"El Loco" Bielsa, o último romântico do futebol
- 15/06/2026 13:10
- Redação
Marcelo Bielsa nunca foi apenas um treinador. É um homem que vive o futebol como poucos, capaz de passar horas a rever vídeos, de tomar notas compulsivamente e de transformar uma ideia de jogo numa espécie de missão de vida.
Obsessivo para uns, filósofo para outros, "El Loco" construiu uma carreira feita de convicções inabaláveis, de sucessos e várias desilusões. E é o responsável por uma camada de influência que ultrapassa largamente os troféus que conquistou.
Ao longo de mais de três décadas, Bielsa moldou equipas e, sobretudo, treinadores. De Pep Guardiola a Mauricio Pochettino, de Diego Simeone a Jorge Sampaoli, muitos reconhecem no argentino uma referência. A sua forma de entender o jogo, assente na pressão alta, na intensidade e numa preparação quase científica, fez dele um dos técnicos mais respeitados do futebol mundial.
Mas a carreira de Bielsa também é feita de contradições. De campanhas memoráveis com o Newell's Old Boys, o Chile ou o Leeds United, a derrotas dolorosas e momentos que alimentaram a ideia de que os seus princípios, por vezes, lhe custam resultados. Nunca abdicou deles. Nem quando parecia mais simples mudar.
Há histórias que ajudam a explicar a personagem. As largas horas passadas a analisar adversários. Os muros que serviam de ponto de observação dos treinos. O episódio em que foi a casa de um jovem jogador de madrugada para o convencer a assinar pelo Newell's. As conferências de imprensa que mais pareciam aulas de futebol. Ou a honestidade quase desconcertante com que sempre falou sobre as próprias falhas.
Bielsa nunca foi o treinador dos títulos em série. Foi, talvez, algo mais raro. Um homem disposto a perder fiel às suas ideias, numa época em que tantos preferem vencer sem uma identidade própria.
Esta noite, quando o Uruguai entrar em campo frente à Arábia Saudita, haverá quem olhe para os jogadores. Outros olharão para aquele homem de semblante sério, quase sempre agachado ou sentado na geleira azul junto à linha lateral, como se estivesse sozinho com os próprios pensamentos.
Porque Marcelo Bielsa nunca deixou de ser aquilo que sempre foi: um treinador, um professor, um obcecado. Enfim, um apaixonado por futebol.