“50 pessoas compraram este produto nas últimas 24 horas”. Sabe o que são “dark patterns”?
- 17/06/2026 02:00
- Redação
Abrir um site de compras e jogar na roleta gratuita para ganhar um desconto. Pesquisar por um produto e ser confrontado com 100 produtos anunciados com supostos preços incríveis que vão subir em poucas horas. Procurar roupa numa loja online e ser pressionado por um temporizador no topo da página que indica que os portes grátis vão acabar em breve. Comprar uma viagem ou alugar um carro e, de repente, também pagamos um seguro e uma taxa extra que nem reparámos que estava selecionada.
Tudo isto são “dark patterns” ou, em português, “padrões enganosos”. Tratam-se de estratégias de design e de persuasão, em páginas online, que nos fazem comprar produtos ou serviços de forma mais impulsiva e até irracional, sem dedicar o tempo que habitualmente gastamos a ponderar durante um processo de compra.
Estes “truques” estão por todo o lado e, muitas vezes, sob a roupagem de janelas “pop-up” difíceis de fechar pelo consumidor – e que acabam a vencer pelo cansaço.
Entre as estratégias mais comuns, estão também algumas ligadas à urgência – como “500 pessoas já compraram este artigo” ou “outras 20 pessoas a ver esta casa” – que servem nada mais nada menos do que para nos fazer comprar de imediato, “sem comparar preços”.
Todas estas técnicas têm evoluído a uma velocidade quase diária, são cada vez mais sofisticadas e de difícil identificação pelos consumidores. A culpada é a do costume – a inteligência artificial (IA).
“Utilizam modelos de IA generativa, que aprendem com os próprios dados que recolhem do consumidor, criando formas de estimular a compra, de a tornar mais facilitada”.
Ainda assim, a fronteira é difícil de definir: estas ferramentas servem apenas para enganar os consumidores ou são legítimas para tentar vender mais?
“É muito difícil perceber onde é que está a barreira. E nós sabemos também que há aqui um problema sério entre a privacidade e a personalização. Eu gosto de experiências pessoais que vão ao encontro do meu perfil, mas quanto mais pessoais essas experiências se tornam, mais informação eu estou a disponibilizar e maior invasão da minha privacidade existe”, avisa esta especialista.
Também a socialista Maria Manuel Leitão Marques avisa que “invenção de novas práticas é mais rápida do que as autoridades a evitarem que essas práticas existam”, mas assume que hoje o panorama é muito mais favorável, porque já há o “consenso” de que é preciso aumentar a regulação. “Antes, havia muita ideia que não era preciso regular, que essa autorregulação viria das próprias plataformas”, relembra.
Atualmente, os “dark patterns” já estão proibidos pelo Ato dos Serviços Digitais da União Europeia e até há uma diretiva que se debruça especificamente sobre este tipo de técnicas no setor financeiro, como na venda de planos poupança reforma (PPR).
Apesar disso, a ação das autoridades ainda é muito reduzida – e, no caso português, a culpa é dos responsáveis políticos, que ainda não transpuseram na íntegra a legislação europeia.
“É um erro. Portugal tem a obrigação de transpor as diretivas, tem momento para as negociar, muitos momentos para as negociar, às vezes intervém pouco, mas deve intervir mais. Acho que os Estados Membros devem ter um papel muito mais ativo na produção da lei europeia. O importante é traduzir essa legislação e fazer com que ela chegue às pessoas. Traduzir do ‘legalês’”, aponta a socialista.
Perante estas dificuldades, a também ex-ministra defende que a melhor defesa é a “nossa literacia” e, por isso, apela aos consumidores a apresentarem queixa sempre que se deparam com mecanismos deste tipo.
“Numa grande plataforma, devemos queixar-nos à Anacom. Se há uma violação dos nossos dados, podemos queixar-nos à Comissão Nacional de Proteção de Dados. Também podemos queixar-nos à Asae ou à Direção-Geral de Proteção do Consumidor. Quanto mais denunciarmos, mais ajudamos a prevenir outros casos em Portugal e também na Europa”.
E, nos momentos em que temos vontade súbita de comprar algo e não sabemos se é irracional, há um truque simples: parar e respirar.
“Se amanhã fomos visitar a mesma página, às tantas o mesmo contador está lá e começou a contar outra vez. Portanto, o melhor é respirar fundo e pensar se não podemos comparar. Há inclusivamente detetores de ‘dark patterns’”, aconselha Susana Costa e Silva.