxias ao longo de milhares de milhões de anos.

  • Fonte: Rádio Renascença
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