Saúde mental sem resposta: "Uma consulta de crise na semana seguinte pode ser tarde demais"

  • 15/06/2026 02:00
  • Redação

“Cada vez dizemos mais que as crianças sofrem com a violência doméstica, mesmo que não lhes seja diretamente dirigida, há efeitos imediatos”, diz a coordenadora do Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco no Hospital D. Estefânia, em Lisboa.

A médica pediatra de adolescentes lembra que “todas as pessoas que lidam com crianças, os professores, etc… têm de estar atentos a sinais e sintomas como o nervosismo, a dor de cabeça, a dor de barriga, atrasos na linguagem, alterações do sono e alimentares que podem ser sinónimo de ambiente tóxico em casa”.

Sublinha que, “mais tarde, as crianças que vivem nesses ambientes, copiam o modelo dos adultos e repetem os comportamentos com o companheiro, namorado, ou marido e mulher”.

Mas há mais. Leonor Sassetti diz que existe hoje “a noção claríssima que na base da maior parte da patologia, responsável por morbilidade e mortalidade importante, a nível cardiovascular, oncologia, mesmo a infertilidade, estão relacionadas com o trauma da violência". “Se se perguntar ao doente sobre o que se passou na infância percebe-se que há, muitas vezes, violência e maus tratos”, explica.

No Hospital D. Estefânia, em Lisboa, são sinalizados quase 500 casos por ano de agressões a crianças e jovens, sejam sexuais ou de outra forma, números que têm aumentado, segundo a especialista que coordena o Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco.

A situação levou mesmo à criação de uma consulta para acompanhar essas situações. “Tem um nome muito engraçado, que chama-se CARP (significa cuidar) - Consulta de Apoio ao Risco Pediátrico”, atendimento que com a pandemia criou uma nova valência, as teleconsultas, que evitam deslocações de outras zonas longínquas do país.

Nestas declarações ao podcast Romper o Silêncio, a pediatra Leonor Sassetti denuncia: “A saúde mental não dá resposta, não está organizada para haver uma consulta de crise, por exemplo, na semana seguinte a um episódio. Um adolescente que tem uma tentativa de suicídio tem de ter consulta logo, ter um espaço para começar a organizar a resposta àquela situação e não há!”.

Quisemos saber se não há de todo, ou se surge mais tarde, ao que responde: “Pode haver meses mais tarde, e isso chega? Pode ser tarde demais?”.

Leonor Sassetti confessa que quem tem mais possibilidade económicas procura a saúde privada. "A acessibilidade a acompanhamento de saúde mental conforme capacidades económicas tira-me do sério, mas é o que acontece (...) como sociedade democrática do 25 de Abril, não podemos permitir uma coisa destas”, alerta.

A profissional revela ainda que na urgência do Hospital D. Estefânia são cada vez mais os casos referenciados de desequilíbrio mental pela equipa de pedopsiquiatria ao Núcleo de Apoio à Criança e Jovem em Risco. “Dizem ser de famílias de risco”, explica.

"O que fazemos é a pressão de ir ligando para as consultas para ver se marcam urgentemente o atendimento e há hospitais que lá vão sendo sensíveis a essa pressão. Mas isto é um grande, grande problema”, alerta.

A médica alerta que é fundamental saber ouvir as crianças e os jovens. “Sempre, sempre, sempre, é ouvir! As pessoas deviam até ser todas treinadas um bocadinho. Temos que aprender a ouvir e a não cortar o discurso. Isso é muito importante. Isso faz confiar, mas não podemos ter a intenção de querer que a criança nos conte tudo assim de repente.”

O mais importante “é criar a relação” para que fique a vontade de voltar porque se confiou. “Eu diria que a primeira coisa é acreditar e depois é manter-se próximo. Temos de aceitar que é a criança que vai escolher quem é a pessoa principal a quem vai contar”, sublinha a pediatra.

Leonor Sassetti fala ainda da importância de dar estímulo e confiança a quem decide revelar as agressões, lembrando que o não acolhimento do que é dito pode levar os jovens a desistir e ficar fechados no mundo das agressões.

“’Tu tens toda a razão e nós vamos-te proteger’. Porque eles, muitas vezes, ouvem exatamente a conversa contrária, não é?”. Afirmando que é importante mostrar que a criança pode contar com aquela pessoa para a defender e que não está sozinha.

Se precisa de ajuda ou tem dúvidas sobre questões de saúde mental, contacte um médico especialista, ou um dos vários serviços e linhas de apoio gratuitas, como o SNS 24 (808 24 24 24), o SOS Voz Amiga (800 209 899/213 544 545), o SOS Criança (116 111), a Linha Jovem (800 208 020) ou o SOS Adolescente (800 202 484).

  • Fonte: Rádio Renascença
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