Quercus quer chumbo do projeto de tangerinas reformulado em Alcácer do Sal
- 18/06/2026 10:52
- Redação
A associação ambientalista Quercus defendeu esta quinta-feira o chumbo do projeto agroflorestal reformulado para a plantação intensiva de tangerinas em Alcácer do Sal, considerando-o "insustentável numa região já severamente afetada pelo stress hídrico".
Em comunicado, a organização argumentou que o litoral alentejano "continua a ser um autêntico 'faroeste' da agricultura intensiva de regadio", criticando a ausência de medidas por parte das autoridades para travar novos projetos agrícolas que, na sua perspetiva, contribuem para "o esgotamento dos recursos hídricos já no limite".
A Quercus acusa o grupo Aquaterra de querer expandir a sua atividade numa zona ambientalmente sensível. "Apesar de já explorar mais de seis mil hectares nesta região através do regadio intensivo, o grupo Aquaterra quer agora aprovar mais 295 hectares para a plantação intensiva de citrinos numa área com os recursos hídricos à beira de colapsar", afirmou.
A associação revelou ter apresentado um parecer negativo ao Projeto Agroflorestal Herdades de Murta e Monte Novo, em Alcácer do Sal, cuja reformulação está em consulta pública até sexta-feira, no âmbito do processo de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA).
Além de reclamar o chumbo do projeto, que já foi rejeitado anteriormente em três ocasiões, embora com configurações distintas, a Quercus exigiu "a emissão de uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) desfavorável" ao investimento promovido pela Aquaterra.
Segundo noticiou o semanário Expresso na quarta-feira, a quarta reformulação do projeto introduz reduções na área de produção e no consumo de água, mas mantém impactos ambientais relevantes. A área agrícola destinada à produção de tangerinas passa agora a ocupar 295 hectares, menos 18% do que na proposta anterior, numa propriedade com mais de 2.400 hectares que inclui áreas integradas nas Zonas Especiais de Conservação (ZEC) Comporta/Galé e Estuário do Sado.
A nova versão prevê também uma diminuição das captações de água, passando de 16 para 12 furos, e uma redução do consumo anual de água subterrânea de 2,28 para 1,74 milhões de metros cúbicos.
Contudo, o próprio Estudo de Impacte Ambiental reconhece que a exploração de água subterrânea continuará a produzir efeitos quantitativos "significativos", ainda que considerados localizados e passíveis de monitorização. Diversas associações locais mantêm igualmente a oposição ao projeto, apontando a escassez hídrica e os riscos para habitats protegidos.
No comunicado divulgado esta quinta-feira, a Quercus recordou que "em outubro de 2025, dados do projeto Copernicus da União Europeia davam conta do abatimento dos solos em Alcácer do Sal", fenómeno associado às intensas captações de água que ultrapassam a capacidade natural de reposição do aquífero.
A associação alertou que, mesmo após a reformulação, o projeto prevê "a extração massiva de 1.740.000 metros cúbicos de água subterrânea por ano, através de 12 furos de enorme profundidade".
Além da pressão sobre os recursos hídricos, a Quercus destacou que o projeto se localiza numa área de elevado valor ecológico, abrangida por vários estatutos de proteção, entre os quais a Reserva Natural do Estuário do Sado, o sítio RAMSAR, a ZPE Açude da Murta, a ZEC Comporta/Galé e a ZEC Estuário do Sado.
Para a associação, este facto "só por si deveria ser motivo mais do que suficiente para justificar o chumbo" da iniciativa. A Quercus sustenta ainda que a reformulação apresentada constitui "uma operação de cosmética", destinada a criar a perceção de ganhos ambientais, quando o projeto continua a ser, na sua opinião, "insustentável e alicerçado em medidas de compensação vagas e não vinculativas".
A organização ambientalista exigiu também ao Governo medidas adicionais, incluindo um parecer do Laboratório Nacional de Energia e Geologia sobre o estado do sistema aquífero de Alcácer do Sal, os potenciais impactos do projeto e os efeitos cumulativos dos empreendimentos agrícolas já existentes na região.