Gilberto Mora, o adolescente que pode bater um recorde com 96 anos

Gilberto Mora, o adolescente que pode bater um recorde com 96 anos

  • 11/06/2026 01:15
  • Redação

A voz de Gilberto Mora está naquele limbo entre a infância e a idade adulta, em que se arrasta, como unhas em ardósia, sobre um meio tom que não sabe ainda o que quer ser. O seu futebol, contudo, já ganhou forma e coloca-o entre os mais crescidos. E é com o drible curto e a bola colada ao pé direito que "Morita", como também é conhecido, pode bater um recorde com 96 anos no Mundial 2026.

Já quebrou um recorde de Lamine Yamal. Em julho de 2025, tornou-se o jogador mais jovem de sempre a vencer uma final internacional, quando conquistou a Gold Cup com o México. Com 16 anos e 265 dias, superou não só o espanhol (venceu a Liga das Nações com 17 anos e um dia), como o brasileiro Pelé, que ganhou o Mundial 1958 com 17 anos e 249 dias.

O recorde atual pertence a Manuel Rosas, "El Chaquetas", que jogou no Mundial 1930 aos 18 anos. Gilberto Mora pode estrear-se aos 17 anos — o jovem ainda não era nascido quando Guillermo Ochoa, companheiro de equipa de "Morita" na seleção mexicana, participou pela primeira vez num Mundial.

Há mais: se Mora jogar logo na partida de abertura, tornar-se-á o sexto jogador mais jovem de sempre a pisar o relvado em Campeonatos do Mundo, apenas atrás de Pelé (Brasil), Salomon Olembé (Camarões), Femi Opabunmi (Nigéria), Samuel Eto'o (Camarões) e o detentor deste recorde, Norman Whiteside (Irlanda do Norte).

Voltemos ao início. Gilberto Mora nasceu a 14 de outubro de 2008 em Tuxtla Gutiérrez, no México.

Foi o ano em que Barack Obama ganhou as eleições para se tornar o primeiro Presidente afro-americano dos Estados Unidos. Os Jogos Olímpicos realizaram-se em Pequim, na China. A série "Breaking Bad" estreou-se na AMC. Kosovo declarou-se independente da Sérvia. Fidel Castro renunciou à presidência de Cuba, devido a doença, ao fim de 49 anos no poder. A Marvel estreou o primeiro filme do seu universo cinematográfico: "Homem de Ferro". Lady Gaga lançou o seu primeiro álbum. Os Seattle SuperSonics tornaram-se os Oklahoma City Thunder.

Tal como este ano, o FC Porto sagrou-se campeão nacional. Espanha venceu o Euro 2008, o segundo grande troféu da sua história, 44 anos depois da conquista do Europeu de 1964. Portugal ficou pelos quartos de final, eliminado pela Alemanha, e Luiz Felipe Scolari rumou ao Chelsea. José Mourinho assumiu o comando do Inter de Milão. Pep Guardiola tornou-se treinador principal do Barcelona. Então no Manchester United, Cristiano Ronaldo venceu a sua primeira Bola de Ouro.

Parece que foi há instantes, mas quase todos esses eventos já atingiram a maioridade. Gilberto, nascido em outubro, ainda vai demorar uns meses a lá chegar.

"Morita" começou a jogar futebol nos sub-5 do Jaguares de Chiapa. O coordenador da academia era Gilberto Mora — o pai, que também foi jogador. Ainda era sub-5 e já alinhava nos sub-7 e nos sub-9.

Em 2015, pai e filho partiram para a academia do Tijuana. Faria todo o caminho pela formação até chegar à equipa principal. Ninguém estará mais habituado que Gilberto a ouvir falar de Gil.

É difícil clamar nepotismo quando, desde aí, a ascensão de Gilberto Jr. foi meteórica: estreou-se na I Liga mexicana aos 15 anos e 320 dias, numa substituição feita aos 71 minutos da vitória de "Xolos" sobre o Santos Laguna, por 3-1, a 19 de agosto de 2024. Aos 95 minutos de jogo, fez uma assistência para golo.

Os recordes perseguem o jovem Gil: desde esse dia, é o terceiro mais novo de sempre a jogar na Liga MX. Também é o mais jovem a marcar um golo, já que, dias depois, deu a vitória ao Tijuana diante do Club León, por 2-1.

Em 2025/26, a segunda temporada na equipa principal do Tijuana, marcou oito golos e fez uma assistência em 23 jogos. Pelo meio, participou no Mundial sub-20, em que ajudou o México a chegar aos quartos de final — com três golos e duas assistências —, e na Gold Cup, que venceu com a equipa AA de "El Tri" — o tal título que o levou a bater um recorde de Yamal. Em novembro e dezembro, ainda vai a tempo de participar no Mundial sub-17, no Qatar.

Nas seleções jovens, também está sempre adiantado ao tempo: estreou-se pelos sub-15 aos 13 anos, pelos sub-18 aos 15, pelos sub-20 aos 15 e pelos seniores aos 16. Foi no dia 16 de janeiro de 2025 que Mora vestiu pela primeira vez a camisola da seleção principal, num particular não oficial com o Internacional de Porto Alegre, da Série A do Brasileirão. Converteu-se no jogador mais novo da história de "El Tri".

Cada passo que Gilberto Mora dá parece banhado a ouro. Embora jogue, preferencialmente com o pé direito, também tem domínio sobre o esquerdo. Aparece entrelinhas a tirar jogadores da frente com tranquilidade, a criar espaço para companheiros ou a encontrar canais para o último passe. A meia distância é, igualmente, uma especialidade, especialmente aquelas bolas rasteiras e ao canto inferior.

Ora parte desde a esquerda para fletir para o meio, onde gera desequilíbrios à entrada da área; ora começa ao centro, um pouco mais atrás, como criador de jogo. E claro, tanto estica o drible na exploração do espaço, como cola a bola à bota para sair da "cabine telefónica".

O pai ouve e vê, de perto, todos os elogios dirigidos ao filho. Que vai em breve para a Europa, como já admitiu Javier Aguirre, selecionador mexicano. Que vai ser vendido por muitos milhões, como afirmou o seu empresário anterior — antes de entrar em cena, em meados de 2025, a brasileira Rafaela Pimenta, que agencia gigantes como Erling Haaland.

Gilberto Mora não tapa os olhos e ouvidos a Gil Morita, porém, trabalha para os elogios não subam à cabeça do filho: "Eu não quero que ele perca o chão pelo que se diz dele, que se distraia ou que pense que já alcançou tudo. Tem capacidades para alcançar tudo aquilo a que se proponha, mas o mais importante para isso é continuar a trabalhar sempre no duro e com a maior humildade possível."

"Conheço-o bem e sei que isso [trabalhar árdua e humildemente] é algo que ele faz e vai continuar a fazer sem problema. No entanto, nunca é demais recordar, porque, atualmente, muitos futebolistas se deslumbram com pouco", assinalou o pai de "Morita", ao "Conexión de Gol".

No Mundial 2026, Morita vai poder mostrar-se ao mundo e, em concreto, a todos os que queiram contratá-lo. É o mais jovem do torneio, com menos 26 anos que o mais velho — não o português Cristiano Ronaldo, de 41 anos, mas sim o guarda-redes escocês Craig Gordon, de 43. Na mesma época em que o guardião do Hearts fez o primeiro jogo na I Liga da Escócia, em 2002/03, o pai de Gilberto Mora tornou-se um herói do Jaguares de Chiapas, ao marcar um golo que salvou a equipa da descida. Só jogava profissionalmente há cinco anos.

Há outro registo que Gilberto Mora pode perseguir: o de ser o segundo jogador mais jovem da história a marcar um golo num Mundial, atrás, somente, de Pelé.

Tudo isso se saberá a partir desta quinta-feira, às 20h00, com a estreia do México no Campeonato do Mundo que ajuda a organizar, diante da África do Sul, num jogo que marcará, também, a abertura do certame. Gilberto Mora, ou "Gil" ou "Gilito" ou "Morita", como lhe queiramos chamar, é candidato à titularidade.

  • Fonte: Rádio Renascença
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