"Pode perfeitamente ser português". Margarida Marques quer Portugal a negociar paz na Ucrânia, mas exclui Durão Barroso

  • 19/06/2026 02:00
  • Redação

Depois do primeiro-ministro português, também a socialista Margarida Marques defende que o enviado da União Europeia (UE) para a paz na Ucrânia deve ser português – mas coloca Durão Barroso fora da equação.

“Durão Barroso, como presidente da Comissão Europeia, teve um papel muito ativo em Minsky e hoje nós estamos a viver as consequências de Minsky”, afirma a ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeus que, contudo, prefere não se comprometer.

“Acho que Portugal tem capacidade de encontrar, como já encontrou, noutras circunstâncias, gente muito competente para essa função. Neste momento, da minha parte, não tenho nenhuma sugestão”, afirma.

Ainda assim, a socialista é rápida a delinear o perfil: tem de ter um “perfil negociador”, que tenha “neutralidade histórica entre as duas partes” e que, por isso, não seja oriundo de um “país báltico”, como acontece com a atual chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas.

“Não sei se é prematuro, ou seja, acho que a urgência não é os Estados-membros entenderem-se sobre um enviado especial. Acho que é necessário abrir portas e começar a conversar um bocado na linha daquilo que surgiu de afirmações do presidente do Conselho Europeu, António Costa, na reunião do G7”.

Já na perspetiva de Manuel Poêjo Torres, comentador residente do Escala Global, a abertura de canais de comunicação são “essenciais”, mas servirão de pouco para garantir o fim da guerra ou evitar um novo conflito.

“Se se mantêm latentes as diferenças e os contrastes estratégicos entre os dois beligerantes, mais tarde ou mais cedo, teremos uma Rússia rearmada, fortificada, com uma mentalidade preparada para a guerra, porque morreram milhares de famílias em luto na Rússia e na Ucrânia. Estará mais capacitada do ponto de vista da sua cultura política para conseguir gerar o novo conflito que provavelmente não será só na Ucrânia”, avisa, pedindo à Europa que aumente o investimento numa lógica de “defesa total”.

Depois de Kaja Kallas comparar Telavive ao racismo do Apartheid da África do Sul, o governo israelita decidiu romper as relações exteriores com os "27". Uma decisão que veio de Israel, mas que Margarida Marques considera que a Europa já devia ter tomado há muito.

“A posição da Europa sobre Israel é inaceitável”, defende. “É inaceitável que a Europa não tenha conseguido chegar a acordo relativamente à posição designadamente de suspender o acordo de associação entre a União Europeia e Israel.”.

Na visão desta antiga eurodeputada, a suspensão devia ser total, mas só deixar cair parte do entendimento já “seria um passo”. E, aqui, a culpa não é de António Costa que tem “feito tudo” para procurar um consenso dentro dos "27" – a responsabilidade é de Ursula von der Leyen.

“A Comissão Europeia tem competência para suspender parcialmente o acordo. É claro, nos tratados da União Europeia, que a UE só pode ter um acordo de associação com países que respeitem os direitos humanos”, aponta, rejeitando que o fim do acordo trouxesse efeitos económicos negativos.

Quanto ao entendimento de paz entre Estados Unidos e Irão, Margarida Marques mostra-se preocupada com o risco vindo de Israel e dos persistentes ataques ao Líbano. E relembra que a conquista territorial nunca saiu da cabeça do governo de Benjamin Netanyahu.

“Há algum tempo, um dos ministros de extrema-direita de Netanyahu explicava que o objetivo é o grande Israel. E o grande Israel é a ocupação da Jordânia, do Líbano, da Síria e do Irão. Nós sabemos que essa é a estratégia de Israel. O que está a passar no Líbano é exatamente aquilo que se passou em Gaza e depois na Cisjordânia. E, na Cisjordânia, não há Hamas”.

Relativamente aos 60 dias de negociações que arrancam agora – e, durante os quais, Estados Unidos e Irão vão fechar muitas pontas soltas que subsistem no memorando de entendimento –, a ex-secretária de Estado considera que o programa nuclear não vai ser o principal ponto de tensão entre os dois países.

“Relativamente ao estreito do Ormuz com novas regras, vamos ver se essas regras respeitam o direito internacional do mar ou se estão também, mais uma vez, a destruir aquilo que é o compromisso do direito internacional. Não acho que a questão do nuclear seja a questão mais complexa nesta negociação. A não ser que os Estados Unidos voltem com a ideia de que querem que lhes seja oferecido o urânio enriquecido do Irão”.

  • Fonte: Rádio Renascença
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