Chaves "sem mágoas" por Vozinha. "Não nos despedimos, ele é que anunciou a saída"
- 16/06/2026 10:40
- Redação
O Mundial é, também, uma montra para quem nele participa. Não é novo. No caso do guarda-redes de Cabo Verde, o cliché assenta que nem uma luva porque é, nesta altura, livre para negociar, tendo em conta que acabou contrato com o Desportivo de Chaves, que não guarda mágoa.
"Fomos verdadeiros com o Vozinha, que deixou bem claro que quer lutar pelo espaço dele, quer ser titular. Não ficou nenhuma mágoa e, certamente, vai ouvir muita gente de Chaves a falar dele e não vai fugir muito disto que lhe estou a dizer, porque é a verdade", garante Nelson Lenho.
Numa conversa franca e sem filtros com Bola Branca, o diretor desportivo dos flavienses explicou o processo que redundou nas despedidas entre clube e guarda-redes.
"Entendemos ser muito frontais com o Vozinha e explicar-lhe que poderia continuar connosco, mas não garantiríamos que pudesse ser o número 1. Perguntei-lhe se depois do Mundial ele iria acabar ou qual era a ideia dele e a resposta foi clara. Disse que o ano não correu muito bem, foi um ano atípico, mas sentia-se com capacidade de defender mais alguns anos, e queria lutar pelo seu espaço", partilha.
O dirigente não esconde que o clube não fez chegar uma proposta para renovar contrato, mas assegura que nenhuma porta ficou fechada.
"A nossa conversa não foi final. Disse-lhe 'vai ao Mundial, concentra-te, que eu sei que é uma coisa que tu queres muito, e depois, durante o Mundial ou no final do Mundial, a gente fala'. Ficou tudo em aberto. É verdade que não lhe fizemos uma proposta de renovação, mas também não lhe dissemos que o ciclo acabou aqui, tanto que é ele que anuncia a saída. Nós não nos despedimos do Vozinha", vinca.
A cara da resistência cabo-verdiana tinha, portanto, a garantia que, independentemente do que acontecesse no Mundial, "a porta estava aberta para falar", mas sempre numa "perspetiva diferente".
Sem mágoa, o antigo lateral esquerdo não tem dúvidas que Vozinha não vai ter qualquer dificuldade no capítulo que se segue.
"Antes do Mundial fez o papel dele, é um jogador livre no Mundial, apesar dos seus 40 anos, e a fazer a exibição que fez ontem, é claro, teve uma projeção muito grande e, certamente, não lhe vai faltar mercado", aposta.
Sobre o que aconteceu em Atlanta, na estreia de Cabo Verde em mundiais e logo contra a toda-poderosa Espanha, Nelson Lenho não esconde o orgulho. "Agora é fácil de falar, mas se havia pessoa que merecia isto era o Vozinha, pelo seu caráter, pelo seu profissionalismo e pelo ser humano que é".
No futebol como na vida, há acasos felizes, mas o diretor desportivo da antiga equipa de Vozinha afasta o fortúnio como causa da exibição do guarda-redes.
"As coisas não acontecem por acaso e ele não faz aquela exibição por obra do Espírito Santo, faz porque a merece, porque trabalhou muito, preparou-se muito bem durante a época para o objetivo que era o Mundial. Ele tinha, desde o início, na cabeça o objetivo de ser titular no Mundial, era um sonho, conseguiu o apuramento e agora a exibição dele é fantástica", reconhece.
Quanto às lágrimas no final, todas "são sentidas" e nenhuma caiu "para a televisão ou para as câmeras". Nelson Lenho recorre aos primeiros tempos de Chaves de Vozinha para suportar a ideia.
"As lágrimas do Vozinha são sentidas. Aquilo que ele passou, as dificuldades que teve, por onde teve que andar. Ele perdeu a avó quando já estava connosco. Era como uma mãe para ele. Três ou quatro dias depois de ter chegado a Chaves, ele liga a dizer que a avó tinha falecido e nisso, primeiro está a família, depois está o resto. Ele arrancou logo para o funeral da avó. Aquelas lágrimas, tudo o que o Vozinha fez ontem é genuíno, não é para as câmaras", garante.