Direção do PS trava guerras locais. Pede às federações e concelhias que acautelem "o dia seguinte" às eleições
- 19/06/2026 01:10
- Redação
A direção nacional tenta, assim, que a estratégia nacional não seja afetada pelo ruído das lutas internas das federações, que, de resto, são consideradas habituais. Luís Soares desdramatiza o clima de guerra que se vive, por exemplo, em Coimbra, onde há acusações de "pagamento massivo de quotas" e deseja que a eleição na federação “não ponha em causa aquilo que é a nossa ambição maior, que é a ambição de, em Coimbra, fazer com que o PS seja olhado como o grande partido daquela região”.
Luís Soares recusa a ideia de que a maioria das federações e concelhias possam estar ainda sob o controlo de apoiantes de Pedro Nuno Santos e não tenham feito a transição para o atual líder. O dirigente socialista socorre-se dos 96,6% com que Carneiro foi eleito: “Esse resultado expressa bem aquilo que é a convergência em torno da atual liderança”.
Após estas eleições, a direção de Carneiro quer rever os estatutos do partido e preparar o PS, “não para os próximos dois anos”, mas para a “próxima década”, diz Luís Soares.
Tem havido a leitura de que a maioria das concelhias e federações ainda está afeta ao anterior secretário-geral, Pedro Nuno Santos. José Luís Carneiro não tem o controlo total do partido?
José Luís Carneiro venceu as eleições para a liderança com 96% dos votos dos militantes, acho que esse resultado expressa bem aquilo que é a convergência em torno da atual liderança e, aliás, creio que ela resulta do trabalho que foi feito nos últimos oito meses de envolvimento de todas as sensibilidades do partido, de todos os dirigentes do partido, de todos aqueles que quiseram participar e contribuir para esta missão que é a de fazer reencontrar o PS com a grande massa do povo português. E, portanto, não se trata de controlar o partido, trata-se de fazer do PS um espaço de convergência de ideias, de unidade na ação, mas de pluralidade de pensamento, que é o que o PS sempre foi e este timbre que temos procurado colocar no partido é aquele que continuará a marcar a ação política do PS para os próximos tempos.
O José Luís Carneiro mantém uma ligação profunda com as pessoas em geral, aliás, é uma característica que quem o acompanha pode perceber, é o carinho com que é recebido pelos cidadãos comuns, sejam eles militantes do PS ou não. E essa é, porventura, a sua melhor característica, a de criar empatia com as pessoas, de gerar confiança naquilo que é a sua ação, que resulta aliás da história que o acompanha, não só enquanto autarca, mas também como dirigente governativo e agora como secretário-geral do PS.
As disputas que existem nas concelhias e federações do PS são por questões puramente locais ou atribui a posicionamentos para o futuro dentro da máquina do partido?
As disputas eleitorais nos partidos são salutares, uma organização feita de unanimismo, é uma organização com pouca fibra, com pouco futuro.
É bom que haja camaradas que procurem disputar aquilo que é o exercício das funções de liderança, seja nas estruturas concelhias, seja nas estruturas federativas. O que nós temos procurado dizer é que essas disputas não devem pôr em causa aquilo que é o respeito pelos princípios do PS, o respeito mútuo que deve haver entre camaradas e, sobretudo, que não põem em causa o dia seguinte ao dia das eleições, ou seja, que todos os camaradas no dia seguinte às disputas partidárias que puderem vir a existir possam trabalhar para esse grande desígnio comum que é o de fazer do PS aquilo que o partido sempre foi, uma grande força política, credível aos olhos dos cidadãos e onde cada um dos camaradas tem um espaço de intervenção.
É essa a nossa mensagem, é isso que temos feito com as duas vitórias do secretário-geral José Luís Carneiro e é isso que nós apelamos para que todos os camaradas nas concelhias e nas federações também possam fazer do ponto de vista local e regional.
O dia seguinte está em causa, por exemplo, em Coimbra, onde há ameaças de queixas-crime e de providências cautelares devido ao pagamento massivo de quotas?
Sabe que a federação de Coimbra tem um histórico, não é de hoje que se coloca este tipo de questões, muitas delas de natureza até mais processual do que propriamente política. Já há dois anos houve em duas concelhias a suspensão do ato eleitoral. O nosso desejo é que os camaradas em Coimbra possam protagonizar a disputa no plano das ideias e que se possam respeitar essas diferenças.
Quero acreditar que no dia seguinte ao dia do ato eleitoral, aquele que vence e aquele que não ganhe possam procurar encontrar um caminho de convergência e de espaço para a participação de todos, porque só assim é que, de facto, o partido, também em Coimbra, pode acalentar um processo de recuperação daquilo que é a sua verdadeira força e o peso que tem, também enquanto estrutura, no país.
As regras são conhecidas de todas e de todos há largos anos, a última revisão estatutária aconteceu em 2018, aquilo que, neste momento, está a acontecer é os órgãos que têm competência própria nessa matéria, os órgãos de jurisdição, estão a trabalhar e estão a funcionar. A nossa função é a de garantir o cumprimento do processo eleitoral e garantir o cumprimento das decisões que os órgãos jurisdicionais tomem.
É esse o nosso compromisso, é essa a nossa garantia e aquilo que desejamos mesmo é que este processo não ponha em causa aquilo que é a nossa ambição maior, que é a ambição de, em Coimbra, fazer com que o PS seja olhado como o grande partido daquela região e o grande partido que ajudou aquela região a ter a importância que tem no contexto do país.
O secretário-geral do PS tem prevista uma revisão dos estatutos do partido na moção que apresentou ao Congresso. Essa revisão pode resolver estes dramas pré-eleitorais que o PS vive periodicamente?
A revisão estatutária que está prevista na moção do José Luís Carneiro tem uma ambição que é de, no fundo, olhar para a organização e para o funcionamento do PS e contemporaneizar essa organização e o seu funcionamento. Os partidos têm mesmo de criar espaços e regras e formas de participação em que o cidadão comum se reveja e que permitam que o cidadão queira mesmo participar. Aliás, nesta campanha eleitoral houve um esforço do secretário-geral para além de ouvir os militantes e os simpatizantes do PS, ouvir também a sociedade civil, académicos, trabalhadores, profissionais liberais, enfim, pessoas que ora simpatizando com o PS, ora votando ou não no PS, estão disponíveis para dar o seu contributo.
Esta revisão estatutária tem também como objetivo dar ainda uma maior abertura e transparência à vida interna do PS e nós queremos fazê-lo de forma tranquila e serena.
Repare que o nosso secretário-geral foi eleito há oito meses para completar um mandato que tinha ficado a meio e havia a necessidade de legitimação quer desta liderança nacional quer agora também das lideranças regionais e locais e não faria sentido que o secretário-geral fizesse aplicar a si essa legitimação sem que o fizesse também aos órgãos locais e federativos e findo este período eleitoral interno temos aqui um hiato de dois anos que é o tempo que, com serenidade, permite então fazer uma reflexão que nós queremos que seja, por um lado transparente, que permita ser feita aos olhos de todos sem qualquer tipo de opacidade, mas, sobretudo, que seja participada, ou seja, envolvendo os militantes, envolvendo os cidadãos, envolvendo especialistas para que o produto final desta revisão estatutária seja algo que permita que o partido esteja preparado, não para os próximos dois anos, mas que esteja preparado para a próxima década e que o PS seja, como tem sido sempre, um farol, até para outras organizações partidárias, de renovação, de transparência e também de modernidade.
Bom, mas a moção do PS, de José Luis Carneiro, prevê uma revisão, por exemplo, sobre o pagamento de quotas, isso vai permitir atenuar os problemas nas disputas internas?
Eu espero que não atenue as disputas eleitorais, porque isso significaria que a organização estava a trabalhar para ser uma organização de sentido único, de sentidos únicos e nós não queremos isso. As disputas eleitorais são importantes no quadro de uma organização partidária, nós não somos um partido monolítico, nós somos um partido plural. O PS existe há mais de 50 anos e não vamos agora querer dar a ideia de que tudo o que acontece no partido é uma coisa nefasta, má, pelo contrário, o partido foi uma organização que se soube sempre adequar a cada tempo que vivia e é isso que nós também estamos a fazer.
Quem esteve para trás, quem teve responsabilidade para trás, desde os nossos fundadores até agora, não estiveram mal, eles foram sempre adaptando o PS àquilo que eram no fundo as exigências e os tempos que cada um viveu e é isso que nós também temos que fazer neste processo de revisão estatutária e é isso que faremos verdadeiramente, é esta adequação aos novos tempos que vivemos para que o partido possa continuar a ser uma estrutura olhada com fiabilidade, como uma organização de gente boa, que é o que é, gente simples, gente trabalhadora e é isso mesmo que nós queremos fazer.
Este ruído em torno das eleições nas concelhias e nas federações do PS não atrapalha a ação política do secretário-geral do partido, que tem querido marcar a agenda, por exemplo, com temas em torno da formação profissional, a economia do mar ou a alternativa sobre políticas públicas?
Nestes dois dias, 19 e 20 de junho, temos cerca de 300 atos eleitorais pelo país, nós somos 45 mil militantes e temos reclamações de cerca de 3 a 4 militantes numa federação concentrada. Portanto, este processo de participação vai ser um processo larguíssimo, que mostrará a vitalidade do partido, que mostrará a vontade que muitos camaradas têm de continuar a trabalhar pelas suas terras, pelas suas freguesias, pelos seus concelhos, pelas suas regiões e que fazem, de facto, do PS um partido com uma grande latitude de norte a sul do país, dos pontos mais recônditos aos pontos mais urbanos. É isto que esta eleição significa e é precisamente também esta força que robustece a ação do nosso secretário-geral.
Eu costumo dizer que o PS não é só a soma das suas partes, ou seja, há um PS que tem uma visão do país, certo, mas que também é o resultado da soma das visões das regiões, dos concelhos, das freguesias do nosso país. É esta a grande força que faz do PS ser aquilo que é. E, portanto, apesar destas parcas contestações, a que certamente os jornalistas e alguns interessados procuram dar visibilidade, aquilo que esta eleição verdadeiramente significa é mostrar o PS como um grande, talvez o maior partido português, que tem nas suas freguesias, nos seus concelhos, nas suas regiões, representantes que querem contribuir para o desenvolvimento das suas terras. E nós não nos desviaremos disso, o nosso secretário-geral fica robustecido pela ação destes camaradas.