Sucesso e salvação
- 10/06/2026 03:30
- Redação
Do lado da procura, o talento é um dos bens mais disputados pelas organizações, sendo considerado, durante muito tempo, o fator mais escasso, o mais diferenciador e a chave do sucesso futuro. Atrai-se e capta-se talento, desenvolve-se talento, retém-se talento.
Do lado da oferta, todos apontamos ao desenvolvimento dos talentos, à formação contínua, ao reconhecimento, às experiências diferenciadoras, à valorização e crescimento permanente. Há recompensas associadas ao talento e, muitas vezes, são os que chegam primeiro, os que mais contribuem ou os que mais se destacam que acabam por escolher primeiro.
É uma seleção que começa cedo na vida. Numa cultura centrada no primeiro, no vencedor, muitos outros ficam erradamente remetidos para a categoria dos perdedores, ignorando-se que estar em primeiro lugar é, na maioria das vezes, um estado transitório e não permanente.
É a cultura da meritocracia – em que cresci e valorizo – mas que, se desenquadrada, se pode constituir como uma grande armadilha pois, ao invés de promover novas (e justas) oportunidades para muitos, pode conduzir a crescentes desigualdades. Numa sociedade que promove o primeiro e onde o sucesso merece aprovação e, sobretudo, admiração, podemos facilmente ser conduzidos ao autocentramento, à autorreferenciação e ao culto da imagem, que tantas vezes idolatra o sucesso, a visibilidade e o reconhecimento social.
E num ápice abandonamos a cultura do nós, do bem comum, trocando-a pelo culto do eu ou dos resultados que represento.
Uma das finalidades últimas na vida da pessoa é a busca da felicidade e não o sucesso na carreira. Esta última é sempre um meio e não um fim em si mesmo e constrói-se, sobretudo, a partir dos pontos fortes, das oportunidades de crescimento, da superação pessoal, sem deixar de envolver sacrifícios e escolhas, alegrias e desalentos, sucessos e quedas.
No entanto, esquecemo-nos de que, quando procuramos talento, procuramos profissionais, mas, mais do que isso, acolhemos pessoas. Pessoas com enormes capacidades, conhecimentos, talentos e experiências, mas também com desafios, fragilidades e limitações; com pontos fortes e pontos fracos.
“Basta que tenhas a minha ajuda, pois a minha força manifesta-se melhor na fraqueza… por isso orgulho-me das minhas fraquezas para que a força de Cristo desça sobre mim… pois quando me sinto fraco é que sou forte” (2 Cor. 12).
É, então, na plenitude do Ser que nos é oferecido um caminho de Salvação, a outra finalidade mais perene, mais plena, mais completa, mais definitiva. É nas fraquezas, desordens, debilidades, nas fragilidades e vulnerabilidades que a salvação nos é oferecida. Ao escondermos ou branquearmos a totalidade de quem somos, acabamos por nos tornar ocultas muitas riquezas e oportunidades.
A carreira e o sucesso constroem-se a partir dos pontos fortes. A salvação constrói-se a partir dos pontos fracos, das fragilidades. É a constatação de que, ao reconhecermos os nossos limites, abrimos espaço para uma força muito maior do que a nossa própria. A fraqueza não é sinónimo de desistência, mas de maturidade. Ao deixarmos de depender apenas das nossas forças, damos lugar a algo muito maior.