Último projeto de Jorge Constante Pereira será apresentado em conversa este domingo

Último projeto de Jorge Constante Pereira será apresentado em conversa este domingo

  • 19/06/2026 07:00
  • Redação

Este domingo, data em que celebraria o seu 81.º aniversário, amigos e família de Jorge Constante Pereira vão reunir-se no Ateliê António Carneiro, no Porto, para um momento íntimo de partilha e celebração da vida e do trabalho do compositor e dramaturgo, propondo uma conversa em torno de um futuro livro-disco - o último projeto em que Jorge Constante Pereira trabalhou - na sessão "O que conta uma Clepsidra que tem saudades dentro?", onde amigos, família e admiradores terão a oportunidade de ouvir a única gravação em “cru” que o compositor deixou.

Jorge Constante Pereira, que faleceu em 2023, é amplamente conhecido pela sua obra que marcou várias gerações através, nomeadamente, de projetos para a infância, teatro e televisão. “Cantigas de Ida e Volta”, obra com a qual se estreou em 1975 - e um dos primeiros discos do pós-25 de Abril -”A Árvore dos Patafúrdios” e os “Amigos do Gaspar” são alguns dos projetos mais conhecidos do compositor.

A leitura conjunta de uma série de poemas do livro "Clepsidra", de Camilo Pessanha, será o mote para as conversas que se seguirão. Susana Constante Pereira acredita que o pai “arriscou musicar numa linguagem mais adulta” os poemas da obra de Pessanha “que o apaixonava”.

Após o falecimento do compositor, a família tomou a iniciativa de levar este “desejo” avante. "Após vários anos de maturação e trabalho discreto", o projeto artístico pode agora avançar com o apoio do Fundo Cultural SPAutores/AGECOP, e em co-produção com o Museu e o Município do Porto.

O facto de terem conseguido “uma primeira parte do financiamento“ para a concretização da iniciativa é mais um motivo de celebração para todos os envolvidos no projeto. “Vamos contar às pessoas um bocadinho mais do que é este livro-disco a que ele (o pai) quis dar forma em torno deste conjunto de poemas do Camilo Pessanha”, explica Susana Constante Pereira acrescentando que vão também proporcionar ao público “uma pequeníssima amostra de escuta do que ele deixou (...) porque depois o que vai acontecer nos próximos meses é precisamente o trabalho que, se cá estivesse, faria ele”, afirma.

Susana Constante Pereira recorda quando o pai manifestou a vontade de começar este livro-disco. “Ele já tinha começado a falar com pessoas sobre ele, desde logo o Sérgio Godinho, que estava mais do que por dentro do que se pretendia e é uma peça também essencial nesta aventura, teria sempre estado com ele nela”, aponta a filha do compositor, sem deixar de mencionar outros nomes que Jorge Constante Pereira gostaria que fossem seus “cúmplices” e com quem já teria partilhado a ideia.

Pedro “Peixe” Cardoso é uma deles - e que vai assumir a direção musical do projeto - assim como o guitarrista Rui Vilhena, um dos membros do grupo vocal de 1991, Vozes da Rádio, a quem o compositor recorria “sempre que era preciso gravar”.

Apesar de se conseguir perceber o futuro que o compositor ambicionava para este projeto, e de serem conhecidos alguns dos nomes com quem o compositor queria partilhar o trabalho, “calçar os sapatos”, como refere a Susana, de Jorge Constante Pereira, é ainda assim o grande desafio do processo.

“É um desafio porque há aqui uma quase responsabilidade de nós termos o que o meu pai deixou (...) mas o corpo que a música ganha sempre foi uma parte do processo dele, e que já não está cá para fazer”, e por essa mesma razão a família ponderou com muito cuidado quem iria assumir o comando do processo "pensámos muito em quem é que poderia ser esta pessoa, e a certa altura chegámos à ideia de ser o “Peixe”", conta Susana Constante Pereira.

A escolha da pessoa que vai redigir o prefácio do livro-disco pode ser um outro exemplo, neste caso também uma “aposta” que Susana Constante Pereira acredita ser o “match perfeito”, visto que o escritor Manuel António Pina - a escolha inicial de Jorge Constante Pereira - havia falecido. Fala de Rui Lage, “um perito em Manuel António Pina” e que por isso acredita que “vai olhar para este trabalho, com esse sentido”, mas que também partilha da mesma ligação entre a música e a poesia que o compositor, aspeto que lhe chamou atenção.

Apesar de ser um trabalho de equipa, Susana Constante Pereira sublinha o facto de esta ser uma iniciativa que surgiu do próprio compositor, ao contrário de uma grande parte dos seus trabalhos que realizou em parceria.

"Foi um ímpeto artístico, criativo, que ele teve vontade de si de dar forma individualmente”, assegura, sem deixar de referir que “se ele estivesse aqui a ouvir-me, ralhava-me, não é justo dizer que é verdadeiramente unipessoal, porque o que é facto é que mesmo que o ímpeto possa vir dele, ele sempre foi recorrendo a outros. Nunca aceitaria que se dissesse que isto é só dele”.

Este livro-disco vai contar ainda com a participação das netas do compositor, criadoras da estrutura Baú da Rua 19 - a promotora desta iniciativa - que vão dar voz “em jeito de posfácio” à ideia “da semente para o futuro”, que Susana Constante Pereira assegura ter “toda a cara” do pai.

“Não estamos cá só nós os filhos e os cúmplices deles, está aqui uma geração nova que na mesma bebe do que ele deixou, e que lhe vai dar impulso e seguimento”, sublinha Susana Constante Pereira.

A sessão "O que conta uma Clepsidra que tem saudades dentro?" vai ter lugar no Ateliê António Carneiro, no dia 21 de junho, este domingo, pelas 17h00, com entrada livre, sujeita à lotação do espaço.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: