Vozinha colocou Chaves nas bocas do mundo e nós fomos até lá: "As coisas boas acontecem às pessoas boas"
- 18/06/2026 09:50
- Redação
Nas esplanadas, nas ruas e até entre os clientes que entram e saem da loja do Grupo Desportivo de Chaves, o tema é sempre o mesmo. As defesas frente à Espanha passam em loop nas televisões. Há quem ainda as veja incrédulo, como se precisasse de confirmar que aquilo aconteceu mesmo.
Há quem conte aos amigos que conheceu aquele homem de perto, que se cruzava com ele depois dos treinos, que lhe serviu um café ou que lhe tirou uma fotografia. E há quem sorria perante a ideia de ver o nome da cidade associado a uma das figuras do momento no Mundial.
Na cidade flaviense, a exibição monumental de Vozinha frente à campeã europeia foi vivida como algo mais do que um feito de Cabo Verde. Foi vivida como uma conquista própria.
"Agora toda a gente fala dele", conta Virgínia Silva, proprietária da Churrasqueira Stadium. "E ainda bem. Porque ele merece. Ele merece um prémio".
Nesta churrasqueira, ponto de encontro dos adeptos do Chaves, foram muitos os que acompanharam a estreia de Cabo Verde no Mundial, incluindo o pai de Virgínia.
"Eu não sei onde é que ele foi buscar aquela elasticidade toda. Fiquei maluco", confessa António Silva, sócio número 1 do GD Chaves.
António já viu passar inúmeros guarda-redes pelo Estádio Eng. Manuel Branco Teixeira. Na sua opinião, apesar de alguns momentos menos bons, Vozinha "foi dos melhores que viu jogar".
É difícil explicar a quem chega de fora. Afinal, Vozinha nasceu a mais de quatro mil quilómetros de Trás-os-Montes. Mas há muito que deixou de ser apenas um guarda-redes que passou pelo Desportivo de Chaves. Em certa medida, tornou-se um dos seus.
O empate frente à Espanha deu a Cabo Verde o primeiro ponto da sua história em Campeonatos do Mundo. Mas, naquela noite, enquanto os Tubarões Azuis celebravam um resultado que ficará para sempre gravado na memória do arquipélago, em Chaves celebrava-se também um homem que a cidade adotou como filho.
"É alguém da terra, entre aspas. Um transmontano quase de gema", descreve Luís, funcionário do bar Memórias nas Caldas. "Levou os valores locais para o Mundial."
Talvez seja por isso que por ali ninguém fala da sua idade, dos milhões de visualizações ou da fama repentina. Fala-se da pessoa.
Daquele homem que chegava cedo aos treinos e que depois passava pela loja do clube apenas para conversar. Que brincava com os funcionários, que entrava nos cafés sem qualquer cerimónia e que nunca se comportou como uma estrela. Sandra Malta, funcionária da loja do Desportivo de Chaves, resume-o numa frase simples: "Muito acessível".
Foi assim durante dois anos. Entre jogos, treinos e os altos e baixos de uma equipa que chegou a conhecer a descida de divisão, Vozinha foi criando uma ligação rara.
Tornou-se cliente habitual de alguns estabelecimentos da cidade. No Avelã, gostava de crepes com Nutella, waffles e morangos. No Memórias nas Caldas, passava regularmente com os colegas de equipa.
Era amigo, companheiro, mas, acima de tudo, era presente na comunidade que escolheu como casa.
No fundo, havia um sentimento comum a todos: o de que finalmente o mundo estava a descobrir aquilo que eles conheciam há muito.
Essa sensação é partilhada também dentro do clube. Eduardo Fentanes, diretor de futebol dos flavienses, vê na exibição frente à Espanha um reconhecimento merecido para alguém que sempre se destacou pelo profissionalismo.
"As coisas boas acontecem às pessoas boas e aos bons profissionais", afirma. Apesar do fim da ligação ao clube, Eduardo garante que para Vozinha "as portas do clube estarão sempre abertas".
Mas há outra dimensão nesta história. Uma dimensão que vai além do próprio Vozinha.
Ao longo dos últimos dias, milhões de pessoas procuraram saber quem era aquele guarda-redes de 40 anos que parecia ter parado sozinho a Espanha. E nessa procura acabaram por descobrir o Desportivo de Chaves, a Segunda Liga portuguesa, a cidade e até Trás-os-Montes.
"O mundo está a ouvir falar dos Chaves, da cidade e dos transmontanos", explica Nuno Dias, antigo guarda-redes do clube. "Vai despertar curiosidade sobre quem somos."
Numa região habituada a viver longe dos grandes centros e dos grandes palcos, há um certo orgulho em perceber que uma pequena cidade do interior português entrou, ainda que por associação, nas conversas do futebol mundial.
Nelinho, antigo dirigente do Chaves, explica como esta exposição impacta a cidade.
"Hoje já vieram cá as televisões, está o mundo todo a olhar para nós. Somos uma região esquecida, não estão a par da nossa realidade e do valor das pessoas desta terra."
O antigo dirigente revela que ficou emocionado ao ver a performance de Vozinha e o nível mediático a que a cidade chegou. "Isto só está ao nível dos Ronaldos desta vida", comenta.
Talvez por isso muitos flavienses tenham agora uma segunda seleção para acompanhar neste Mundial.
"Queremos que Cabo Verde vá longe", admite Guilherme Malta, jovem da formação do Chaves.
Não apenas porque se trata de um país irmão. Nem apenas porque fala português.
Mas porque, através de Vozinha, o mundo olhou, talvez pela primeira vez, para Chaves e Trás-os-Montes.
Se há algo que une Chaves nestes dias, para lá das conversas sobre as defesas frente à Espanha, é a vontade de voltar a abraçar Vozinha.
No Memórias nas Caldas, onde tantas vezes passou depois dos treinos, Luís já lhe enviou uma mensagem. Não revela o conteúdo, mas diz que quando o voltar a ver haverá apenas espaço para um abraço e para lhe dizer que continua a ser um orgulho para a cidade.
Virgínia Silva sonha com um encontro que talvez demore para acontecer. Se o tivesse pela frente, "dar-lhe-ia os parabéns e um abraço apertado".
Nuno Dias escolheria palavras simples. Não lhe falaria das milhões de visualizações nas redes sociais. Dir-lhe-ia apenas para aproveitar.
No fundo, cada um diria algo diferente. Uns falariam do orgulho, outros da amizade, outros das saudades que deixará quando abandonar o clube no final da temporada. Mas todas as mensagens acabariam no mesmo lugar.
Obrigado pelas defesas, pelo profissionalismo, pela humildade e pela forma como, sem nunca ter nascido em Trás-os-Montes, fez uma região inteira sentir que estava representada no maior palco do futebol mundial.
Porque, em Chaves, ninguém vê apenas o guarda-redes de Cabo Verde. Vê-se um dos seus.
E quando Vozinha regressar, já sem o Mundial nos holofotes e longe dos milhões de seguidores que entretanto o descobriram, provavelmente encontrará aquilo que sempre encontrou na cidade que o adotou: um café à espera, uma conversa demorada e gente pronta para lhe dar um abraço.