Presidente da CEP recorre "muitíssimas vezes à IA", mas não para escrever homilias e conferências
- 15/06/2026 14:16
- Redação
São quatro da tarde e os participantes estão como se estivessem numa sala de aula. Rezam, como habitual, uma oração inicial e, em época de campeonato do mundo de futebol, está dado o apito inicial nestas Jornadas Pastorais do Episcopado.
As primeiras palavras ficam a cargo do recém-eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Virgílio Antunes, bispo de Coimbra, para rapidamente manifestar a “ânsia” que tinha de “conhecer o pensamento do Papa” sobre a Inteligência Artificial – “porque queremos estar a seguir passo a passo tudo o que são os dinamismos que a Igreja nos vai oferecendo para levarmos por diante a missão que nos é confiada”.
D. Virgílio Antunes considera que Leão XIV se aventurou ainda mais do que Leão XIII – à época da encíclica Rerum novarum –, pois decidiu erguer este texto sobre tecnologia “ainda no meio de um turbilhão, não tendo ainda claro todos os contornos dessa revolução”.
Se ao tempo de Leão XIII, “havia, porventura, algumas seguranças maiores não só acerca do impacto, mas também dos desafios” que essa revolução industrial trazia, agora, Leão XIV, analisa o bispo português, ainda não tem tantas peças no tabuleiro disponíveis. Daí, “se é ousado na análise desta realidade, podemos perceber que ainda há uma certa contenção (a ponderação própria do magistério da Igreja e pontifício”, sublinha o presidente da CEP. “Que no final destas jornadas todos possamos ter um conhecimento mais objetivo e mais fundamentado desta nova cultura em que estamos imersos”, conclui.
Tendo em conta a preocupação com “o que aí vem” e a com a aceleração evidente das máquinas, “IA: a nova Caixa de Pandora?” foi o tema elaborado pelo monsenhor Renzo Pegoraro, presidente da Pontifícia Academia da Vida (médico de formação, que será ordenado bispo em Pádua no próximo domingo). A ideia passou por trazer ao debate os desafios éticos e humanos associados à “atual revolução tecnológica” e às oportunidades de anúncio do Evangelho neste contexto.
“É importante reconhecer as oportunidades. Afinal, a Inteligência Artificial é também fruto do homem, do seu empenho, da ciência e da tecnologia e de tudo o que o homem é capaz de construir, e, por isso, tem possibilidades de aplicações positivas. No entanto, é algo muito vasto, complexo, poderoso e nos últimos anos desenvolveu-se de forma surpreendente”, explica o monsenhor Pegoraro, sublinhando a importância de clarificar que não se trata de inteligência “como entendemos a nível humano” e que, tal como Leão XIV refere, “não é moralmente neutra, porque tende a refletir as visões de quem a construiu e desenvolveu”.
“Para que esteja sempre, de facto, ao serviço do ser humano” parece ser um dos principais desafios deste tempo de galopante evolução tecnológica. Estando em jogo “valores fundamentais” da humanidade, a “Igreja é sempre portadora de esperança e de humanidade”, refere o orador convidado desta segunda-feira sobre a necessidade que as autoridades têm de “levar por diante a sua missão para o bem de todos”.
À margem, em declarações aos jornalistas, D. Virgílio Antunes sublinhou também o “importante papel que tem a Igreja Católica como autoridade” neste campo, guiando os fiéis a nível ético e moral acerca da IA, do modo como é produzida e utilizada. “Não estou marcado por esse medo da novidade da Inteligência Artificial”, salienta também, referindo as “precauções devidas e necessárias que qualquer novidade traz”.
“Que não se perca a dimensão humana, do encontro entre as pessoas, que absolutamente nada pode substituir. A fé é sempre algo que tem a ver com a interioridade das pessoas e a Inteligência Artificial não tem interioridade, mas pode ajudar-nos a caminhar na interioridade”, refere o bispo de Coimbra, mencionado ainda o contributo que podem estes avanços tecnológicos dar à dimensão espiritual da vida de cada um.
As Jornadas Pastorais do Episcopado decorrem entre esta segunda e terça-feira em Fátima. Subordinados ao tema “Anúncio da Fé na Nova Revolução Tecnológica (IA) e na Nova Cultura”, os bispos portugueses juntam-se para discutir o mundo que a Inteligência Artificial funda e traz ao dia a dia – além, claro, das novas formas de comunicar que a Igreja necessariamente pretende refletir.
Participam neste encontro de dois dias mais de cem pessoas. Além dos bispos portugueses, estão presentes três convidados de cada diocese (leigos e padres) e ainda os responsáveis dos organismos nacionais da Conferência Episcopal Portuguesa.
Esta terça-feira o foco estará na “comunicação da fé em ambiente digital” (da parte da manhã) e na “relação entre tecnologia, espiritualidade e teologia” (da parte da tarde). Como oradores estarão: Juan Narbona (professor na Faculdade de Comunicação Social na Pontifícia Universidade de Santa Cruz); Eugénia Abrantes (presidente do Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização); Octávio Carmo (jornalista da Agência Ecclesia); e João Manuel Duque (professor da Universidade Católica Portuguesa).
No dia seguinte a este encontro, os bispos portugueses reúnem-se em Assembleia Plenária Extraordinária. Entre os temas previstos em agenda está “a reflexão sobre as orientações futuras da Igreja em Portugal no âmbito da Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis”, incluindo a continuidade, ou não, do funcionamento do Grupo VITA, liderado por Rute Agulhas. Serão ainda homologadas as Comissões Episcopais para o triénio 2026-2029 – depois das eleições que ocorreram em abril. Não estando prevista conferência de imprensa, a Conferência Episcopal Portuguesa informa que as conclusões serão divulgadas em comunicado.