Núncio Apostólico preside à Eucaristia do centenário do I Congresso Litúrgico Português em Vila Real

Núncio Apostólico preside à Eucaristia do centenário do I Congresso Litúrgico Português em Vila Real

  • 12/06/2026 05:04
  • Redação

A Diocese de Vila Real prepara-se para assinalar, nos próximos dias 18 e 19 de junho, o centenário do I Congresso Litúrgico Português, realizado na capital transmontana entre 17 e 19 de junho de 1926. A iniciativa, organizada em colaboração com o Secretariado Nacional de Liturgia, pretende recordar um acontecimento que é amplamente reconhecido como o ponto de partida do Movimento Litúrgico em Portugal e que marcou de forma decisiva a renovação da vida litúrgica da Igreja portuguesa.

Apesar da relevância histórica que lhe é atribuída, o congresso de 1926 permaneceu durante décadas relativamente pouco estudado. É precisamente essa realidade que João Pedro Atenor Santos, seminarista da Diocese de Vila Real e estudante de mestrado em Teologia, procura alterar através da sua investigação académica dedicada ao evento.

“Como era possível que um acontecimento de tal relevância para a história da liturgia em Portugal não tivesse ainda as suas atas publicadas nem um estudo sistemático que o abordasse na sua totalidade?”, questiona o jovem investigador.

O interesse pelo tema foi igualmente alimentado por um contacto anterior com o Congresso, durante um colóquio promovido pelo Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, integrado nas comemorações do centenário da Diocese de Vila Real. Na ocasião, uma comunicação sobre a história litúrgica da diocese trouxe novamente à luz o papel singular desempenhado por Vila Real na receção das correntes de renovação litúrgica que atravessavam a Igreja europeia nas primeiras décadas do século XX.

Para João Pedro Atenor Santos, a investigação permite ainda unir três dimensões fundamentais da sua vida: “o amor pela Sagrada Liturgia, o gosto pela história e a ligação à Diocese de Vila Real”. Por isso, considera que o trabalho ultrapassa o simples interesse académico, constituindo também um contributo para a preservação da memória histórica da Igreja local.

Um dos objetivos centrais da dissertação consiste em preencher uma importante lacuna científica. Embora o congresso seja habitualmente apontado como o momento inaugural do Movimento Litúrgico em Portugal, nunca tinha sido estudado de forma autónoma e sistemática.

Segundo o investigador, a maioria das referências existentes limita-se a mencionar o congresso como um marco cronológico, sem analisar em profundidade o contexto em que surgiu, os seus protagonistas, os temas debatidos ou as consequências que produziu na vida da Igreja portuguesa. A situação tornou-se ainda mais complexa pelo facto de as atas do encontro nunca terem sido publicadas.

Perante esta ausência documental, o trabalho tem procurado reconstruir o congresso através da consulta de fontes dispersas, incluindo jornais da época, correspondência, documentação diocesana e publicações especializadas. O objetivo não é apenas descrever os acontecimentos de junho de 1926, mas compreender as razões que conduziram à sua realização e avaliar o seu verdadeiro impacto no desenvolvimento do Movimento Litúrgico português.

A investigação procura igualmente demonstrar que o congresso não pode ser compreendido isoladamente, mas deve ser inserido no vasto programa pastoral desenvolvido por D. João Evangelista de Lima Vidal após a criação da Diocese de Vila Real, em 1922. Neste contexto, os congressos de Catequese (1925) e de Liturgia (1926) revelam uma estratégia pastoral coerente, destinada a promover simultaneamente a formação doutrinal dos fiéis e a renovação da vida litúrgica das comunidades cristãs.

A investigação ganhou novo impulso com a descoberta de documentação inédita relacionada com o congresso.

Entre os documentos encontrados destaca-se uma carta de 1928 na qual D. João Evangelista de Lima Vidal afirma ter já reunidos os materiais necessários para a publicação oficial das atas do congresso. Esta descoberta reveste-se de particular importância, pois demonstra que existiu efetivamente a intenção de publicar os trabalhos e conclusões do encontro.

Embora o conjunto completo desses materiais ainda não tenha sido localizado, o investigador considera que esta descoberta abre novas perspetivas para o estudo do acontecimento e reforça a pertinência do trabalho em curso.

“Trazer estes novos dados a público não é apenas um exercício de erudição, mas um contributo para uma leitura mais rigorosa da memória eclesial”, afirma.

Para João Pedro Atenor Santos, a celebração do centenário representa muito mais do que a evocação de uma data histórica. Trata-se de uma oportunidade para redescobrir a importância da liturgia na vida da Igreja e recuperar a herança espiritual deixada pelos protagonistas do Congresso de 1926.

Entre os documentos estudados destaca-se uma carta escrita por D. João Evangelista de Lima Vidal poucos meses antes da realização do congresso, na qual o bispo manifestava grande entusiasmo pela iniciativa, considerando-a “um grande empenho para a vida religiosa do nosso País”. Para o investigador, estas palavras revelam a consciência de que a renovação da vida cristã passava necessariamente por uma renovação da vivência litúrgica.

O programa evocativo do centenário foi concebido para refletir o espírito que animou os promotores do congresso de 1926, articulando a dimensão celebrativa com a reflexão académica.

As comemorações terão início na tarde de 18 de junho, com a celebração da Missa Votiva da Santíssima Eucaristia com Vésperas, na Sé de Vila Real.

No dia 19 de junho, destacam-se as conferências de D. Bernardino Ferreira da Costa, abade de Singeverga, e do padre Renato Oliveira, que apresentará a comunicação “Congresso Litúrgico de Vila Real: berço do Movimento Litúrgico em Portugal”.

O momento central das celebrações terá lugar às 18h00, na Sé de Vila Real, com a Eucaristia Solene presidida por D. Andrés Carrascosa Coso, Núncio Apostólico em Portugal, cuja presença sublinha a relevância nacional e eclesial desta comemoração centenária.

O programa encerrará com um concerto comemorativo pelo Ensemble da Sé, às 21h00.

Cem anos depois, a Diocese de Vila Real pretende assim recuperar a memória de um acontecimento que ajudou a moldar a vida litúrgica da Igreja em Portugal. E acordo com a organização, as celebrações do centenário constituem não apenas um olhar sobre o passado, mas também um convite a redescobrir a liturgia como fonte e cume da vida da Igreja, tal como sonharam os protagonistas daquele histórico Congresso de 1926.

  • Fonte: Rádio Renascença
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