Sabe qual é o mamífero mais traficado do mundo? Conheça a história de Stevie
- 12/06/2026 08:41
- Redação
Numa caixa de cartão perfurada e com apenas uma folha de repolho estava um pangolim bebé. Era Stevie.
Este é um cenário comum nas operações de resgate nos países do continente africano, de onde são oriundos 97% dos mamíferos apreendidos na China, revela o relatório Estado de Conservação, Comércio e Esforços de Fiscalização para Pangolim, da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção - CITES, sigla em inglês.
Os pangolins, naturais de África e da Ásia, são mamíferos terrestres noturnos que se alimentam principalmente de formigas e térmitas. Por esta razão, mais tarde, Skinner teve de ajudar o animal a encontrar alimento de uma forma natural, uma das etapas do complexo processo de reabilitação desta espécie.
O processo de reabilitação dos pangolins é essencial para salvar esta espécie em vias de extinção. Estes animais, quando encontrados num contexto de cativeiro, são difíceis de reabilitar não só pela sua dieta específica e difícil de replicar — um pangolim pode comer até 200 mil formigas por dia — mas também por fatores psicológicos associados ao cativeiro, como o stress extremo.
O pangolim é um animal muito tímido e possui um sistema extremamente defensivo, quando se sente ameaçado enrola-se numa bola protegida pelas escamas duras. No caso de Stevie, quando foi capturado, as suas escamas eram ainda muito moles e não o podiam proteger de predadores ou de outros ataques.
Sem a reabilitação médica, a probabilidade de um pangolim sobreviver, quando solto, é mínima. Durante este processo, Stevie era levado a passear todos os dias antes do amanhecer, pela médica, que o ajudava a encontrar comida, pois com a sua idade, o pangolim já deveria estar a fazer isso com a mãe na natureza.
Aos seis meses, Stevie foi desmamado e começou a ficar mais forte. Aos nove meses pesava 6 kg e foi transferido para o local onde viria a ser solto, a Reserva de Caça Privada Manyoni, em Zululândia, na África do Sul.
Durante mais cinco meses, o animal ficou sob os cuidados de Donald Davies, um monitor de pangolins da reserva. Todos os dias o pangolim era solto para procurar alimento na reserva enquanto a equipa monitorizava a sua adaptação.
Finalmente, aos 14 meses de idade, pronto para voltar à natureza, Stevie foi equipado com dois rastreadores de telemetria e solto definitivamente — os rastreadores ajudam os especialistas na observação dos movimentos e dos comportamentos naturais dos animais no seu habitat natural e podem verificar se a última etapa da reabilitação aconteceu, a reprodução. O rastreador de Stevie mostra que se começou a cruzar regularmente com fêmeas, o que levanta a forte possibilidade de já ser pai.
Quando são caçados para tráfico, os pangolins saem, nomeadamente, do continente africano com destino a países como o Vietname ou a China. Neste último país, a carne de pangolim é uma iguaria e as suas escamas são, apesar de já ser proibido, frequentemente usadas na medicina tradicional chinesa.
Nos Estados Unidos a procura pela pele escamosa deste animal — elemento característico e singular dos pangolins, visto que é o único mamífero coberto, na totalidade, por escamas — também se faz sentir. Ali é usada para a produção de sapatos, malas e cintos. Por outro lado, em Moçambique os pangolins são sinónimo de sorte e também por isso as pessoas costumam tê-los consigo.
Apesar destes animais estarem protegidos por leis nacionais e internacionais que proíbem a sua comercialização, continua a ser a espécie de mamíferos mais traficada do mundo. Além do tráfico, a perda de habitat, a caça por populações locais (também para fins de medicina tradicional ou para carne de caça) faz com que o pangolim seja uma das espécies em vias de extinção.
No mesmo relatório são enumerados os vários desafios assinalados na aplicação destas leis, entre elas está a cooperação interinstitucional deficiente, a partilha e a colaboração internacionais fracas e os também débeis mecanismos de controlo em portos, aeroportos e fronteiras em países como Angola, Cambodja, Tailândia e Vietname.
Infelizmente, são raros os casos em que os pangolins são resgatados e reabilitados. O custo de resgate e reabilitação destes mamíferos são avultados e o facto de serem espécies menos conhecidas dificulta a obtenção de financiamentos e proteções políticas.