Leiria vive entre o medo do fogo e o rasto do inverno. "Andamos todos com o coração nas mãos"
- 17/06/2026 01:00
- Redação
Câmara Municipal de Leiria quer limpar os 780 quilómetros de caminhos florestais até ao final do mês. Com 10 mil hectares de floresta onde caiu madeira, proprietários dizem não conseguir aceder aos terrenos para proceder à limpeza obrigatória nesta altura do ano. Temor dos incêndios obriga autarquia a aumentar zona de proteção das casas. "É como se fosse uma muralha à volta das populações."
Das declarações políticas à realidade vai por vezes alguma quilometragem de distância. E neste caso parece cumprir-se o preceito. Não estava maio ainda terminado e já o ministro da Agricultura apelava ao cuidado em todo o território para evitar danos, no que será “seguramente, um verão complicado”. Também por essa altura, José Manuel Fernandes sublinhava a prontidão da resposta governativa para uma “prevenção como nunca fizemos”.
Junto à floresta de Leiria vive David Marques, onde tem cerca de 3 mil metros quadrados. “Aqui até acolá, todas estas que estão aqui”, descreve, enquanto olhamos para o terreno de que é dono, bloqueado no acesso por uma enorme árvore sobre uma estrada de terra – entre muitos outros troncos espalhados a perder de vista.
Nascido há 64 anos em casa, na aldeia da Sismaria, diz ter medo do que pode trazer o verão depois do inverno ter deixado marcas como nunca viu. Garante ter tudo preparado e limpo na propriedade, mas não consegue de lá tirar a madeira. Está entalado e ainda sem soluções. “Tenho isto pronto já há mais de um mês, ao jeito de carregar. Falei ao homem para me vir carregar. Tenho tudo, só que ele não entra aqui”. De facto, pelo menos a olho nu, parece uma tarefa impossível.
Indo ao local, entende-se que os terrenos de múltiplos proprietários se entrelaçam entre si, não havendo, em muitos casos, qualquer marcação do que é de cada um. As árvores caídas são imensas e por vezes gigantescas. De dimensões e peso que não permitem o simples corte com uma banal motosserra.
Há terrenos onde o acesso à propriedade é inevitavelmente feito através de caminhos de terra. O alcatrão não chega lá e, por isso, também não sendo sítio de passagem habitual de moradores, nesses mesmos caminhos de terra jazem agora milhares de árvores tombadas.
Ali perto, Albano Pedrosa tem por volta de dez hectares. “Tantos invernos que já passei e não passei nenhum assim”, desabafa. Com uma estrada que dá acesso ao terreno com “pouco movimento”, aguarda ainda que a desimpeçam para poder tratar da limpeza e não ser multado. “São dez pinheiros que estão atravessados no caminho, agora não os vou lá tirar que não posso”.
Experiente, alega ser dos grandes conhecedores desta área, identificando, como se da palma da mão se tratasse, de quem são as propriedades. “Hoje, aqui na minha aldeia, se calhar não há mais ninguém que saiba dizer o que eu digo”. E, munido deste conhecimento, deixa críticas a políticas que diz dificultarem “propriedades rentáveis”, beneficiando a existência de propriedades “muito diminutas”.
Já Virgílio Crespo é assistente operacional na Junta de Freguesia de Monte Redondo. Recebe-nos à porta do edifício onde trabalha. “Somos, como se diz, pau para toda a obra. Tudo o que aparece de reparações, de limpeza, de pequenas avarias, tudo isso compete-nos a nós fazer.”
"A matéria tombada é de uma grandeza que tem dimensões equivalentes ao incêndio do Pinhal de Leiria em 2017. Estamos a falar de uma dimensão equivalente à área do concelho de Lisboa. Estamos a falar de 10 mil hectares de floresta atingida”, sublinha, dando conta da dificuldade que será ter o distrito limpo e devidamente preparado para os perigos que com o verão chegam.
Com a ajuda de satélites e dos serviços municipais com as botas no terreno, estão a ser identificados “os pontos mais críticos” para focar a intervenção nessa área. Até agora, estão identificados 1.100 hectares, não contínuos. “São as áreas mais próximas de habitações, mais próximas de acumulados urbanos, de zonas de circulação, que são aquelas que representam mais perigo em termos de perdas de vidas urbanas ou materiais em caso de incêndio”, esclarece o autarca.
Dados do município indicam que o território florestal corresponde a cerca de 50% da área total. Já os caminhos florestais – aqueles que passam entre árvores, normalmente em longas estradas de terra, corresponderão a 780 quilómetros. “É como ir de Leiria a Bilbao". O objetivo é que até ao final do mês pelo menos esta parte do trabalho esteja encerrada, mas, avisa o homem à frente do município leiriense, “não há capacidade instalada em Portugal para conseguir fazer isto em tempos recordes”.
O pico do verão aproxima-se a passos largos e é, por isso, tempo de escolhas, que passam necessariamente pelas áreas habitadas. “Caso o fogo se aproxime destas áreas, há uma cinta de proteção que está limpa. 100 metros, 50 metros, aquilo que for possível. É como se fosse uma muralha à volta das populações”. Uma muralha com mais de mil hectares, num território habituado “a estar na linha da frente” e que quer evitar novo desastre quando o calor apertar.
“Nós só vamos retirar as árvores que caíram. Todas as árvores que estão de pé ganharam o direito de continuar de pé”. A frase explica claramente o rumo que o vereador com o pelouro da Proteção Civil na Câmara de Leiria vislumbra a médio e longo prazo.
“Temos que entender que estas menos oito milhões de árvores têm consequências diretas naquilo que será a nossa qualidade de vida, nomeadamente temperatura, naquilo que será a entrada de humidade e o vento que nós não sentíamos e que devemos passar a sentir”, frisa Luís Lopes. Não foi só o território que ficou alterando “radicalmente", mas também o uso do solo e a agricultura. “Quando há 700 anos um dos nossos reis plantou aquele pinhal ele sabia o que estava a fazer”, conclui.
Mesmo querendo passar uma mensagem de tranquilidade para a população, é evidente a preocupação com o que pode acontecer no verão, caso a limpeza de florestas não esteja devidamente concluída a tempo. “Para proteger pessoas temos de aumentar as áreas de proteção do edificado”. Há muitas árvores no chão e apenas “40% dos terrenos rústicos [estão] registados”. Ou seja, a Câmara não sabe quem são os donos de cerca de 60% da área florestal que pertence a privados (e que corresponde a 90% da área total de floresta no município). É difícil prever quando pode estar tudo efetivamente limpo.