Sergej Barbarez, o jogador de póquer que só queria treinar a Bósnia e Herzegovina

Sergej Barbarez, o jogador de póquer que só queria treinar a Bósnia e Herzegovina

  • 18/06/2026 12:20
  • Redação

"Pode parecer um pouco dramático, mas acredito que esta é a minha missão." É com este sentimento que Sergej Barbarez encara o cargo de selecionador da Bósnia e Herzegovina. Como uma missão, algo a que estava destinado. Talvez essa crença o tenha ajudado a conduzir a seleção dos Balcãs ao segundo Mundial da sua história.

Quando Barbarez nasceu, em 1971, a Bósnia e Herzegovina fazia ainda parte da entretanto extinta Jugoslávia. O jovem Sergej era filho de um futebolista e de uma andebolista, e a sua primeira paixão foi o atletismo. Era especialista nos 400 metros. No entanto, teve de se contentar com o futebol devido à falta de recursos para competir como atleta.

Foi um passo decisivo rumo a uma carreira de ponta de lança que, ainda hoje, é das de maior sucesso na Bósnia e Herzegovina.

Sergej Barbarez destacou-se rapidamente no Hannover e, em 1993/94, rumou ao Union de Berlim. Depois de uma época em que marcou 26 golos em 40 jogos, mudou-se para o Hansa Rostock e, dois anos depois, deu o salto para o Borussia Dortmund. Chegou o dobrar do milénio e o avançado rumou ao Hamburgo, onde se fez ídolo.

Logo na primeira época, Barbarez foi o melhor marcador da Bundesliga, com 22 golos. Os "dino" foram campeões alemães em 2003/04 e conquistaram a Taça Intertoto em 2005, sempre com contribuição do capitão Barbarez, que se tornou um ícone do clube, com 75 golos em 2016 jogos.

Com a seleção, também mostrou a sua qualidade. Averbou 47 internacionalizações entre 1998 e 2004, e marcou 17 golos. Foi capitão desde 2004 até terminar a carreira internacional. Foi, ainda, eleito futebolista do ano da Bósnia e Herzegovina em três ocasiões: 2001, 2002 e 2003.

Faltou a qualificação para um Mundial. Isso viria mais tarde, em 2014, com nomes como Miralem Pjanic, Zvjezdan Misimovic, Vedad Ibisevic e Edin Dzeko a liderar as fileiras. Contudo, o abrir de portas de jogadores como Barbarez é creditado como decisivo para o caminho desbravado pela "geração de ouro".

Babarez terminou a carreira de jogador em 2008, aos 38 anos, depois de duas épocas no Bayer Leverkusen. Mal pendurou as botas, assumiu a intenção de tirar os cursos de treinador necessários e candidatou-se a selecionador da Bósnia e Herzegovina, mas não foi escolhido. A partir daí, definiu como objetivo de carreira treinar a seleção.

Enquanto a oportunidade não chegou, Sergej Barbarez, que ainda chegou a ser dirigente do Hamburgo entre 2009 e 2010, dedicou-se a duas ocupações: a de comentador, com que aproveitou para tecer críticas à gestão do futebol bósnio; e a de jogador de póquer profissional.

Paralelamente, depois de a "geração de ouro" ter tocado o céu, com o primeiro apuramento da história da Bósnia e Herzegovina para um Mundial, em 2014, a seleção ia ladeira abaixo.

Entre 2020 e 2023, houve cinco selecionadores bósnios. Só em 2023, foram três. Além de ter falhado o apuramento para os Mundiais de 2018 e 2022, a seleção balcã falhou os Europeus de 2016, 2020 e 2024 (já não vai a um Campeonato da Europa desde 1996). Até que chegou Sergej Barbarez, um treinador sem qualquer experiência profissional e que tinha no currículo somente os créditos como jogador — de futebol e de póquer.

"Pode parecer um pouco dramático, mas acredito que esta é a minha missão", declarou Barbarez à revista alemã "kicker", em outubro de 2026, seis meses depois de ter sido contratado.

Babarez assinou um contrato de quatro anos, para o ciclo Mundial-Europeu. Desde início, a mensagem dominante foi de estabilidade e o objetivo definido foi o de garantir a qualificação para o Euro 2028. O Mundial 2026 era um sonho, claro, mas não uma meta, até porque a primeira missão era reconstruir uma equipa em cacos e reconstituir o "orgulho de envergar o escudo".

"Ao longo dos anos, as coisas foram de mal a pior. Vou ser muito franco: uma pessoa normal não teria aceitado este trabalho", disse Barbarez.

Barbarez não era uma "pessoa normal", no entanto. Barbarez era um homem com um sonho: "Tenho estado à espera desta oportunidade há muito tempo."

Os primeiro cinco jogos oficiais do antigo avançado ao comando da seleção bósnia, todos na Liga das Nações, foram "brutais", pela negativa. Todos na Liga das Nações. O último foi uma goleada por 7-0, imposta pela Alemanha. Ainda assim, a Federação não retirou a confiança em Barbarez.

O próprio selecionador tomara decisões em prol da recuperação do orgulho de outrora. Contratou antigos companheiros de seleção para a sua equipa técnica e chamou vários jogadores jovens da diáspora bósnia.

Os frutos começaram a chegar na qualificação para o Mundial, com a primeira vitória, já em março de 2025, e outras por aí adiante. A Bósnia e Herzegovina ficou no segundo lugar da fase de grupos, a dois pontos da Áustria, e qualificou-se para o play-off. Aí, começou por eliminar o País de Gales, nas grandes penalidades. Na final, diante da Itália, voltou a triunfar, primeiro com o golo do empate ao cair do pano e, depois, com a vitória nos penáltis.

Doze anos depois da primeira e última vez, já sem a "geração de ouro" e com um Dzeko quase quarentão, os bósnios estavam de regresso ao Campeonato do Mundo.

"No primeiro jogo, quando o hino nacional começar a tocar — esse será o meu momento. Aqueles três segundos serão meus", afirmou Sergej Barbarez, numa entrevista à "Sky", antes do Mundial.

A estreia da Bósnia e Herzegovina no Mundial 2026 terminou com um empate, a um golo, diante do anfitrião Canadá. Do lado de fora da linha lateral, o selecionador era uma figura imponente, com os seus 1,88 metros de altura, de cabelo rapado e barba branca, com reações energéticas, apaixonadas.

Os dragões voltam a entrar em campo esta quinta-feira, diante da Suíça, a partir das 20h00, em Los Angeles, nos Estados Unidos, para a segunda jornada do Grupo B.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: