Kenji Gorré, o "boavisteiro" que joga na seleção mais pequena do Mundial: "O país está maluco"
- 19/06/2026 06:20
- Redação
Kenji Gorré arrepia-se quando lhe perguntam se está a viver a melhor semana da vida dele. O antigo futebolista de Boavista, Nacional e Estoril Praia, um dos elementos do surpreendente Curaçau que até fez um golo à Alemanha, reconhece que albergou borboletas na barriga na véspera da estreia no Campeonato do Mundo.
Ao pescoço, leva um colar com o mapa do país. Foi um companheiro de seleção que deu a todos os jogadores, "um gesto muito bonito da parte dele". No coração, o orgulho de representar o país mais pequeno a jogar este Mundial. Em entrevista a Bola Branca, Gorré confessa que o pai é o adjunto de Dick Advocaat e que não pede cunhas, reflete sobre a religião e fala dos tempos difíceis no Boavista (e ficou triste quando soube do possível fado do Bessa).
Kenji, peço desculpa por estar a interromper a melhor semana da sua vida… podemos chamar-lhe assim?
Só de dizeres isso já me arrepia. Dizer que sou jogador de Mundial… é muito importante. É um sonho que se tornou realidade. Eu estou muito feliz e sinto-me abençoado por estar aqui a vivenciar isto. Mesmo o jogo contra a Alemanha. Estamos muito gratos por termos esta experiência. E mesmo que o resultado não tenha sido o que desejávamos, conseguimos mostrar um vislumbre das qualidades que temos, tanto dentro como fora de campo. E fora de campo estamos a divertir-nos. Estamos a transmitir boas vibrações, a trazer energia. Estamos a gostar da experiência, isto é o auge do futebol.
Nós sabíamos que seria difícil. Estás a jogar contra os melhores jogadores do mundo. A Alemanha já ganhou o Mundial quatro vezes. Não é coincidência que estejam onde estão. Para nós é a primeira vez. Ainda mais sendo o país mais pequeno de sempre! Temos de pôr as coisas em perspetiva. É claro que viemos para vencer, queremos ter resultados e tudo mais. E estamos a fazer o nosso melhor para o conseguir. Mas também temos de olhar para o lado positivo. E é isso que Curaçau representa, olhamos sempre para o lado positivo das coisas. O facto de estarmos aqui no Mundial já é uma vitória. E o facto de termos marcado o nosso primeiro golo também é um feito absolutamente incrível.
Quando a bola entrou, fui direto para o canto. Corri para lá e festejei com os meus colegas. E foi simplesmente incrível porque… isto é grandioso. Ainda por cima foi o golo do empate, o 1-1, numa altura em que estávamos no ataque. E pensámos "Uau, podemos fazer realmente alguma coisa aqui". Era aquela crença real de que não estamos aqui só por estar. Estamos aqui para competir. Obviamente que o resultado foi o que foi, mas deu-nos muita confiança.
Foi difíci [risos]. Foi muito, muito difícil conseguir dormir. Mas, sim, consegui dormir algumas horas. Sentes as borboletas na barriga, são sensações que nunca senti antes. É uma experiência incrível.
E como é que se lida com esses sentimentos todos… estando no banco de suplentes? É que não entrou no jogo contra a Alemanha.
Bem, eu quero jogar, obviamente. Quero estar em campo, quero mostrar o que posso fazer. Mas, por outro lado, não se trata de uma só pessoa. Não se trata de mim. Trata-se do país. É sobre a nação. E estamos a representar algo muito maior do que eu. Eu sei que a minha hora vai chegar, o meu momento vai chegar. E espero estar pronto para mostrar o que sei fazer no maior dos palcos. Porque, no final de contas, estes momentos são passageiros.
Foi difícil. Para ser sincero, foi muito difícil. Uma goleada de 7-1 nunca é fácil. Mas, como disse, focamo-nos no lado positivo, no lado bom das coisas. E o lado bom é que estamos aqui. E isso significa que merecemos estar aqui. E vamos para os próximos jogos cheios de esperança, cheios de ambição, cheios de coragem para ir lá e ganhar. Porque acredito que ainda vamos fazer alguma coisa especial. Mesmo já o tendo feito, acredito que ainda podemos fazer mais pelo nosso país.
Está comigo em todo o lado. Foi um dos jogadores da equipa que nos deu de presente. Foi um gesto muito bonito da parte dele.
Claro! Curaçau é uma pequena ilha das Caraíbas. Temos algumas ilhas pequenas nas proximidades, Aruba e Bonaire. Daí serem conhecidas como Ilhas ABC. Curaçau é uma ilha linda, linda. Cheia de amor, cheia de alegria. É um local perfeito para relaxar. Lembra um pouco a Madeira, tive lá essa sensação. Praias realmente limpas e agradáveis, águas azuis cristalinas. Muita gente pratica snorkeling e mergulho por lá. Vê-se muitas coisas bonitas em Curaçau. A comida é fenomenal, é um lugar realmente incrível para passar as férias, é um país lindíssimo.
O país está a ficar maluco. Dizem-nos que nunca houve uma loucura tão grande na história. É simplesmente incrível. O impacto que estamos a ter na próxima geração, o impacto que estamos a ter nas pessoas que estão lá agora. É realmente uma história de esperança. É a história de sonhos que se tornam possíveis, mesmo quando pareciam impossíveis.
O futebol nunca foi o desporto mais popular no nosso país. Há muitos jogadores de basebol famosos, por exemplo. Mas agora, com o crescimento do futebol, acho que está a pode começar a ganhar-lhe o lugar.
Não. A minha mãe é de Curaçau, o meu pai é do Suriname. E conheceram-se nos Países Baixos. Foi lá que eu nasci, mas cresci no Reino Unido. Tinha cinco anos quando me mudei para Inglaterra. Mas é da minha mãe que vêm as minhas raízes de Curaçau. Quando o selecionador me ligou para dar notícia de que me ia dar uma oportunidade, vi a minha mãe em lágrimas. Foi aí que pensei: "Uau, isto é maior do que eu. Tipo, é muito maior." E mal posso esperar por representar o país dela e da minha avó.
Sim, todos os dias. E acho fantástico poder partilhar estes momentos com a minha família. É incrível. Este não é apenas o meu sonho: também é o da minha mulher, da minha mãe e do meu irmão. Eles estão a vivê-lo através de mim, e é incrível que possam fazer parte desta viagem comigo. Ainda mais com os meus filhos, é fantástico tê-los aqui e poder viver tudo isto com eles. Ainda por cima o meu pai é o treinador-adjunto.
[Risos] Isto não é sobre mim, é sobre a seleção nacional. É sobre Curaçau e eles estão a fazer o possível para escolher a melhor equipa, aquela que acham que vai ganhar. Obviamente que eu quero estar em campo e acredito que posso causar impacto e ser útil para a seleção. Mas também venho de uma lesão, tive uma pequena lesão no joelho, fui operado pouco antes de vir para cá. Estou a recuperar um pouco disso também, mas já estou em forma.
Apesar de não ter entrado no jogo contra a Alemanha, falou com algum jogador alemão? Pediu a camisola a alguém?
Ótima pergunta, ótima pergunta. Obviamente que é incrível jogar contra estes jogadores de nível mundial. Vês o Havertz, o Wirtz. Mas eu destaco antes um amigo muito próximo meu, o Felix Nemecha. Nós crescemos juntos em Manchester e também fazemos parte de um movimento cristão chamado Ballers in God, que basicamente é um encontro virtual de cristãos no Zoom. Ele é como um irmão para mim, vivemos a vida juntos. Estar agora no maior palco com ele é como um sonho tornado realidade para ambos.
Ele até marcou. Como é que se reage a um golaço do melhor amigo… mas contra a sua equipa?
Num primeiro momento, fiquei furioso. Pensei: "Meu Deus, não!". Mas depois, comecei a pensar: "Uau, é um feito incrível para ele marcar no Mundial e para mim também". É fantástico. Porque no final de contas, isto é maior do que o futebol. Estas coisas são maiores que o futebol.
Somos cristãos e essa é a nossa identidade acima de tudo. Nós rezámos juntos depois do jogo. Foi a primeira vez na história dos Mundiais que duas seleções nacionais se juntaram para rezar juntas, o que foi lindo.
Sim, sim. Juntámo-nos no círculo central, reunimo-nos e tivemos um momento juntos em campo. Claro que estávamos a competir, mas fora do campo éramos irmãos em Cristo.
Sim. E nessa altura, o Manchester United era o maior clube do mundo. Tinha o melhor treinador, Sir Alex Ferguson, com jogadores incríveis. Ferdinand, Evra, Wayne Rooney… podia continuar.
Depois passa pelo Swansea e chegas a Portugal, primeiro no Nacional da Madeira. Foi lá que foi treinado pelo Luís Freire, que é atualmente Selecionador Nacional de Sub-21. Numa altura em que se fala tanto da saída do Roberto Martínez, acha que o Luís Freire seria uma boa escolha para Selecionador Nacional de Portugal?
Quando falamos da Selecção Portuguesa, estamos a falar dos melhores jogadores do mundo. Estás a lidar com personagens marcantes, com talentos de nível mundial. E precisas de um líder para liderar esses jogadores, precisas de ter personalidade para liderá-los. E acredito que ele tem definitivamente o que é preciso para isso. Porque ele tem as suas ideias, tem um estilo de jogo muito próprio. Se não jogares como ele quer, ele não fica satisfeito. É muito preciso no que quer.
Depois, o Luís Freire sai e entra o Manuel Machado, uma figura curiosa do futebol português… tem alguma história com ele?
[Risos] Sim, sim. Foi uma altura muito, muito interessante quando ele chegou. Ele não conhecia muitos dos jogadores. Não sabia o nome da maior parte de nós, não conhecia ninguém. Era uma dinâmica muito interessante.
Vamos ao Boavista. Chegou ao clube num momento de grande investimento, mas também de muitas promessas quebradas. Chegou a ter salários em atraso no Boavista?
Foi muito difícil. Muito, muito difícil. Como jogador, esperas que o teu dinheiro chegue e que seja suficiente para pagar as tuas despesas. Quando as finanças ficam bloqueadas e o futebol para, é difícil viver e preparares o teu o futuro. Porque o futebol é uma fase curta da nossa vida, é preciso preparares-te para o futuro. Foi um período difícil, jogar e treinar sem receber salário foi muito complicado.
Foram os salários em atraso. Se não pagas aos teus jogadores, se assinas um contrato, mas o contrato não é cumprido, és multado pela FIFA. E as multas aumentam mais e mais e depois não consegues inscrever nenhum jogador. Tudo porque não pagaste aos outros jogadores. Depois, a partir daí, entras numa espiral descendente. Mas é um clube enorme. Os adeptos eram fantásticos, eu adorei estar lá, diverti-me muito lá. Alguns dos meus melhores jogos de futebol foi com a camisola do Boavista. Estarei eternamente grato por ter tido a oportunidade de experienciar aquele ambiente e jogar naquele estádio todas as semanas. Fico muito triste por ver o clube na situação em que se encontra hoje e espero sinceramente que volte a ser um clube de topo.
Penso que não é de uma pessoa específica. Não sei quem estava no comando na altura, mas havia muita gente envolvida. E quando há dinheiro envolvido, nunca se sabe quem está por trás. É difícil culpar uma pessoa porque o problema está mais nas lacunas que a compõem.
Não sei se sabe, mas o Estádio do Bessa foi a leilão e foi vendido. Há a possibilidade de ser demolido. Como se sentes a ouvir isso?
Uau, que triste. Isso é muito triste, não sabia disso. Fiquei mesmo tocado quando o disseste, porque me faz pensar em todos os momentos que lá vivi. Eu e os adeptos, porque são pessoas que amam o clube. São pessoas que dariam a vida pelo Boavista, e esta ligação que tive com eles é muito raro de se sentir. Tenho pena de todos os adeptos do clube, porque é realmente terrível saber que um clube como o Boavista está, sabes, a ir para o buraco. É muito triste.
Terminamos ainda em Portugal: já teve a oportunidade de regressar à Liga Portuguesa desde que saiu, em 2023?
Sim, já tive algumas oportunidades. E foi difícil decidir, mas neste momento a minha carreira seguiu o rumo que seguiu. Mas como já disse anteriormente, Portugal é um lugar incrível e eu adoro-o. Voltaria para lá viver, para jogar nunca se sabe. No futebol, nunca se sabe o que o futuro nos reserva, ainda por cima a janela de transferências vai abrir em breve. Agora estou no Maccabi Haifa e estou a gostar muito de estar lá. Mas como disse, no futebol nunca sabemos o que vai acontecer e adorei o meu tempo em Portugal. Por isso nunca fecharia totalmente a porta.