Seguro e o desafio de preparar o país para um futuro de escolhas. Dos Açores para a América ou Europa?
- 09/06/2026 01:30
- Redação
Nessa entrevista, Monjardino desafiava mesmo as mais altas figuras do Estado a prepararem um discurso sobre o posicionamento de Portugal perante a "nova época histórica" ou a “grande ruptura”, como lhe chama o analista no seu mais recente livro.
O mesmo Monjardino voltou a dizê-lo este domingo, já como presidente da comissão organizadora do 10 de Junho, numa intervenção no Luxemburgo, perante António José Seguro e Luís Montenegro.
“Esta não é a altura para alimentarmos ilusões sobre o nosso futuro coletivo. Por isso, é tempo de nos prepararmos devidamente e com confiança para este facto e para o futuro que mais nos interessa”, disse o analista que vive nos Açores, precisamente a região escolhida por Seguro para as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Reconhecidamente cauteloso nas palavras e atos, estará o atual Presidente da República em condições de levantar a questão sobre a primeira prioridade do país? A América? A Europa? O facto de ter escolhido Miguel Monjardino, e sabendo o que este defende e basicamente aconselhou a cúpula política do país a fazer, pode ser um indicador do que poderá ser a intervenção de fundo de Seguro na ilha Terceira no 10 de Junho.
Questionado sobre a necessidade ou não de rever o acordo sobre a base das Lajes, à luz do que foi a sua utilização na guerra da América com o Irão, Seguro assumiu que o texto “precisa de ser revisto, não porque haja algum problema, mas porque precisa de ser atualizado”, insistindo que essa a atualização “deve ser vista à luz da nova geopolítica global e das relações transatlânticas que mantemos e devemos manter com os Estados Unidos”.
Ou seja, Seguro defende que a relação com a América deve manter-se, apesar de uma “nova geopolítica global”. A questão, levantada por Monjardino, é em que prioridade entra essa relação transatlântica, assumindo, ainda na entrevista já citada, que o país vai ter de “fazer uma escolha difícil”.
Ainda nessa nota, o chefe de Estado salientou a “importância histórica, política e cultural das regiões autónomas na construção de um Portugal mais coeso, plural e solidário, reforçando simultaneamente os valores da unidade nacional e da coesão territorial”.
O analista assume que Portugal terá de ponderar uma “participação ativa em missões militares de vigilância” nas Lajes, numa altura em que os Estados Unidos começam a reduzir o dispositivo militar na Europa, não se sabendo, para já, que intenções tem a administração norte-americana em relação ao contingente da base militar nos Açores.
“Os Açores são um enorme ativo para o país, e convinha que não fossem uma enorme vulnerabilidade. Ou seja, o país tem de investir, o Estado tem de estar presente nos Açores”, defende o presidente da Comissão das Comemorações do 10 de Junho.
César não tem dúvidas que o Presidente da República deu um “sinal às autoridades internacionais, aos Estados Unidos da América por um lado e à UE por outro”, numa altura em que, acrescenta, a Europa “ameaça abrandar o apoio que tem dado às regiões ultraperiféricas”.
Notando que não é a primeira vez que o dia de Portugal é celebrado nos Açores, referindo-se às celebrações de 2018 na ilha de São Miguel, César considera que “esta é, sem dúvida, uma boa altura para voltar a fazê-lo”.
Bolieiro segue, assim, na senda de Monjardino sobre a necessidade de o Estado central não perder de vista a importância dos Açores no atual contexto internacional. Mas mesmo com uma velha ordem que acabou e que, aparentemente “não volta”, como defende o primeiro-ministro canadiano, o líder regional é especialmente sensível ao amigo americano.
A escolha de Seguro é, para Bolieiro, “uma referência do universalismo dos Açores e de Portugal e da ligação dos compromissos que Portugal tem historicamente com os seus aliados pela paz e, sobretudo, por uma referência de um relacionamento também bilateral com os Estados Unidos”.
Por razões óbvias, o Governo gere com pinças a relação de Portugal com os Estados Unidos da América, precisamente por uma falta de definição sobre o que é a nova ordem internacional, dando como certo que “já não temos a ordem anterior”, admite o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.
O ministro dos Negócios Estrangeiros concorda que a relação com os EUA é uma “constante da nossa política” e uma “âncora fora da Europa”. Ainda assim, não ignora que o panorama mudou com Donald Trump – e, embora não esteja “preocupado” com eventuais ambições norte-americanas em anexar os Açores como aconteceu com a Gronelândia, Paulo Rangel admite que o cenário habitual exige mudanças de posição.
Se já é simplista perguntar a uma criança se gosta mais do papá ou da mamã ou um adulto jogar ao “Preferias”, conclui-se como altamente arriscado fazer uma escolha instantânea sobre os aliados prioritários, independentemente da administração americana ou dos líderes europeus com que Portugal for obrigado a lidar. “Portanto, vamos ter de fazer uma escolha difícil”, como admite, mais uma vez, Miguel Monjardino.