Portugal e França nos negócios é um amor correspondido
- 19/06/2026 02:00
- Redação
Portugal é hoje parceiro comercial de pleno direito de uma das maiores economias da Europa, a França. Os empresários nacionais e o país conquistaram esse lugar ao longo das últimas décadas e hoje atraem capital na mesma medida que investem no exterior.
É uma das conclusões do estudo “Portugal e França: Economia, Competitividade e Oportunidades de Crescimento”, de Pierre Debourdeau, que será apresentado esta sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian.
Segundo este trabalho, promovido pelos Conselheiros do Comércio Externo da França, em parceria com a Eurogroup Consulting Portugal, a relação entre os dois países evoluiu para “um patamar em que ambos participam cada vez mais nas cadeias de valor, centros de competência e projetos industriais de dimensão europeia”.
Portugal já não é o país dos baixos salários, garante o autor deste estudo. Hoje recebe “funções estratégicas e centros de engenharia, tecnologia e operações críticas para alguns dos maiores grupos franceses, numa transformação que está a alterar a natureza da relação económica entre os dois países”.
Exemplos não faltam. Os franceses estão na Altice, antiga Portugal Telecom, compraram agora o Novo Banco e estão na corrida pela TAP. No sentido inverso, a EDP Renovável investe fortemente em solo francês.
“Imagine o nível de confiança que devemos ter para um banco comprar um banco?”, questiona Pierre Debourdeau.
França já é o maior investidor europeu em stock, em volume ocupa a segunda posição, atrás de Espanha, com 18,8 mil milhões de euros investidos em Portugal. É o terceiro destino das exportações portuguesas, o terceiro fornecedor comercial do país, tem mais de 1.600 filiais e garante aproximadamente 130.000 postos de trabalho.
Segundo este estudo, os investidores franceses privilegiam a previsibilidade, que decorre da estabilidade institucional, do enquadramento europeu e da abertura ao exterior.
Outra mais-valia são as pessoas. “Portugal tem uma das populações mais qualificadas da Europa do Sul, com 43% dos jovens entre os 25 e os 34 anos com ensino superior e um nível de proficiência em inglês que coloca o país em sexto lugar mundial”.
Destaca-se ainda a localização geográfica de Portugal. Uma posição atlântica privilegiada, uma rede única de ligação ao espaço lusófono, infraestruturas como Sines e uma matriz energética onde as fontes renováveis já representam mais de 70% do consumo elétrico.
O outro lado da moeda são os “bloqueios”, que podem condicionar os investimentos. O autor identifica quatro situações específicas:
1. A morosidade judicial e a imprevisibilidade. Pierre defende, por exemplo, “um claro recuo, para que a arbitragem não tenha recurso, como acontece nos outros países”.
2. O licenciamento lento e com resultados imprevisíveis, que afeta sobretudo projetos industriais e infraestruturas.
3. Os atrasos na ferrovia e na mobilidade limitam a capacidade de Portugal de se integrar em cadeias de valor mais sofisticadas e de atrair talento.
O autor defende a “criação de uma agenda de crescimento das parcerias franco-portuguesas, que devia ser acompanhada por empresas, entidades estatais e bancos de investimento, porque ainda há muito para desenvolver”.
O estudo identifica ainda três áreas onde Portugal e França apresentam vantagens complementares.
Uma delas é a transição energética e o mix elétrico, onde Portugal se destaca com uma grande cobertura do consumo pelas renováveis e com a infraestrutura de Sines, considerada “única”. Portugal tem os ingredientes para se tornar “uma plataforma digital e energética de escala europeia”.
Atrativos para investimentos bilaterais são também os clusters industriais e de engenharia já existentes. “A presença da Airbus, da Renault, da Faurecia ou da Transdev demonstra que a base produtiva existe, o que falta é transformar essa presença em ecossistema: mais fornecedores integrados, mais I&D, mais funções de engenharia e produto que permitam subir na cadeia de valor”.
Os dois países devem ainda explorar em conjunto mercados terceiros, “nomeadamente lusófonos”. Este trabalho sublinha “a combinação da rede histórica e cultural portuguesa em África e na América Latina com a presença global de grandes grupos franceses”, que proporciona “uma plataforma de criação de valor que nenhum dos dois países consegue replicar sozinho”.
O estudo recomenda investimentos em áreas de valor acrescentado; ligar talento, habitação e mobilidade numa mesma política de competitividade; acelerar a integração das PME portuguesas em cadeias de valor francesas e apoiar a entrada direta no mercado francês; concentrar o esforço em clusters; remover bloqueios públicos.