Portugal-RD Congo, a crónica: o carrossel que parecia uma coisa e foi outra

Portugal-RD Congo, a crónica: o carrossel que parecia uma coisa e foi outra

  • 17/06/2026 15:55
  • Redação

Na América do Sul vai-se debatendo sobre a influência dos centrocampistas no jogo de futebol. Os argentinos têm mais carinho pelo “toco e vou embora”, com a aproximação à bola de gente para, em vez de procurarem o golo, encontrarem o golo. No Brasil perderam amor aos Didi, Gérson e Falcão e, em tempos de menos talento, o jogo sofre. E isto não é um detalhe, dizem que definem a história atual.

Roberto Martínez parecia estar a aproximar Portugal da linha argentina, com João Neves, Vitinha, Bruno Fernandes e Bernardo Silva em campo, mais João Cancelo e Nuno Mendes, viciados na vertigem (acabaríamos por descobrir o travão de mão). Foi assim que o benjamim da seleção que está sempre em pé apesar das pantufadas, Neves, marcou aos 6’. Apareceu na área, depois de um carrossel paciente porém que olhava para a frente, e cabeceou como se fosse Bierhoff.

Mas depois a sala das máquinas foi ficando negligenciada e os seus habitantes foram abandonando, ganhando relevo a tal troca de bolas entre os centrais Tomas Araújo, Renato Veiga e até Diogo Costa. O que se aparenta com apatia aterrou em Houston, perdeu-se profundidade e controlou-se demasiado, confirmaria no fim Martínez. Os jogadores portugueses foram abrindo distâncias entre eles, a bola e o jogo não se controlam assim, apesar da aparente inoperabilidade dos senhores de azul, a República Democrática do Congo, que regressava a um Mundial depois de ter participado em 1974 enquanto Zaire.

Os adversários africanos de Portugal iam defendendo, humilde e comodamente, com cinco homens atrás, mordendo depois com três e quatro no meio, normalmente deixando Bakambu sozinho na frente. Com bola, Wissa e Mukau iam deixando alguns detalhes interessantes. Esta forma de defender exige que a outra equipa, neste caso a seleção portuguesa, toque mais rápido, estique a equipa na largura e tente sacar do lugar os convictos operários que tapam a baliza. Mas não foi isso que aconteceu.

A RD Congo acabou por empatar, aos 45’+5, depois de um canto curto, com Yoane Wissa a fugir à marcação que no início da jogada parecia estar controlada (histórico, primeiro golo do país em Mundiais). Os jogadores portugueses parecem ter perdido a marca e, subitamente, ficaram três congoleses para dois defesas no segundo poste. Trabalhinho para Austin MacPhee, o especialista de bolas paradas da equipa portuguesa.

A monotonia aborreceu até Roberto Martínez, que meteu Francisco Conceição por Bernardo Silva, sucessor de Secretário, Figo, Pepe, Cristiano, Coentrão, Ricardo Carvalho e Pedro Mendes no Real Madrid. O canhoto jogou a uma rotação baixa, mas foi sobretudo vítima de estar ora demasiado aberto perto do cal, ora pelas distâncias em relação aos colegas. Não há potência para ser autossuficiente, não se cuidam os artistas assim.

A RD Congo foi crescendo, nas mordidelas mais à frente no terreno, nas jogadas que já se imaginavam que podiam desaguar na baliza de Diogo Costa, quase sempre sereno, tirando uma vez com os pés e no lance do golo, no tal canto curto, a bola parecia meio em balão e talvez tivesse tempo para socar.

O artista Richie Campbell tem um novo álbum, “Elephant in the Room”, que certamente não é sobre Cristiano Ronaldo, mas, aproveitando a onda, convém não escapar do debate. O que fez, tocando tão pouco na bola e raramente posicionando-se para criar perigo (17º jogo em branco num Mundial), é suficiente para jogar os 90 minutos? Já se sabe, nestes jogos com a equipa distante e desconectada, as maiores vítimas são os 9. Mas o estatuto do capitão, intocável, arrisca ser um estorvo. João Félix, Gonçalo Guedes e Francisco Trincão não entraram, enquanto Gonçalo Ramos, o único 9 concorrente, apenas entrou aos 83’.

Há pouco mais história até ao final da partida, tirando as substituições de João Cancelo e Pedro Neto por Nélson Semedo e Rafael Leão. Por Ramos, estranhamente, saiu Vitinha, como se a convicção inicial se tivesse esfumado, como se fosse um mero rumor que alguém ousou imaginar, a tal linha argentina, a tal concentração de magos e aprendizes de magos no miolo. A segunda parte foi atípica. Espremido, viu-se muito pouco de Portugal. Não só futebolisticamente, mas também na energia, naquela sagacidade competitiva que define os vencedores. Atacar o espaço, caia lá a bola ou não, é importante para ferir a linha defensiva e criar dúvidas. O quadrado mágico nunca se aproximou demasiado e ficou por ser inaugurado, perdeu a bola... Bruno Fernandes foi demasiado anónimo, desanimado até, esteve longe do jogo. Afinal, ele devia ser o coração do ataque, o senhor risco, o imperador do veneno, o governador da terra da imaginação.

Fica na lembrança, para além do eco em surdina dos alarmes, o bonito golo de João Neves, agora o terceiro mais jovem de sempre a marcar em Campeonatos do Mundo, com 21 anos e 8 meses, atrás de Gonçalo Ramos (21 anos, 5 meses) e Cristiano Ronaldo (21 anos e 4 meses), que se tornou no segundo homem da história, depois de Messi, a jogar em seis Mundiais.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: